“Para mim, a memória é viver, e a escrita é respirar.” Entrevista com Edith Bruck

Foto: Pixabay

25 Fevereiro 2021

Afável, gentil, sorridente, um jeito firme, mas doce de falar e de agir. Nunca se poderia imaginar o inferno em que Edith Bruck viveu e de onde voltou. Assim como, ao vê-la, não se adivinha a sua idade. Um corpo esguio e ágil, um rosto que permaneceu belo e os olhos claros que conservam lampejos de ternura e estupor, Edith não tem nada de uma quase nonagenária, pelo contrário, assemelha-se à menina de tranças loiras que sorri para a vida em uma fotografia. Ela conversa conosco na sua casa no centro de Roma, onde o sol de um janeiro ameno entra generosamente para iluminar a sala e os dois sofás brancos rodeados de livros e quadros. Ela conta com uma memória prodigiosa não só os eventos, que reconstrói nos mínimos detalhes, mas também os pensamentos e os sentimentos de quem viveu a deportação e o extermínio.

 

A reportagem é de Francesca Romana de’ Angelis, publicada por L’Osservatore Romano, 26-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Auschwitz, Dachau, Bergen-Belsen: três nomes que, apenas ao ouvi-los, cortam o fôlego. Ela fala, e eu escuto, mas às vezes a dor se torna tão insuportável que a sua voz se corta, e os seus olhos se enchem de lágrimas. Edith chora, e eu com ela. Quando ela volta a falar, eu pego a caneta de novo, mas, diante da folha branca, me pergunto como é possível narrar esse horror infinito com palavras humanas.

 

Mesmo assim, Edith Bruck dedicou a sua vida ao testemunho. Foram dois desconhecidos, dos quais ela recolheu a última voz no campo de concentração de Bergen-Belsen, que lhe pediram que ela testemunhasse: “Conte, não vão acreditar em você, mas, se você sobreviver, conte, também por nós”. Edith manteve a sua promessa.

 

Eis a entrevista.

 

Gostaria de começar pela pergunta que eu sempre faço aos meus interlocutores. Qual é a primeira recordação da sua vida? Mas tenho alguns escrúpulos em falar sobre memória com você.

 

Obrigado pela sua delicadeza, mas terei prazer em lhe responder. Existe uma memória “boa” que eu tentei de todos os modos proteger e conservar. A primeira recordação está ligada a um momento de grande felicidade: quando, por um tema dedicado à primavera, ganhei um postal colorido com uma andorinha desenhada. Do lado de trás, a professora Klara Tarpai havia escrito: “À minha aluna mais dedicada, mais merecedora”. Corri para casa voando, justamente como uma andorinha, para mostrá-lo para a minha mãe e os meus irmãos.

 

Conte-nos sobre a sua família.

 

Éramos seis filhos. As duas irmãs mais velhas, Sara e Mirjam, moravam em Budapeste, onde foram para aprender o ofício de costureira, e o meu irmão David havia partido para ir trabalhar assim que terminou o Ensino Fundamental. Em casa, em um pequeno vilarejo húngaro na fronteira com a Eslováquia, éramos a minha irmã Judit, o meu irmão Jonas e eu, a última da ninhada. A nossa família era pobre, em que o pouquíssimo tinha um valor imenso. Morávamos em dois ambientes com um telhado de palha. Lembro-me do barulho de uma gota que caía, e a minha mãe que perseguia a chuva, colocando baldes no chão. Mas também me lembro da alegria por um doce, pelas fitas vermelhas que amarraram as minhas tranças, pela primeira boneca de verdade que eu recebi de presente da minha irmã Mirjam. Até aquele momento, as minhas bonecas eram inventadas com espigas de milho ou com barro. E eu me lembro que, depois da morte da minha avó, encontramos, em um bolso costurado do seu roupão, um pequeno tesouro. Algumas notas de dinheiro, duas alianças e uma correntinha de ouro com a estrela de Davi. Aquela pequena herança que a nossa avó tinha defendido tenazmente da necessidade significou para nós uma nova casa, minúscula, mas com um telhado de telhas vermelhas e um lindo salgueiro que se podia ver da janela.

 

E os seus pais?

 

Minha mãe era linda, um olhar azul que se misturava com o roxo e um sorriso que iluminava o mundo, mas a expressão severa tirava um pouco da sua beleza. Meu pai era um homem manso, de poucas palavras e de uma expansividade ainda menor. Lembro-me de um beijo dele quando partiu para a guerra e de outro quando voltou. “A pobreza briga”, dizia a minha mãe, que não perdoava o marido por toda aquela miséria. Meu pai saía à noite e ia para a cidade vender gado em nome de terceiros, mas não tinha nenhum senso para os negócios e ganhava muito pouco com aquele ofício cansativo. Ambos, apesar da dificuldade de colocar um prato de sopa na mesa, eram de uma generosidade extraordinária. Minha mãe dizia: “A quem bate, abre; a quem estende a mão, dá”. Quanto ao meu pai, certa noite, ele voltou para casa sem o casaco. Quando minha mãe lhe perguntou por que, ele respondeu que o havia dado a quem precisava mais dele.

 

Quais foram os primeiros sinais da perseguição?

 

Éramos três judeus na classe – além de mim, Piri e Eva –, todas confinadas na última fila. Uma vez, meus colegas de escola me jogaram nas urtigas. Outra vez, nos empurraram contra alguns cachorros. Minhas amigas foram expulsas da escola. Eu tive o privilégio de continuar frequentando ainda por algum tempo, graças às condecorações que o meu pai havia conquistado na guerra. Às vezes, na frente da fonte [para beber água], éramos empurradas para o fim da fila ou alguém cuspia nos baldes cheios de água. E depois as proibições. Não era possível sair de casa depois das 18h, nem sair do vilarejo ou viajar. “O mundo está doente – dizia a minha mãe – mas Deus nos salvará”, era a sua confiança inabalável. Foi uma grande sombra que continuou inexoravelmente se alargando até que caiu a escuridão mais completa, e começou o horror insensato da deportação.

 

Duas palavras costumam se repetir nos seus relatos. A primeira é “pão”, talvez porque seja uma palavra que é comida, fome, trabalho, mas também poesia, arte, fé, ou seja, vida e símbolo ao mesmo tempo. Não por acaso, o título do seu livro recém-publicado é “Il pane perduto” [O pão perdido] (Ed. La Nave di Teseo, 2021). São páginas de uma beleza excruciante, nas quais você conta a sua história marcada pelo horror da deportação e que conclui com uma pungente “Carta a Deus”.

 

O inferno começou em torno do pão. Era a primavera de 1944, e há pouco tempo havia acabado a Páscoa judaica, quando uma vizinha nos deu farinha. Minha mãe ficou feliz com aquela abundância inesperada, as suas mãos voaram alegremente para misturar os ingredientes, depois colocou a massa em grandes tigelas de madeira para fermentar. Ao amanhecer, ela estava se levantando para acender o fogo quando dois gendarmes bateram violentamente na porta até destrancá-la. Eles nos levaram embora, nós e todos os judeus do vilarejo, primeiro em carroças puxadas por cavalos, depois de trem, até a capital, onde fomos trancados no gueto. Mamãe se desesperou com aquele pão abandonado: aqueles cinco pãezinhos eram a vida que ia embora. O pão me acompanhou de algum modo ao longo da minha desesperada vida de deportada como desejo e como pensamento de normalidade. Nunca roubei uma casca de pão de ninguém, apesar da fome raivosa, e recordo que o último gesto da minha mãe naquele trem que nos levava para Auschwitz foi dar uma fatia de pão a uma mulher que amamentava um recém-nascido.

 

O que aconteceu no gueto?

 

Éramos prisioneiros sem conseguir imaginar o nosso futuro, mas algo muito bonito aconteceu. Nasceu espontaneamente uma espécie de democracia. Ricos, pobres e paupérrimos juntos, quando havia no país uma hierarquia social muito rígida que dividia. Pela primeira vez, brinquei com o filho do médico. E, além disso, meu pai, que nunca tivera nada na vida, teve o privilégio de ser cantor da Torá. Minha mãe olhava para ele com olhos sonhadores e se comovia ao ouvi-lo. Também aconteceu outro fato extraordinário. Um amigo do meu pai não judeu trouxe uma carroça cheia de comida. Esse gesto me impressionou muito, não só porque para nós era um maná caído do céu, mas também porque ele viera de Gyula, um homem que de algum modo me era querido. Era o pai de Endre, um ginasial estudioso e culto que amava os poetas, o meu primeiro e delicado amor que me fez descobrir quanto encanto há em olhar um para o outro quando se ama. Graças a ele, meu pai se tornou protagonista mais uma vez: pobre como era, podia dar de comer aos outros. A generosidade de Gyula não foi só comida, mas também luz.

 

Aqui, você acabou de pronunciar a segunda palavra que usa com frequência, “luz”. Ainda mais bonita porque resplandece na escuridão profunda e insensata do extermínio.

 

Aquela carroça preciosa de comida foi uma luz, assim como muitos outros momentos. Faltava uma semana para o fim de maio quando nos colocaram em um vagão de gado. Lembro-me do sentimento de vergonha e de humilhação diante daquele nazista que, na nossa língua, nos disse: “Boa viagem”. Não éramos mais húngaros, apenas judeus e, acima de tudo, não seríamos mais criaturas humanas para eles. O trem andava, andava, e nós não sabíamos para onde. Daqueles momentos terríveis, lembro-me de outra luz, a minha mãe. Ela me penteava, trançava os meus cabelos, amarrava-os com as duas fitas vermelhas e segurava a minha mão com força entre as suas. Eu vivi os dias mais ternos da minha vida, embora de repente pensasse: se a mamãe está tão bondosa, acabou para nós. E depois houve as luzes que, então, não me pareciam como tais e que eu só reconheci mais tarde.

 

Gostaria de nos contar esses momentos?

 

Quando chegamos a Auschwitz, assim que descemos do trem, os alemães começaram a nos separar de um lado e de outro. Naquele momento, não sabíamos a que correspondia aquela divisão, mas ficamos sabendo imediatamente: à direita, se partia para os trabalhos forçados, isto é, para o aniquilamento por fome, frio e cansaço; à esquerda, para as câmaras de gás. Judit foi indicada para a direita; mamãe e eu, para a esquerda. Um alemão nos parou, intimando-me a ir para a direita. Me agarrei à mamãe, gritando: “Não, não”. Minha mãe suplicou ao soldado para me deixar com ela, e eu também disse a ele que eu era a sua filha menor. Em resposta, o soldado bateu nela com a coronha do rifle, repetindo para mim: “Direita, direita”. Mamãe disse apenas: “Obedeça”, e eu fui forçada a ir para a direita, chorando desesperada. Aquele alemão, arrancando-me da minha mãe, salvou a minha vida. Eles nos levaram para a cabana 11, com uma placa pendurada no pescoço com um número, 11152, que, a partir daquele momento, substituiria o meu nome. Depois de rasparem os cabelos e de desaparecerem com as minhas belas tranças que mamãe cuidava com tanto amor, fizeram-nos vestir uma camisola grisalha e áspera e tamancos nos pés. Eu só chorava invocando a minha mãe. Certa manhã, Alice, uma kapo, uma judia polonesa que supervisionava em nome dos alemães, me levou até a entrada da cabana e me disse: “Você está vendo aquela fumaça? Eles fizeram sabão com a sua mãe”. Não disse nada para a minha irmã, me forcei a não acreditar nas suas palavras, mas continuei chorando por dias.

 

É um episódio de uma barbárie impensável.

 

O campo de concentração era isso, a crueldade sistemática, o mal absoluto. Porém, como eu dizia antes, houve alguns momentos de luz. Em Dachau, onde trabalhávamos cavando trincheiras e nos dormentes para os trilhos, um soldado alemão, um dia, jogou-me a sua marmita para que eu a lavasse, mas, no fundo, havia deixado um pouco de geleia para mim. Algum tempo depois, minha irmã e eu fomos selecionadas para um grupo de 15 mulheres que trabalhariam nas cozinhas de um castelo próximo, onde alguns oficiais e suas famílias estavam alojados. Se não fosse pela bofetada que as SS nos davam todas as manhãs sem motivo ou pelos enforcamentos das crianças fora do campo aos quais éramos obrigadas a assistir, aqueles foram os dias menos infelizes da nossa vida nos campos de concentração. Uma casca, uma folha, um pedacinho de verdura, em uma cozinha sempre havia algo para colocar secretamente na boca. E aqui, um dia, outra luz se acendeu. O cozinheiro para quem eu estava entregando batatas limpas me perguntou o meu nome. Eu disse: “Edith”, com uma voz fina que tremia, e ele acrescentou: “Tenho uma filha da sua idade”. Depois, ele tirou do bolso um pentezinho e, olhando para a minha cabeça com os cabelos que tinham acabado de crescer, ele me presenteou. Foi a sensação de me encontrar, depois de tanto tempo, diante de um ser humano. Aquele gesto que era vida, esperança, me comoveu. Bastam poucos gestos para salvar o mundo.

 

Como se sobrevive em meio a tanto horror?

 

Eu não sei lhe responder. Meus pais e um dos meus amados irmãos não sobreviveram. Acho que só me salvei graças à minha irmã. Ele me apertava entre os braços, repetia que nunca me deixaria, me fazia entender que logo reencontraríamos os nossos pais e depois me chamava: “Ditke, Ditke”, era o apelido carinhoso que usavam em família. Para mim, era o som do amor e da ternura.

 

E como se volta à vida depois de tanto horror?

 

É difícil ser um sobrevivente. Quando soube do suicídio de Primo Levi, foi isso que eu pensei com a dor insuportável da notícia. Éramos amigos, “irmão e irmã de campo de concentração”, dizíamos brincando, mas não o perdoei por esse gesto. A nossa vida não pertence apenas a nós, mas também à história.

 

Um paradoxo quase aconteceu com você. A infância e a adolescência destruídas pelo ódio e pela perseguição e depois uma vida riquíssima de amor, uma extraordinária união sentimental e intelectual com o seu marido, Nelo Risi, que durou 60 anos.

 

Depois de uma longa odisseia, eu havia chegado à Itália, mas as minhas primeiras experiências de trabalho não foram felizes, como eu conto no livro que você acabou de lembrar, “O pão perdido”. Certa noite, fui convidada a assistir a um encontro com um grupo de documentaristas que havia voltado da China. No jantar que se seguiu, em um restaurante na Via delle Carrozze, éramos 12 à mesa, eu me vi sentada na frente de Nelo. Antes de trocar uma única palavra, ele entrou na minha alma. Os outros estavam distraídos por um televisor que, no alto de um canto do local, transmitia o então célebre programa “Lascia o Raddoppia”, com Mike Bongiorno, e nós aproveitamos para conversar. Nelo havia pedido presunto como aperitivo e me ofereceu. Eu disse: “Não, obrigado”, mas ele tentou me convencer, dizendo que era bom, doce. Naquele ponto, eu disse: “Sou judia”, e acrescentei; “Fui deportada”.

 

Diante dessas palavras, Nelo ficou sem fôlego, pareceu se retirar, se encolher, com a fatia de presunto que continuava pendurada no garfo, parada no ar. Ele era um homem de uma extraordinária moralidade, de uma honestidade cristalina: amava a liberdade, o compromisso civil, detestava o dinheiro e os compromissos, tinha um senso profundíssimo de liberdade e justiça. Ao mesmo tempo, era um poeta, e o senso prático da existência lhe escapava. Há um episódio que conta isso muito bem. Um dia, na nossa casa, entrou um rato no banheiro. Eu vinha de uma civilização camponesa na qual se matavam os ratos. Isso sequer lhe veio à mente: ele se fechou no banheiro, tentando convencer o rato a recuperar a sua liberdade, saindo pela janela. Eu amei Nelo pelas suas qualidades e pelos seus defeitos, e fiquei ao lado dele até o último dia naquele ultraje e naquele abismo que é o mal de Alzheimer.

 

O que você teme hoje e o que lhe dá motivos para ter esperança?

 

Temo a intolerância, a falta de diálogo, a desconfiança em relação ao outro, temo esses ventos de fascismo que sopram cada vez mais e se insinuam perigosamente nas nossas vidas. Tenho esperança nas novas gerações, em uma consciência humana e civil cada vez mais enraizada e difundida. Tenho esperança neste grande pontífice, Francisco. Quando eu o encontrei, ele me disse com simplicidade: “Prazer em conhecê-la”, depois me sorriu e me abraçou. Havia um calor humano reconfortante nele. Aprecio a sua clareza, a simplicidade de quem fala para se fazer entender, a força das suas convicções, a compreensão das fragilidades humanas, a humildade de dizer: “Quem sou eu para julgar?”. Diante do Papa Francisco, penso: “Isto é um homem”, e sinto um sentimento de esperança.

 

Jornalismo, televisão, cinema, traduções: você fez tantas coisas, mas, acima de tudo, sempre se comprometeu a escrever e a testemunhar a dramática experiência dos campos de concentração.

 

“Se compreender é impossível, conhecer é necessário, porque o que aconteceu pode voltar”: são palavras de Primo Levi que eu tornei minhas. Nunca alimentei ódio nem sentimentos de vingança, mas sim incredulidade e dor infinita. O mal gera apenas o mal. Tenho orgulho de ter tido um pai vítima e me envergonharia até o fundo do coração de um pai carnífice. Recordar é um sofrimento, mas nunca me esquivei disso. Iluminar mesmo que uma única consciência vale o esforço e a dor de manter viva a recordação daquilo que aconteceu. Para mim, a memória é viver, e a escrita é respirar.

 

* * *

 

Edith Bruck nasceu em 1931 em um pequeno vilarejo húngaro, a caçula de seis filhos de uma pobre família judia. Em abril de 1944, junto com seus pais e dois irmãos, foi deportada para o gueto da capital e, depois, para os campos de concentração de Auschwitz, Dachau e Bergen-Belsen. Tendo sobrevivido junto com sua irmã Judit, ela chegou à Itália depois de vários anos e se estabeleceu em Roma. Lá, começou a escrever em italiano, uma “língua não sua”, que acabaria se tornando sua, para contar a experiência terrível da deportação. Trabalhou em diversos setores, jornalismo, teatro, cinema, traduções, mas o seu compromisso constante é com a escrita e o testemunho. Entre suas obras, lembramos: “Chi ti ama così” (1959), “Andremo in città” (1962), “Lettera alla madre” (1988), “Quanta stella c’è nel cielo” (2009, transposto no filme de Faenza Anita B.), “La donna dal cappotto verde” (2012), “La rondine sul termosifone” (2017), “Ti lascio dormire” (2019) e o recentíssimo “Il pane perduto” (Ed. La nave di Teseo, 2021).

 

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