'Canibalismo descontrolado' era comum em campo de concentração nazista, revelam documentos

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04 Abril 2016

Foi liberado nesta quinta-feira o relato do único sobrevivente britânico de Bergen-Belsen, um campo de concentração nazista na Baixa Saxônia (Alemanha). Sem esconder detalhe algum, Harold Le Druillenec conta como passou seu tempo lá enterrando corpos, e como as vítimas das atrocidade do Holocausto tiveram que apelar para o canibalismo para sobreviver.

A reportagem foi publicada por O Globo, 01-04-2016.

Harold, que morreu aos 73 anos em 1985, era um professor de escola nativo da ilha de Jersey, no Canal da Mancha. As ilhas do canal, parte dos territórios da Coroa Britânica desde tempos medievais, foram invadidas e ocupadas pela Alemanha Nazista por 5 anos durante a Segunda Guerra Mundial.

Em um documento do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido divulgado hoje, quase 71 anos após o campo ser liberado, ele conta como foi preso um dia antes da invasão da França pelos aliados por tropas alemãs após ele e sua irmã ajudarem um prisioneiro de guerra russo a se esconder.

"Sobrevivi a três campos de concentração por muita sorte e a habilidade de desligar minha mente, praticamente viver fora do corpo", conta ele em um texto onde pede ajuda, já que ficou permanentemente deficiente. Segundo ele, não havia comida ou água para a maioria dos prisioneiros em Belsen e dormir era impossível.

"Todo o meu tempo lá foi gasto jogando corpos em valas comunais. Elas tinham que ser cavadas por prisioneiros de fora do campo, porque não tinhamos força para cavar", conta ele. "Reinava a lei da selva entre os prisioneiros: de noite você matava ou morria, de dia o canibalismo era descontrolado".

"A maior parte dos prisioneiros de Auschwitz tinha sido transferida para Belsen quando eu cheguei, e foi lá que aprendi a expressão 'Só há uma saída daqui, pela chaminé (o crematório, para os corpos que não eram enterrados)", declarou ele.

Harold foi libertado quando tropas britânicas tomaram o campo, em 15 de abril de 1945. Ele, que tinha passado dez meses preso, perdeu metade do seu peso e demorou quase um ano para se recuperar da disenteria, sarna, desnutrição e septicemia.

Cerca de 70 mil pessoas morreram em Bergen-Belsen entre 1941 e 1945, entre elas as irmãs Margot e Anne Frank. O testemunho de Harold foi essencial na condenação dos administradores do campo por crimes contra a Humanidade. Após a guerra, ele retornou para Jersey, onde virou diretor de escola.

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