O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz explica por que para combater as desigualdades é preciso abandonar imediatamente as ideias de Milton Friedman

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11 Dezembro 2020

Joseph Stiglitz acredita que a popularidade da ideologia do falecido Milton Friedman, ganhador como ele do Prêmio Nobel de economia, seja um fator significativo por trás da alta desigualdade e do crescimento modesto que caracteriza atualmente os Estados Unidos.

– Friedman dizia que em um mercado livre, uma empresa de capital aberto existe apenas para servir os próprios acionistas.

– Para Stiglitz, há evidências abundantes de que essas condições que caracterizam o mercado livre não podem ser atendidas.

– Esse debate está em curso desde a década de 1930, mas parece que o vento esteja mudando a favor daqueles que defendem que a prioridade deva ser dada à criação de valor de longo prazo, tirando a importância dos resultados de curto prazo.

No encontro anual do World Economic Forum, que foi realizado em Davos (Suíça) em janeiro, o CEO do Business Insider, Henry Blodget, explicou os motivos pelos quais chegou a hora de um "capitalismo melhor" (em inglês better capitalism, como o nome desta coluna).

A reportagem é de Richard Feloni, publicada por Business Insider, 10-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

A atual desigualdade que reina nos Estados Unidos, explicou, está ligada principalmente a uma reação à estagnação que começou nos anos 1970 e durou muito tempo - fase em que a busca pelo lucro trimestral deu lugar ao chamado short-termism, ou seja, a obsessão tóxica por resultados de curto prazo.

Quando Blodget iniciou a discussão do painel que havia organizado, Joseph Stiglitz, da Columbia University, disse, referindo-se às pessoas que, em sua opinião, são responsáveis por essa ideologia preponderante: “Quero ressaltar que, nesse período, não foi somente um grupo de acionistas ativistas, mas também Milton Friedman”, o falecido economista e ganhador do Prêmio Nobel (como Stiglitz). "E Friedman estava errado."

Em sua influente coleção de ensaios de 1962, Capitalismo e Liberdade, Friedman proclamou que em uma economia livre "uma empresa tem uma, e apenas uma, responsabilidade social: usar seus recursos e conduzir negócios destinados a aumentar seus lucros, desde que respeite as regras do jogo, ou seja, desde que pratique uma concorrência livre e aberta, sem enganos nem fraudes”.

Entramos em contato com Stiglitz depois do painel de Davos: ele nos disse que a declaração de Friedman "não se baseava em nenhuma teoria econômica", depois nos deu algumas informações sobre as origens desse debate.

A “mão invisível” pode existir, mas não no mundo real

Friedman fez essa afirmação desenvolvendo uma passagem decisiva do texto crucial de Adam Smith A riqueza das nações (1776), que falava de uma "mão invisível". Para Smith, um indivíduo que promove seus próprios interesses é “guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção. Ao buscar seu próprio interesse, frequentemente ele promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo. Nunca vi pessoas que pretendiam fazer negócios pelo bem da sociedade, trazer efetivamente algum bem".

Stiglitz apontou que de fato a existência da mão invisível foi "demonstrada" em 1954 pelos economistas Kenneth Arrow e Gerard Debreu. Os dois conseguiram demonstrar a existência de um equilíbrio entre oferta e demanda em uma economia livre e competitiva - mas também deixaram claro que essa situação só pode ocorrer na presença de determinadas condições relacionadas à economia e ao comportamento dos consumidores.

E de acordo com Stiglitz, este último ponto é essencial.

“Mais tarde, alguns de nós, no final da década de 1960, apresentaram a pergunta: “Pois então, o que acontece se essas condições não forem atendidas?'”, explicou ele ao Business Insider.

Contou que ele e o economista Sandy Grossman estudaram a questão ao longo dos anos 1970. Em 1980, publicaram um artigo no qual declaravam que, embora o equilíbrio de mercado possa existir em teoria, é "impossível" que exista na realidade dentro de uma economia competitiva. Com base nesse raciocínio, o argumento de Friedman perde toda a validade. Consequentemente, o fato de uma empresa existir com o único propósito de beneficiar os acionistas não dará, ao contrário do que Friedman defendia, qualquer benefício aos outros stakeholder, como os funcionários, os consumidores e a sociedade como um todo.

Stiglitz respeitava Friedman (que morreu em 2006) por seu trabalho sobre o consumo, que lhe rendeu o Prêmio Nobel; escreveu isso em seu livro de 2012, O preço da desigualdade, mas os dois tiveram várias discussões sobre a ideia de livre mercado. “Lembro-me de longas discussões com ele sobre as consequências das informações imperfeitas ou sobre os mercados de risco incompletos; meu próprio trabalho e o de numerosos colegas mostraram que, na presença de tais condições, os mercados geralmente não tinham um bom desempenho. Friedman simplesmente era incapaz de entender os resultados que emergiram ou não estava disposto a fazê-lo".

No entanto, as ideias de Friedman se popularizaram nos Estados Unidos por várias décadas.

Keynes vs. Escola de Chicago

Stiglitz nos explicou que quando cita o que em sua opinião é o problema de Friedman, o toma como figura de referência de um movimento que se aproveitou das tendências sociais citadas por Blodget. Esse movimento foi liderado pela Escola de Chicago, que formulou a ideologia do livre mercado na Universidade de Chicago em meados da década de 1920.

Segundo Stiglitz, os norte-americanos, principalmente os de direita, abraçaram a visão da Escola de Chicago porque se apresentava como a solução eficiente para o problema de como estimular uma economia estagnada.

No âmbito dessa ideologia de livre mercado, a busca de valor a curto prazo é, ao mesmo tempo, uma busca do valor a longo prazo. Se essa ideia for aceita, a atribuição da prioridade aos lucros de curto prazo se dá por meio da otimização da gestão gerencial e dos gastos, o que permite que a empresa cresça e por sua vez proporcione retornos maiores, um maior número de empregos e outros benefícios para a sociedade, bem como melhores produtos.

Stiglitz observou que essa visão é baseada na negação de uma das crenças centrais de Keynes.

O economista britânico John Maynard Keynes publicou seu revolucionário livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda em 1936, logo após a Grande Depressão. No texto, ele distinguiu entre valor de curto prazo e valor de longo prazo; além disso também expressou sua frustração com a forma como o mercado de ações estadunidense incentiva as empresas de capital aberto a priorizar os lucros de curto prazo, preferíveis do ponto de vista da maioria dos investidores atuais, em relação aos de longo prazo, que são preferíveis do ponto de vista de toda a sociedade. A premissa básica do debate entre Keynes e seus colegas é idêntica àquela em torno da qual gira o debate atual.

“O objetivo social do investimento especializado deveria ser o de derrotar as forças obscuras do tempo e da ignorância, que envolvem o nosso futuro”, foi a advertência lançada por Keynes.

A vitória de Friedman

Na década de 1970, mais e mais norte-americanos em posições de poder começaram a gravitar em torno das ideias da Escola de Chicago, e Friedman tornou-se conselheiro do presidente Ronald Reagan.

Friedman não era apenas uma figura estimada e ouvida pelo líder do chamado "Mundo livre", mas também as teorias da Escola de Chicago sobre legislação para promover a eficiência do mercado tiveram uma boa aceitação.

Em seu livro de 2015, Rewriting the Rules of the American Economy, Stiglitz escreveu que a normalização da supremacia dos acionistas foi consolidada durante a presidência de Reagan por meio de modificações introduzidas nas leis federais nos impostos sobre a renda e aquelas sobre os instrumentos financeiros, incluindo um abrandamento das normas antitruste. Isso promoveu o crescimento de investidores ativistas.

“Se tudo isso tivesse levado a empresas mais eficientes e inovadoras, teria sido uma coisa”, escreveu Stiglitz. “Mas, na realidade, os novos investidores 'ativistas' insistiram em ingressar nos conselhos de administração e pressionaram no management das empresas para que seguisse políticas consideradas mais shareholder-friendly, ou seja, mais favoráveis aos investidores de curto prazo (os acionistas) - incluindo o aumento dos dividendos e dos buyout".

A Securities and Exchange Commission (SEC) continuou a seguir essa orientação até o início dos anos 1990.

E embora a correlação cada vez mais significativa entre remuneração dos CEOs e desempenho na bolsa tivesse em aparência o objetivo de garantir a accountability dos CEOs perante seus acionistas, de acordo com Stiglitz, ela se materializou mais como "um incentivo para manipular os preços das ações empregando fundos empresariais para recomprem as próprias ações com o objetivo de aumentar os preços". É assim que passamos de uma relação média de 20 para 1 entre remuneração do CEO e remuneração de um funcionário de nível médio em 1965 para a atual proporção de 295 para 1.

Para Stiglitz, o fato de alguns indivíduos ganharem tanto dinheiro não é moralmente ultrajante em si; o problema é que isso está acontecendo às custas de toda a economia.

Por que agora, então?

O ganhador do Prêmio Nobel nos disse que este debate que já se arrasta há uma década sobre como encontrar o equilíbrio entre criação de valor a curto e a longo prazo está recentemente retomando força nos Estados Unidos devido à política reprovável e aos odiosos conflitos de classe que decorrem da desigualdade de renda; outro motivo é que as pessoas em posições de poder estão observando o quadro geral e estão percebendo que algo precisa mudar.

E, independentemente do desempenho obtidos pelos mercados de ações neste ano, a economia como um todo não está indo muito bem, argumenta Stiglitz, quando for considerada da perspectiva do crescimento do PIB.

“Quando estávamos crescendo a 4%, poderíamos ter conseguido crescer ainda mais rapidamente”, disse ele. “Mas colocamos no bolso o 4% e nos congratulamos. Mas agora que estamos crescendo a 2-2,5%, depois de uma fase de crescimento de 3,5%, a pergunta que surge espontaneamente é: 'O que aconteceu? Há algo errado?'".

De acordo com Stiglitz, os desenvolvimentos a que estamos assistindo hoje são em grande parte o resultado das ideias defendidas por pessoas como Friedman, que pareceram muito promissoras para as pessoas que estavam no poder nos anos 1980. Essa abordagem contribuiu de forma muito significativa para o atual mix de desigualdade e crescimento modesto nos EUA.

O economista disse que, se é verdade que os CEOs não serão capazes de resolver o problema da desigualdade sozinhos, também é verdade que o propósito para o qual existem na sociedade é o de fazer crescer a economia, e cada vez mais CEOs estão percebendo que precisam aportar algumas mudanças.

É por isso que, por exemplo, alguém como o CEO da BlackRock, Larry Fink, na função de principal executivo da maior empresa de gestão patrimonial do mundo, se sentiu no dever a se posicionar contra a obsessão pelo curto prazo. Em uma carta aos CEOs das empresas de capital aberto no início deste ano, Fink anunciou que a BlackRock só fará negócios com empresas que tenham definido claramente estratégias de longo prazo que tragam algum tipo de benefício para a sociedade.

“Se não tiver claro quais são seus objetivos, nenhuma empresa, seja de capital aberto ou não, pode realizar plenamente seu potencial”, escreveu Fink. “Acabará por perder a autorização para operar concedida por seus principais stakeholders. Ela cederá às pressões orientadas ao curto prazo para que distribua seus lucros e, ao fazê-lo, sacrificará os investimentos realizados para o crescimento dos funcionários, para a inovação e para as despesas de capital - investimentos necessários para um crescimento de longo prazo. Permanecerá exposta às campanhas de ativistas que expressarão um propósito mais claro, mesmo que tal propósito apenas promova a realização de objetivos mais limitados e de curto prazo.”

De acordo com Stiglitz, a carta de Fink e outras declarações similares feitas por grandes empresas como a Unilever não são um convite a afundar na autocomplacência e se congratular mutuamente, mas decorrem de uma sensação de urgência - ou seja, a sensação de que existe a necessidade urgente de abandonar a doutrina de Friedman.

Para o economista, o cerne desse debate dentro da direita estadunidense permaneceu inalterado desde os anos 1930; só que o mundo de hoje é muito diferente.

“Como diz a Bíblia: 'Não há nada de novo sob o sol'”, disse Stiglitz com uma risada. "Mas o contexto hoje é novo".

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