O cardeal e o aborto: os dilemas da Polônia

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11 Novembro 2020

Graves turbulências põem em risco a imagem da Igreja polonesa e sua enorme herança de credibilidade. Os últimos sinais são as graves censuras do Vaticano contra o Card. Henryk Gulbinowicz e a defesa frenética da posição eclesial sobre a lei do aborto.

A reportagem é de Lorenzo Price, publicada por Settimana News, 10-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

No dia 6 de novembro, a nunciatura apostólica de Varsóvia tornou pública uma declaração: “Depois das investigações conduzidas sobre as acusações feitas contra o Cardeal Henryk Gulbinowicz e depois de analisar outras acusações sobre o passado do Cardeal, a Santa Sé tomou as seguintes decisões disciplinares contra ele:

- Nenhuma participação em celebrações ou reuniões públicas;

- É proibido o uso das insígnias episcopais;

- Privação do direito ao serviço fúnebre na catedral e sepultamento na catedral;

- Pagamento pelo cardeal de uma quantia adequada em dinheiro como doação para a atividade da Fundação S. Józef, criada pela Conferência Episcopal da Polônia para apoiar as atividades da Igreja em benefício das vítimas de abusos sexuais, assistência psicológica, prevenção e educação das pessoas responsáveis pela proteção de menores".

O desmoronamento da imagem de uma figura polonesa tida como inatacável tem efeitos muito mais graves do que as censuras sofridas por outros cardeais acusados de pedofilia, como Theodor MacCarrick (Estados Unidos) ou Keith O'Brien (Irlanda) e Hans Groër (Áustria).

Nascido em 1923, ingressou no seminário de Vilnius e foi ordenado em 1950, Gulbinowicz estudou teologia moral na Universidade Católica de Lublin, lecionou no seminário de Vármia e trabalhou na cúria de Olsztyn. Em 1970, Paulo VI o nomeou bispo e foi ordenado pelo card. Stefan Wyszyński operando com grande capacidade organizacional em Bialystok (Vilnius). Em 1976 passou a dirigir a diocese de Wroclaw (Breslau), animando vigorosamente a vida paroquial, a comunicação diocesana e seus estudos.

Em 2004, João Paulo II o nomeou cardeal. Sua reputação pública se ampliou pela escolha feita durante a lei marcial (1981) de defender o movimento sindical do Solidarnosc, oferecendo refúgio aos dissidentes no episcopado e escondendo 90 milhões de zlotys do aparato estatal em benefício da organização dos trabalhadores.

Não há vantagens para ninguém

Depois da censura romana, o porta-voz da diocese, pe. R. Kowalski, comentou: “É um sinal de que os escândalos não estão mais sendo escondidos na Igreja e que não há mais vantagens para ninguém”. Ele pediu desculpas às vítimas, expressando "nosso respeito por elas e ... nossa vontade de apoiá-las e ajudá-las".

O P. Studnicki, do Gabinete episcopal para a proteção dos menores, acrescentou: “Mesmo que se trate de abusos cometidos há décadas, para a Igreja nunca serão eliminados”. "O fato de sabermos publicamente que sanção foi imposta ao cardeal muda as regras do jogo." Os jornais comentam: nenhum bispo abusador pode dormir tranquilo.

O terremoto foi causado pelas acusações de P. Kowalczyk que denunciou a violências sexuais sofridas entre 1989 e 1990 no seminário menor de Legnica. E, enquanto a prescrição valeu para o tribunal cível, não foi assim para a sentença eclesial.

Somando-se à violência sexual, foi descoberto que Gulbinowicz era um informante valioso da Polícia Secreta Comunista (SB). Pesquisadores do Instituto Nacional de Memória da Polônia (IPN) descobriram a longa sombra de sua relação de 16 anos com os serviços. A atividade fraudulenta foi bem escondida do cardeal primaz Wyszyński e sua nomeação em Wroclaw foi facilitada pelo governo por sua possibilidade de chantagem. Além disso, suas inclinações homossexuais também eram bastante conhecidas.

E aqui se abre uma terceira área cinzenta em relação ao núncio, Józef Kowalczuk, em Varsóvia de 1989 a 2010. Seus amigos e os do cardeal eram os bispos destituídos Edward Janiak (Kalisz) e Slawoj Glódż, também colaborador dos serviços secretos e denunciado por alguns de seus padres por conivência com os abusadores.

Agora as contestações também chegam ao card. Stanislaw Dziwisz, ex-secretário pessoal de Wojtyla. Ele negou veementemente ter encoberto uma carta de denúncia sobre um padre (que não teria pertencido à diocese que lhe foi confiada). Pela sua presença em Roma, nega também qualquer responsabilidade em relação ao caso do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel Degollado, e de ter encoberto de alguma forma a má conduta de McCarrick e Hans Groër. Com uma operação questionável remete todas as responsabilidades para a Secretaria de Estado daqueles anos, presidida pelo Card. Angelo Sodano.

Aborto: uma voz corajosa e trincada

Sobre a questão ligada à sentença do Tribunal Constitucional que restringe drasticamente a possibilidade de aborto (cf. SettimanaNews: Le donne si ribellano alla Chiesa? As mulheres estão se rebelando contra a Igreja?) aprovada em 22 de outubro, voltou a se manifestar o presidente do episcopado, Mons. Stanislaw Gadeki.

Numa longa entrevista à agência noticiosa católica (KAI, 7 de novembro), ele reafirma sua opinião positiva sobre o trabalho dos juízes e parlamentares envolvidos, indicando a sentença "como um grande passo para de civilidade", conforme a Constituição polonesa e também com a Declaração dos Direitos Humanos da ONU (1948). “A Igreja sempre defendeu e não pode deixar de defender a vida, nem renunciar a proclamar que todo ser humano deve ser protegido desde a concepção até a morte natural. Do ponto de vista da fé, a vida humana é sagrada e inviolável”.

“A Igreja sobre este ponto não pode transigir, porque se tornaria culpada da ‘cultura do descarte’ tão difundida hoje, que - como diz o Papa Francisco - atinge os mais vulneráveis. Portanto, apreciei a decisão do Tribunal Constitucional, que considerou o aborto eugênico incompatível com a Constituição da República da Polônia. Esta decisão confirma que o conceito de ‘vida não digna de ser vivida’ está em contradição direta com o princípio do estado democrático de direito”.

O prelado olha com desconfiança para os longos tempos de espera pela publicação ("a não publicação da sentença do Tribunal Constitucional suscita muitas questões"). “Não admira que a Igreja tenha apoiado e apoie os esforços (dos políticos católicos) e é grata aos parlamentares que empreenderam essa difícil tarefa.

Não se trata da ingerência da religião na esfera temporal, mas da legítima voz da Igreja em questões estritamente morais”. Anteriormente havia afirmado: “Não é a Igreja que faz as leis do nosso país e não são os bispos que tomam as decisões em conformidade ou não a Constituição da República da Polônia”.

Mediação inaceitável

Será necessário maior empenho do Estado, da Igreja e da sociedade em benefício das crianças com deficiência e de suas famílias através de ajudas financeiras, profissionais e espirituais.

O diálogo com a sociedade é sempre possível, mas não à custa da verdade. Se a Igreja deve se questionar sobre a eficácia de seus sistemas educacionais ("temos muito que recuperar a respeito"), não pode ignorar as raízes ambíguas de muitos de seus opositores. Existem forças financeiras, ideológicas e anticristãs que alimentam por meio dos meios de informação e das redes sociais a mentalidade anticatólica. Os católicos parecem ter tomado o lugar dos judeus. O 'método de substituição' é usado. Políticos e instituições são criticados e depois aplicam o mesmo esquema à Igreja.

Também a proposta de mediação do presidente Andrzej Duda, de propor, mediante contratação, o caso das possíveis malformações do nascituro ao fato do perigo de poder nascer morto ou com doença incurável, elaborada para superar os conflitos e em vista de uma paz social, não encontra o consenso de Mons. Gadeki. "A proposta presidencial seria uma nova forma de eutanásia que seleciona os indivíduos com base na sobrevivência." "A referência ao n. 73 da Evangelium vitae não é válida neste caso" porque a proposta não é coerente com a referência do magistério.

Uma questão de credibilidade

A defesa da vida em toda a sua extensão, mesmo em contextos culturais não favoráveis, é um patrimônio evangélico ao qual a Igreja não pode renunciar. Deste ponto de vista, a "resistência" da Igreja polonesa é apreciável.

Seria ainda mais se nas últimas décadas tivesse tido a sensibilidade de defender alguns valores essenciais da democracia (como a autonomia do judiciário em relação à política), se houvesse uma palavra corajosa para os direitos dos imigrantes, se a valorização à Europa também tivesse reconhecido as instituições europeias e não apenas os valores fundadores, se o distanciamento do partido no poder (PiS) tivesse sido mais visível, se a revisão da memória do período comunista, também em relação à Igreja Católica, tivesse sido abordada com plena liberdade pelos historiadores.

A situação parece exigir uma revisão corajosa do quadro e da linguagem teológico-pastoral. Alegar "princípios não negociáveis", pedindo coerência entre doutrina e prática política, sem perceber a centralidade da relação entre Evangelho e sinais dos tempos, ameaça afundar a ação pastoral.

O testemunho da Igreja polonesa é importante demais para o catolicismo europeu para reduzi-lo a um caso local.

 

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