A deselegância com o Papa sobre a encíclica “Fratelli Tutti”

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05 Outubro 2020

Um site tradicionalista divulga prematuramente o texto que Bergoglio assina sobre o túmulo de São Francisco em Assis. Um documento sobre a política melhor, a "popular" e não "populista", e sobre as "sombras de um mundo fechado" ao estrangeiro, ao migrante, ao necessitado.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 04-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

No dia 1 de outubro de 2020 a nova encíclica de Francisco foi enviada pelo Latrão - onde está a cátedra do Bispo de Roma e, como tal, Papa - a todos os bispos, cardeais e bem-aventuranças das Igrejas orientais. Trata-se da terceira encíclica que o Papa assinou às 15h55 em Assis, depois da missa celebrada diante de poucos presentes no túmulo de São Francisco, o Santo poverello, cujo nome o cardeal Bergoglio escolheu como sucessor de Pedro.

Já fazia mais de dois séculos que uma encíclica não era assinada e enviada pelo Papa fora do Vaticano. Um Vaticano atribulado nas últimas semanas com os escândalos envolvendo a Secretaria de Estado. Não por acaso, no momento da assinatura, Francisco desejou ao seu lado um monsenhor da primeira seção da Terza Loggia, a quem elogiou pelo árduo trabalho das traduções em muitas línguas, destacando assim o trabalho do dicastério mais importante da Cúria atormentada pela tempestade.

O novo documento é inspirado no Santo poverello. Começa com as palavras "Fratelli tutti", duas palavras que dão nome à encíclica, tiradas da exortação contida nas Admoestações de São Francisco de Assis, "Frates omnes".

Provavelmente trata-se também a primeira encíclica enviada aos pastores da Igreja universal por e-mail, meio de comunicação que o Papa muito aprecia, segundo o que lemos no conteúdo da nota que a acompanhou. Um canal de comunicação direto - Francisco escreveu de próprio punho, com sua letra minúscula, na nota que acompanhou o pdf da encíclica. No todo 123 páginas, que “fortalece a nossa comunhão como bispos no exercício do magistério”. Mas esse meio eletrônico foi usado pelo sítio tradicionalista católico Infovaticana - que muitas vezes hospedou posições críticas contra Francisco - para antecipar a divulgação do texto no original espanhol, violando o embargo fixado para domingo às 12 e, assim, passando por cima da Sala de Imprensa do Vaticano e do trabalho dos jornalistas credenciados.

Um texto constituído por 8 capítulos em que os centrais são o quinto e o sexto ("Diálogo e amizade social"), além da forte análise sobre as "sombras de um mundo fechado" (primeiro capítulo) ao estrangeiro, ao migrante, ao necessitado. Em especial, o quinto capítulo é dedicado à política "melhor".

A política melhor

Segundo o Papa Francisco, a política melhor não é aquela que se alavanca no individualismo e esconde os interesses dos ricos. A análise mais inovadora diz respeito ao populismo, que com as expressões populismo e populista "invadiu a mídia e a linguagem geral", e a divisão binária entre "populista" e "não populista". A pretensão de interpretar a realidade social com o populismo, escreve Francisco, “ignora a legitimidade da noção de povo” e com isso poderia levar “a eliminar a própria palavra 'democracia'”, isto é, do governo do povo.

Em vez disso, é preciso que a política se refira a algo que não é apenas a soma dos indivíduos e por isso o substantivo "povo" e o adjetivo "popular" são necessários para uma política que não esconda "o desprezo pelos fracos" disfarçado como populismo “que o usam demagogicamente para seus próprios fins, ou em formas liberais ao serviço dos interesses econômicos dos poderosos”. “Os grupos populistas - continua Francisco - desfiguram a palavra 'povo', porque na realidade não falam do verdadeiro povo”.

O grande tema do trabalho

A verdadeira abordagem popular do tema do trabalho - porque promove o bem das pessoas - deve “garantir a todos a possibilidade de fazer germinar as sementes que Deus colocou em cada um, as suas capacidades, a sua iniciativa, as suas forças”. Por isso - acrescenta recordando o que já foi escrito em Laudato si’ - “ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho”.

Francisco passa depois a examinar os valores e limites das visões liberais que falam do respeito às liberdades, mas para as quais a categoria de povo é "uma mitificação de algo que não existe na realidade". O que é necessário é uma “mudança da mentalidade e dos estilos de vida” enquanto “a propaganda política, os meios e os criadores de opinião pública persistem em fomentar uma cultura individualista e ingênua à vista de interesses econômicos desenfreados”.

“O mercado” sozinho, escreve, “não resolve tudo”. E aqui Francisco cita abundantemente a encíclica social de seu predecessor Bento XVI, Caritas in veritate. Ele fala sobre a crise financeira de 2007-2008 que poderia ter sido a ocasião para uma nova economia mais atenta aos princípios éticos. Mas agora a crise da Covid-19 nos mostrou dramaticamente que estamos todos no mesmo barco, que somos “irmãos" todos”.

A política de que se sente a necessidade - segundo Francisco - é aquela que nasce da caridade, "social e política", com uma visão ampla, capaz de reformar as instituições nacionais e internacionais. Um amor social e político, dirigido às pessoas humanas aos povos, mas com um "amor preferencial pelos pobres". Nisso Francisco vê uma convergência com os conceitos de fraternidade e amizade social firmados com o Grande Imã de Al Azhar Al-Tayyeb. Só assim - escreve ele - “a política é mais nobre do que a mera aparência e o marketing”.

Vazamento de notícias

Aparentemente, a partir da identidade do bispo destinatário, o vazamento deveria ter ocorrido no Chile (um dos países em que a oposição a Francisco tem sido mais forte nos últimos anos e onde o episcopado foi dizimado pela cobertura dada a padres pedófilos). Esse fato (grave) não muda em nada a importância do documento inspirado no "Santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria".

E as mulheres?

Nos últimos dias, tem havido alguma polêmica porque a Encíclica se intitula "Fratelli tutti". Alguns meios de comunicação anglo-saxões viram nesse plural masculino uma exclusão das mulheres, mas "Frates omnes" no latim usado por São Francisco (que, aliás, se dirigia a frades) indica os irmãos tanto em termos masculinos como femininos.

As religiões a serviço da fraternidade humana

A encíclica termina com duas orações, uma a Deus criador e uma à cristandade ecumênica. E no final, o Papa cita personalidades não católicas, entre as quais também Mahatma Gandhi. E é um hino à fraternidade humana, à justiça e à misericórdia.

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