“A crise ecológica não é o fim do capitalismo, é o capitalismo com menos pessoas”. Entrevista com Mark Alizart

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23 Setembro 2020

“A catástrofe constitui o elemento vital e o modo normal de existência do capitalismo em sua fase final”. Esta definição de Rosa Luxemburgo aparece como epígrafe de Golpe de Estado climático, um livro do filósofo francês Mark Alizart, que expõe que “a crise ecológica é o golpe de sorte que o ‘capitalismo de desastre’ precisava para estender seu controle sobre a terra inteira. A primeira coisa que o movimento ecologista precisa fazer para constituir uma frente única é romper com a ideia de que a crise ecológica afeta o mundo todo sem distinção. Esta ideia tem o efeito contrário, o de permitir que aqueles que objetivamente estão menos envolvidos na crise lavem as mãos. Não fazer nada para impedir a crise ecológica equivale a um extermínio em massa (...) e é preciso fazer com que aqueles que se adaptam a ela se responsabilizem pelo opróbrio”, adverte Alizart, filósofo pós-nietzschiano, que também pode ser inscrito na tradição do marxismo e do trotskismo.

“Temos que voltar a tomar o mundo como os sans-culottes tomaram a Bastilha, como os insurgentes de 1917 tomaram o Palácio de Inverno, posto que este mundo é nosso, nos pertence e é porque nos foi roubado que não se faz justiça”, escreve Alizart (Londres, 1975) ao final de Golpe de Estado climático, livro traduzido [para o espanhol] por Manuela Valdivia e publicado por La Cebra, editora independente de Adrogué [Argentina], dirigida por Cristóbal Thayer e Ana Asprea, que também publicou, do mesmo autor, Criptocomunismo e Perros.

A entrevista é de Silvina Friera, publicada por Página/12, 21-09-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que afirma em “Golpe de Estado climático” que a causa ecologista retrocede?

Basta ver quem conduz as maiores nações do mundo! Trump, Putin, Xi Jinping, Modi, Scott, Johnson, sem falar de Orbán e Duterte... Não apenas não há um ecologista no cargo, como também há pessoas que, conscientemente, fazem guerra à ecologia. E isso apesar de 40 anos de difusão da palavra ecologista. Ou melhor, ‘por causa’ disso, agora, sabem que são eles ou os ecologistas. Eles ou a democracia. Portanto, fazem o que for para que sejam eles. De agora para frente, apostam tudo.

Os governantes estão informados do aquecimento climático, há 40 anos, por meio do Relatório Charney. Em que estágio da “negação” do aquecimento climático estamos hoje? Como entender a passividade e a falta de ações?

Estamos na última fase: a destruição ativa dos ecossistemas. Os loucos que nos governam acabaram com o clima-ceticismo. Foi útil para eles, mas o seu tempo já passou. Não é mais possível esconder das populações que o clima está em crise. Portanto, chegou o momento de convencê-las de que tudo ‘bem’ que o clima esteja em crise. É o que Tony Abbott, o ex-primeiro-ministro australiano contratado por Boris Johnson para avançar nas negociações do Brexit, disse textualmente em 2018: “a mudança climática provavelmente seja boa”.

É interessante quando você destaca a relação que há entre aqueles que rejeitam a ecologia, porque a crise ecológica ameaça essencialmente, no momento, as populações indígenas e os pobres da Ásia, África e o Oriente Médio, com o fato de que quando ficou evidente que pela Covid-19 morriam os idosos, os mais pobres e os trabalhadores menos qualificados, vários dirigentes políticos, em diferentes países do mundo, argumentaram que a economia não deveria ser sacrificada por “essa gente”. O lucro ilimitado empurra o capitalismo a flertar com sua própria destruição?

O capitalismo nunca flerta com a sua destruição. De fato, é preciso chegar a compreensão disso, caso contrário, não se compreende nada. O capitalismo passa por fases de destruição, mas elas são sempre criadoras, conforme destacou (Joseph) Schumpeter. Dito de outro modo, a crise ecológica é para o capitalismo apenas uma oportunidade para obter mais lucros ou para obtê-los em outra parte, sobre as costas de outras pessoas. A crise ecológica não é o fim do capitalismo, é o capitalismo com menos pessoas, aquelas que morrerão por causa dela, os losers da crise ecológica, como diria Trump. Do mesmo modo, a Covid não foi o fim do capitalismo, apenas levou a uma transferência de riqueza dos pequenos comerciantes para a Amazon.

Poderia explanar a sua afirmação: “Os megaincêndios da Amazônia são os nossos incêndios do Reichstag”, em razão do resgate que faz de Trotsky-Luxemburgo-Marx?

O incêndio do Reichstag foi orquestrado para que Hitler não perdesse as eleições legislativas. Neste incêndio perpetrado pelos nazistas, subjazia a ideia de endossar a responsabilidade do mesmo a um comunista para demonstrar que se seu partido não fosse reeleito massivamente, os socialistas destruiriam a Alemanha. Neste momento, uma lógica similar está por trás da exaltação das revoltadas nos Estados Unidos. Trump quer convencer sua base de que é ele ou o caos. Mas esta também é a lógica que se aplica aos megaincêndios florestais e, de modo geral, ao aquecimento climático: são tentativas de Golpe de Estado.

Trata-se de agravar a crise climática para fragilizar a democracia. Tudo leva a crer, com efeito, que com a multiplicação dos dramas ecológicos, o mundo será desestabilizado por ondas migratórias e revoltas de fome. Mas um mundo desestabilizado é um mundo que se arma e se protege, que declara a lei marcial, que impõe o toque de recolher e que, ultimamente, suspende suas eleições democráticas.

Trump, outra vez ele, por outro lado, não escondeu o seu desejo de adiar as eleições por causa da Covid. Mas o mais extraordinário de tudo isto é que os climatofascistas podem se apropriar das acusações dos ecologistas e dizer que os responsáveis pela crise climática são “o capitalismo”, a “modernidade” e “o progresso”, não eles! Então, deste modo, fazem um duplo golpe: desestabilizam a democracia liberal e, além disso, podem encarcerar os liberais e os democratas!

O que os ecologistas podem aprender, em termos de ativismo político, da associação “Act Up”?

Na época em que surgiu a SIDA, muitos militantes dedicaram seu tempo, em primeiro lugar, para acompanhar os doentes esperando que os governantes e os laboratórios encontrassem um remédio. A Act Up nasce ao tomar consciente de que este remédio não chegaria nunca, pois a morte de homossexuais, prostitutas, viciados em drogas e haitianos não importava aos governantes, inclusive, essas mortes caiam bem para alguns políticos. Desde então, a Act Up decidiu assumir as cartas no assunto e ir aos laboratórios e ministérios para forçar os cientistas e os políticos a trabalhar.

Do mesmo modo, a guinada da Act Up da ecologia que apoio consiste em que os ecologistas parem de acreditar que os governantes e os industriais reduzirão voluntariamente as emissões de dióxido de carbono ou a produção de plástico. Isso não irá acontecer porque, como disse, hoje, estamos em uma fase terminal, na qual as nações se servem do clima para fazer guerra entre elas e para fazer guerra contra uma parte de sua população. É preciso, portanto, que os ecologistas de agora em diante sigam até as empresas, os ministérios e também os laboratórios de pesquisa, que obriguem as pessoas a fazer o seu trabalho.

Por que as mortes da crise ecológica não são contadas? Por que não se mostra a “curva” das emissões de carbono que teremos que achatar, assim como a cursa de contágios da Covid-19?

Porque são como os mortos da SIDA: invisíveis. São velhos, imunodeprimidos, distantes, de cor... A única razão pela qual a curva da Covid-19 foi tão demonstrada é porque se tinha medo de adoecer. Nos Estados Unidos, agora que se sabe que atinge mais as pessoas invisíveis, trabalhadores sociais, pessoas de cor, Trump não a mostra mais, e inclusive deu ordens para que os mortos não sejam mais contados.

Que impacto a eleição presidencial nos Estados Unidos pode ter, caso seja vencida por Joe Biden, um candidato sensível ao ecologismo?

Biden é literalmente a última chance para o planeta. Sei que pode parecer um pouco dramático dizer isto nestes termos, mas se o país mais poluidor do planeta seguir poluindo nos outros quatro anos como até agora, e sobretudo caso não assuma a liderança mundial em torno do clima e não impeça os outros de poluir, será o fim.

Greta Thunberg prometeu que logo seguirá com suas campanhas e iniciativas, em pausa pela pandemia, respeitando os protocolos sanitários que forem necessários. As direitas no mundo, que não costumam respeitar nenhum tipo de protocolo, saíram para se manifestar nas ruas, sem cumprir o distanciamento necessário, sem usar máscaras, com um discurso ‘conspiranoico’ da pandemia. Por que as direitas estão nas ruas e as esquerdas em casa?

Boa pergunta! Há muitas coisas. Em primeiro lugar, a direita é mais rica que a esquerda. O capital está do seu lado, e o capital se organizou para vencer a luta de classes e a batalha das ideias, criando todas estas redes de informação que transmitem sua propaganda dia e noite. Entre essas ideias difundidas, está a de que o Ocidente cristão branco luta no momento para sobreviver. Foi dito até a exaustão aos brancos norte-americanos que logo seriam uma minoria. Para os cristãos em todo o mundo, de que seriam superados por outras religiões, com o Islã na liderança. Para os Ocidentais, de maneira geral, que suas antigas colônias, África, Índia, China, iriam ultrapassá-los, que lutem com a força louca dos condenados à morte.

Pela esquerda, a organização é mais frágil. As divisões ideológicas mais fortes. E o sentimento de que sua vida está em jogo menos forte. Certamente, existe o aquecimento climático, mas o essencial da intelligentsia de esquerda é suficientemente próspera, velha e instalada nas democracias moderadas, para não ter que sofrer suas consequências diretas. Vendo bem, vacila, assim como a esquerda alemã, em 1933, frente ao nazismo. Existe uma esquerda que diz que, apesar de tudo, as coisas não são tão graves. Outra que diz que frente à violência sempre é possível opor o diálogo. Outra, enfim, que continua apegada a questões sociais e societais. Tudo isso compõe um ponto de vulnerabilidade que não tem ideia do que vai cair sobre si.

No último capítulo do livro, você recorda um livro de Bataille, “A parte maldita”, que buscava pensar uma economia humana que imite a natureza, uma espécie de comunismo cósmico capaz de triunfar sobre o duplo beco sem saída do capitalismo e o sovietismo. Em que aspectos esse projeto político segue atual?

É atual em tudo. Bataille estava apaixonado pela termodinâmica que é a ciência mais geral dos sistemas caóticos, e a respeito da qual alguns aspectos podem ajudar a compreender e estabelecer um modelo dos ecossistemas. A meteorologia, por exemplo, é uma aplicação das leis da termodinâmica, de modo que o estudo do clima e da ecologia dependem também dela. Neste sentido, seu comunismo cósmico era uma espécie de “ecologia do capital”. Nos anos 1970, os teóricos da bioeconomia recuperaram esta ideia e se aprofundaram nela. Após alguns anos, descobre-se que o próprio Marx pensava que o socialismo precisava assumir a forma de uma gestão termodinâmica da economia. “O ecossocialismo” é hoje o nome desta corrente de pensamento que é o único escudo contra o carbofascismo.

Como você está vivendo esta “grande pausa” que a pandemia implica? Conseguiu escrever e ler ou é tamanha a incerteza que até seus próprios hábitos se viram alterados?

Não, não pude trabalhar muito. Foi uma comoção muito grande. Mas vi na pandemia, infelizmente, a confirmação da ideia central do [livro] Golpe de Estado climático. A pandemia foi administrada segundo os princípios do darwinismo social. E agora, posteriormente, são liberadas todas as pulsões autoritárias do Estado. Infelizmente, a Covid não é mais que o trailer do desastre climático para o qual nos dirigimos.

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