Triagem social, o novo panóptico. Artigo de Raúl Zibechi

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12 Setembro 2020

“Agora que os poderosos decidiram administrar a escassez, provocada artificialmente, como acontece nos hospitais pela privatização ou a falta de investimentos em boa parte do sistema sanitário, a triagem social que já vinha sendo aplicada ganha uma nova dimensão”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 11-09-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

As ciências deveriam ser um serviço aos povos, sobretudo aos mais castigados e que lutam por sua sobrevivência. Sabemos que estão a serviço da acumulação de capital e de poder, por isso devemos nos alegrar com um trabalho que lança luz sobre os novos mecanismos de dominação.

Refiro-me ao trabalho “La pandemia, el Estado y la normalización de la pesadilla”, de Tamara San Miguel, mestranda em sociologia jurídica, e Eduardo Almeida, doutorando em sociologia e antropologia. Ambos mexicanos de Puebla [México].

Na minha visão, o aspecto mais interessante do trabalho é o que faz referência à triagem social, o mecanismo pelo qual o sistema ordena e hierarquiza aqueles que devem se salvar e aqueles que devem morrer. Se não há respiradores suficientes, alguém decide quem são os que têm prioridade. O mesmo acontece em relação aos leitos hospitalares e a todos os serviços saturados.

Esse alguém são os algoritmos, definidos neste trabalho como um sistema no qual são inseridas informações e do qual se obtém respostas, em formato de instruções que são seguidas de maneira mecânica para obter certos resultados. Também são uma nova ideologia científica para enfrentar a incerteza e, por sua vez, reforçar a dominação.

O problema é que os algoritmos estão sendo utilizados para enfrentar problemas e dilemas sociais e éticos, para tomar decisões a partir de uma lógica que implica ordenar, classificar e, em última instância, discriminar o que serve do que não serve. Quando são abordadas questões éticas, o algoritmo supõe aplicar rotas mecanizadas para tomar decisões que afetam a vida em todos os seus aspectos.

Não é por acaso que a “triagem” tenha surgido no seio das forças armadas, assim como o panóptico, conforme explicado por Jeremy Bentham e desenvolvido por Michel Foucault. Com tanto êxito que não só foi aplicado no desenho das prisões, como também nas fábricas, hospitais, escolas e em todos os espaços onde a sociedade capitalista necessitava disciplinar a classe trabalhadora.

Com efeito, o conceito de “triagem” (da palavra francesa “trier”, classificar e separar) foi aplicado pela primeira vez pelo chefe da Guarda Imperial de Napoleão para avaliar e classificar o atendimento aos soldados feridos em batalha. Décadas depois, foi adaptado pelo cirurgião do Exército britânico para a classificação daqueles que não receberiam atendimento por não ter possibilidades de sobreviver, mesmo com tratamento. Daí foi transferido ao plano social e ao conjunto da sociedade.

Agora que os poderosos decidiram administrar a escassez, provocada artificialmente, como acontece nos hospitais pela privatização ou a falta de investimentos em boa parte do sistema sanitário, a triagem social que já vinha sendo aplicada ganha uma nova dimensão.

San Miguel e Almeida sustentam que assim como as burocracias administraram aqueles que eram descartados como irrecuperáveis, durante as guerras napoleônicas, “na triagem social, as burocracias sacrificam as possibilidades dos descartáveis acessar os recursos. Se continuam vivendo ou morrem é irrelevante e se torna invisível pelo bem maior”.

Esse bem maior pode ser, como vimos nestes meses, considerar certas atividades econômicas como essenciais, decidir quais setores favorecer com programas públicos, ou seja, quais partes da população aproveitarão melhor os recursos do Estado para favorecer os propósitos do Estado, algo muito similar à situação pré-pandemia.

Decidir quem pode morrer e quais setores da economia devem ser sustentados não é nem mais e nem menos o que estamos vendo diante de nós. A pandemia permitiu tornar mais visível, ou inocultável, este sistema de morte que determina “quem tem a qualidade de cidadão com direitos, quem são os refugiados merecedores de ajuda humanitária e quem são os que ficam como zumbis, mortos viventes, condenados às formas mais precárias de sobrevivência ou a morrer no esquecimento”.

O trabalho que comento e cito tem outras virtudes sobre as quais não posso me alongar, como os direitos humanos durante a crise em curso, que merecem comentários mais detalhados. Por agora, basta mostrar como a triagem social implica um algoritmo que permite aos Estados justificar moral e tecnicamente as consequências de decisões éticas complexas que constituem a vida, a morte e a sobrevivência das populações.

Recomendo a leitura de um trabalho que nasce da indignação militante, ética e política, e que busca desnudar os novos mecanismos de opressão e controle de populações e povos, para melhor lutar contra eles.

Na América Latina, a ação paramilitar e o narcotráfico, que nesses dias lança o terror de Chiapas ao Cauca colombiano, são sustentados por algoritmos que, em algum momento, devemos desvendar. Um trabalho ao qual Tamara e Eduardo, como outros adeptos da Sexta, poderão contribuir.

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