Numa canoa, no meio daqueles com quem partilhou sua vida, Pedro é despedido em São Félix

Foto: Reprodução (enviada por Luis Miguel Modino)

12 Agosto 2020

Pedro voltou para sua casa, naquele lugar onde viveu por 52 anos, na sua Nazaré, o local que ele colocou no mapa e tornou mundialmente conhecido. São Félix do Araguaia sempre esteve intimamente ligado com a vida do missionário que chegou naquela terra em 1968, onde se tornou bispo em 1971. Lá onde ele viveu, ele sempre fez questão de repousar para sempre.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

Após uma longa viagem, com paradas no Santuário dos Mártires da Caminhada, e em outros lugares onde o povo queria fazer sua despedida para quem sempre viram como uma referência na sua vida, Pedro chegou no centro comunitário Tia Irene. Seu féretro foi colocado sobre uma canoa, aquela que o povo do Araguaia usa para sulcar o rio, para se deslocar e correr atrás do seu sustento.

 

Foto: Reprodução | Enviada por Luis Miguel Modino.

Ali estava seu báculo, um remo do Povo Iny, e sua mitra, um chapéu de palha sertanejo. Também estava o Círio Pascal, pois ele sempre teve claro que estaria vivo ou ressuscitado, algo que lhe fez superar o medo à morte e não se calar diante das ameaças que recebia por defender suas causas, as causas dos mais pobres, daqueles que os poderosos da região perseguiam, mas que encontraram no bispo seu grande companheiro de caminhada, seu incansável defensor.

 

Lá estava seu povo que o recebia com uma faixa e uma música onde dizia “Viva a Esperança”, pois Pedro sempre foi alguém que olhou para frente, sempre sonhando com dias melhores. Lá também estavam as fotografias de duas das mulheres mais admiradas e respeitadas por Pedro, uma de cada lado do caixão, com quem dividiu a vida e a missão, duas mulheres que se tornaram referência na sua vida pelo seu trabalho missionário e com quem já deve ter se encontrado na Casa do Pai.

 

Duas religiosas, de um lado Irene Franceschini, a Tia Irene, falecida em 2008, do outro Veva Tapirapé, falecida em 2013, duas mulheres que gastaram sua vida no Araguaia, de mãos dadas com Pedro, um bispo para quem ser mulher não significava ter um papel secundário na Igreja. Irene chegou na região em 1970, e lá, além de cuidar do Arquivo da Prelazia, dedicou sua vida a formar as mulheres, sobretudo as camponesas. Chegou quando a ditadura mais apertava uma região claramente dividida, de um lado, indígenas, camponeses e peões, do outro os fazendeiros com seus capangas e o apoio dos militares.

 

Foto: Captura de tela | Enviada por Luis Miguel Modino.

 

A Tia Irene, religiosa das Irmãs de São José, largou tudo e se entregou em corpo e alma a um povo e uma terra que ela adotou como seu povo e sua terra. Veva, irmãzinha de Jesus (de Foucauld) chegou no meio dos Tapirapé em 1952, vivendo uma experiência única de evangelização, narrada em seu diário. Claro exemplo daquilo que quase 70 anos depois o Sínodo para a Amazônia pediu para a Igreja da Amazônia, ser uma Igreja de presença e não uma Igreja de visita. Veva, junto com suas companheiras de congregação, fizeram possível que um povo, que quando chegaram só contava com 50 pessoas, tenha sobrevivido e se multiplicado. Ela, que nunca pretendeu catequizar os indígenas, partilhou sua vida com um povo que a adotou como alguém em quem encontrou carinho e solidariedade.

 

A Tia Irene e Veva Tapirapé são um exemplo de tantos homens e mulheres que junto com Pedro tentaram fazer realidade uma Igreja firmada no Evangelho e na teologia do Concílio Vaticano II, uma Igreja admirada e rejeitada, mas que não deixou quase ninguém indiferente. Tudo o que tem sido vivido, tem sido lembrado nos testemunhos dos presentes, em suas palavras, suas músicas, suas orações, inspiradas na vida de um povo que encontrou na Igreja uma verdadeira aliada, um sinal de uma esperança viva.

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