Quando falamos de Deus, no que pensamos é nas representações de Deus que nós fazemos. Artigo de José M. Castillo

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04 Agosto 2020

“Com toda segurança, se pode afirmar que não consta, em nenhum parte, que Deus tenha a última palavra na cura de nossas doenças. A última palavra de Deus, tal como expressou Jesus, é que nossa primeira preocupação, nesta vida, deve ser nossa preocupação pela saúde dos seres humanos, sobretudo dos mais necessitados”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 03-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

As pessoas que têm crenças religiosas questionam se Deus é ou não é responsável pelo que estamos sofrendo, por causa da pandemia que estamos suportando. Deus tem ou não tem a última palavra neste assunto?

Para responder a esta pergunta, o primeiro que deveríamos levar em conta é que Deus é o “transcendente”. Isto é, Deus está “mais além” ou, dito de outra maneira, está “fora de tudo” quanto nós podemos alcançar ou conhecer. Deus não é somente o “Infinito”. É, sobretudo, o “Absolutamente-Outro”. O Evangelho de João diz desde o prólogo de seu texto: “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1, 18). E Tomás de Aquino afirma com clareza: “Deus está acima de tudo quanto nós podemos dizer ou entender” (“Supereminentius quam dicatur aut intelligatur”. De Potentia, q. VII, a. V).

Por isso, nós mortais, quando falamos de Deus, não podemos nos referir a “Deus em si”, mas sim, na realidade, falamos e pensamos nas “representações” de Deus, que nós fazemos. Por isso há tantos “deuses”. E tantas religiões. Com o inevitável perigo de que cada cultura, cada país e até cada indivíduo se represente a Deus como interessa ou convém. Por isso é razoável pensar que, às vezes, falamos de um “Deus falsificado” (Thomas Ruster).

O problema de fundo está em que a mente humana não pode pensar nada além de “objetivar” o que pensa. Um pensamento é um “objeto mental”. Com o qual – e do qual – resulta que o Absoluto degenera em “coisa”, isto é, em um “objeto mental” (Paul Ricoeur). Disto que, convencidos de que estamos pensando em Deus, na realidade o que temos em nossa mente é a “representação” que nós fazemos de Deus. Tem razão o Evangelho de João: “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1, 18).

A solução, que o cristianismo deu a este profundo e complexo assunto foi o que nós cristãos denominamos de “Encarnação” de Deus. Que é a “humanização” de Deus, em Jesus, o Senhor. Jesus é quem nos fez conhecer a Deus (Jo 1, 18). Por isso, em Jesus, vemos a Deus. Como o mesmo Jesus disse a um dos seus discípulos: “Faz tanto tempo que estou no meio de vocês, e você ainda não me conhece, Filipe? Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). E por isso, também, pode se afirmar que o juízo das nações (o juízo final) será um “juízo ateu”: “o que fizestes a um destes, a mim o fizeste” (Mt 25, 40). A conduta que temos com os demais, essa é a conduta que temos com Deus.

Então, chegando a este ponto, perguntamo-nos: como Jesus se comportou com os habitantes da Palestina do século I? Segundo os relatos do Evangelho, Jesus curou os doentes. Porém, não curou todos os doentes. Portanto, é possível assegurar que Jesus (Deus) “teve a última palavra” no grande problema da saúde, que tanto preocupa a nós todos?

Com toda segurança, se pode afirmar que não consta, em nenhum parte, que Deus tenha a última palavra na cura de nossas doenças. A última palavra de Deus, tal como expressou Jesus, é que nossa primeira preocupação, nesta vida, deve ser nossa preocupação pela saúde dos seres humanos, sobretudo dos mais necessitados. Isso é o que fez Jesus. Isso é o que quer Deus. E nisso consiste a última palavra de Deus sobre esta pandemia e todas as pandemias que possam vir a este mundo. Não coloquemos em Deus o que é nossa responsabilidade. Neste assunto, tão sério e determinante, nossos bispos teriam que ser tão precisos e transparentes como são quando se trata de defender privilégios fiscais e a exatidão do Estado no imposto de renda.

 

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