O que diria o filósofo Ricoeur sobre o seu ex-assistente editorial, Emmanuel Macron?

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26 Abril 2017

Ricoeur seria o homem da ética da convicção, que nunca deixou de buscar a excelência do preferível, concebido como o objetivo da vida boa em instituições justas. Macron, em vez disso, seria o homem da ética da responsabilidade, entendida como o senso do realizável, em um contexto histórico dado, sem ceder à facilidade do recurso ao extremo e à violência.”

A opinião é do filósofo francês Jean-Philippe Pierron, professor da Université Jean Moulin de Lyon, em artigo publicado por Slate.fr, 25-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“Estranho paradoxo no qual as sociedades avançadas se encontram encerradas hoje: por um lado, é para sobreviver que as nações modernas devem entrar na competição tecnológica; mas, na mesma medida, elas se entregam à ação de dissolução exercida pela tecnologia que se tornou soberana sobre o núcleo ético-político dessas sociedades. O homem das sociedades industriais avançadas, posto no cruzamento do econômico e do político, sofre com a contradição entre a lógica da industrialização e a velha racionalidade decorrente da experiência política dos povos” (Paul Ricoeur, Ethique et politique, Esprit, 1985).

As relações entre Paul Ricoeur e Michel Rocard, estabelecidas sobre um pano de fundo de protestantismo, mas também sobre um senso do compromisso intelectual aprofundado para esclarecer o compromisso político, estão bem documentadas. Já as relações entre Paul Ricoeur e Emmanuel Macron são menos conhecidas, embora este último reivindique expressamente tal herança. Ele não tem medo de dizer, por exemplo: “Foi Ricoeur quem me levou a fazer política, porque ele não a fizera”.

É bem difícil determinar se essa reivindicação é da ordem da instrumentalização, da estratégia de comunicação a serviço de um fator de diferenciação na “oferta política” ou de uma referência fundadora que encontrou em Ricoeur um “educador político”. A questão, porém, é precisamente esta: como se forma o político?

Velho problema, já posto por Platão e que não cessa de se repropor hoje, na era em que o pessoal político, embora se trate de ação política, passa através do molde da “ciência política”.

Levando em conta as afirmações de Emmanuel Macron, proferidas muito antes do projeto de se apresentar às eleições presidenciais, levaremos a sério essa referência como algo que vai além de um “efeito de fachada”. Mas não tentaremos ver se Macron faz um programa político ricoeuriano, mas sim entender em que os temas filosóficos desenvolvidos por Ricoeur podem iluminar ou criticar o projeto e a ação política que Macron quer implementar.

Para pensar as relações entre Emmanuel Macron, o político, e Paul Ricoeur, o filósofo, poderíamos retomar a distinção proposta por Max Weber na sua célebre conferência sobre “A política como vocação”. Nesse espírito, Ricoeur seria, então, o homem da ética da convicção, que nunca deixou de buscar a excelência do preferível, concebido como o objetivo da vida boa em instituições justas.

Macron, em vez disso, seria o homem da ética da responsabilidade, entendida como o senso do realizável, em um contexto histórico dado, sem ceder à facilidade do recurso ao extremo e à violência. Especificamente, o contexto histórico da França do início do século XXI é marcado pelo pluralismo dos valores, pelo peso terrível de um economicismo globalizado e financeirizado (do qual provém o próprio Macron, como banqueiro de investimentos), que reduzem as margens das iniciativas políticas e empobrecem o sentido do trabalho, reduzido a uma atividade (ou até mesmo a uma ausência de atividade, no caso de desemprego em massa), e, finalmente, por uma redefinição das identidades culturais.

Esse contexto já era anunciado pela citação supracitada, explicando como se tornou difícil acreditar, para os nossos contemporâneos, que a política pode ser algo diferente de uma gestão, pode ser uma “boa notícia”. Mas é preciso atenuar essa distinção. Sem dúvida, seria mais justo dizer que, ao invés de opor convicção a responsabilidade, o que muitas vezes leva ou ao idealismo do objetivo julgado como inacessível, ou ao cinismo de um realismo pragmático e brutal (“on ne fait pas d’omelette sans casser des œufs” [não se faz omelete sem quebrar os ovos]), que decepciona diante da política, ambos tentaram investir no encontro de convicção e responsabilidade.

Ricoeur ousou se comprometer com certas causas (a paz, a universidade, a justiça); Macron diz que quer continuar mantendo e dando vida à ética e à política, de modo que elas se fecundem mutuamente.

Isso leva a diversas observações. A primeira diz respeito às relações entre os políticos e a vida intelectual na França. Nos grandes Estados modernos, o espaço dado às técnicas administrativas (os grandes corpos do Estado) faz com que a formação do pessoal político esteja perto das palavras da técnica, da gestão e da competência. Daí derivam as palavras que abundam hoje, de tecnocracia e gestão, que saturam a “ação política” já formatada pelo perfil da École Nationale d’Administration (ENA), da qual o próprio Macron provém.

A racionalidade dos meios (papel dos funcionários e dos especialistas) parece assumir uma maior importância em relação à racionalidade dos fins (o sentido e o fim do agir político, as relações entre ética e política), diria Ricoeur. Por isso, reivindicar uma referência intelectual, neste caso filosófica, se encaixa nesse quadro; pelo menos, se tal afirmação não for apenas instrumental. Restaura espaço à dimensão da reflexão, da perspectiva, da explicitação dos fins da política, do exame dos pontos de encontro entre ético, político e econômico, da distância em relação à ideologia da expertise.

Em certo sentido, redefinem-se aqui as relações entre os políticos e a cultura, o político e o intelectual, que não podem deixar de se alegrar, em um período em que o político se tornou, muitas vezes, um profissional da política reduzida a técnica ou gestão, e em que o sentido do governar se esgota no método de governo.

A segunda observação diz respeito ao risco de confusão dos gêneros: as relações entre o filósofo e o político não são relações de subordinação recíproca, e estão longe do sonho/pesadelo do filósofo-rei. Não é um caminho reto aquele que vai do homem de conceito ao homem de governo. Da ideia ao programa, há todo um processo de tradução, de mediação na linguagem, nas instituições, que tem a ver não com a técnica, mas com a arte política. Ele levanta interrogações sobre como se passa da pureza da ideia à complexidade mobilizadora da ideologia, no sentido positivo que esse termo pode ter. Por exemplo, seria preciso fazer, aqui, uma longa exegese para mostrar como Macron, assistente editorial de Ricoeur para o livro La Mémoire, l’Histoire, l’Oubli, em 1999, traduziu em programa as ideias deste último.

Nessa obra, Ricoeur refletia sobre o trabalho de memória, distinguia entre a memória elaborada pelo historiador e a memória ocultada e manipulada pelo político. Quando o candidato Macron, na campanha eleitoral na Argélia, faz declarações falando de colonização e, um pouco mais tarde, afirma que não há “cultura francesa”, no sentido de uma concepção substancial, mas sim uma concepção narrativa do romance francês, ele se recorda das suas leituras?

Enfim, terceira observação, ligada àquilo que a precede: parece-me que o fundador do movimento “En marche!” (que não é apresentado como um partido e que se recusa a pensar como um partido; daí a dificuldade de situá-lo no debate público) é a favor de colocar novamente em discussão a constituição dos partidos políticos que se tornaram partidos de governo. Estes acabaram se esquecendo da sua função de animar a discussão da pluralidade; mas, também, negligenciam as formas novas da pluralidade política: os coletivos e as associações, as redes sociais e aquele novo espaço público que é a internet etc.

Reflitamos, então, sobre esta afirmação de Ricoeur:

“O Estado de direito, nesse sentido, é o Estado da livre discussão organizada; é em relação a esse ideal de livre discussão que se justifica a pluralidade dos partidos; ou, pelo menos, esta é, para as sociedades industriais avançadas, o instrumento menos inadequado para tal regulação dos conflitos.”

Para um ouvido ricoeuriano, sem dúvida, é a retórica do “ao mesmo tempo”, cara para Macron, a mais sensível ou, pelo menos, o mais semelhante. Ricoeur, no seu método filosófico, sempre quis substituir o dilema que separa e põe em contraposição pela dialética que liga, mesmo que no conflito. A dialética não está a serviço da grande síntese governamental autoritária – a síntese é sempre governamental, dizia Proudhon –, porque, em Ricoeur, a dialética sempre se volta à síntese adiada, por causa da complexidade das situações e da tragicidade da história, com as quais é preciso fazer as contas. Por isso, a política continua sendo um processo, e não a aplicação de procedimentos. Portanto, quando Macron diz “ao mesmo tempo”, não é uma banalidade de linguagem, nem um tique, mas é assumir o caráter tensional do real com o qual o político deve fazer as contas: libertar o trabalho e proteger os mais fracos; ser orgulhoso da França e relançar a construção europeia etc.

Mas, talvez, para um ouvido ricoeuriano, o que poderia destoar nas afirmações de Macron é a hipertrofia do espaço dado à economia – e, com ela, à economia bem pouco social e solidária, porque não diz muito sobre a justiça fiscal e sobre o papel das multinacionais. Para o ex-ministro da Economia, ela parece ter absorvido o discurso de fundo sobre a construção do mundo comum em razão da substancialização das leis da economia, isto é, da sua reificação em uma ideologia – a do crescimento, que faz da economia a nova ciência da ação! (depois do realismo socialista...). E é também esquecer que a política é precisamente, para Ricoeur, uma tensão entre a atenção à reforma e a exigência da revolução.

Em outras palavras, na política, existe um realismo gerencial que deve se concentrar na espessura tensional do contexto, como dissemos. Mas há também no político uma dimensão de expectativa, de ideal regulador, de abertura imaginativa. Essa abertura de um terceiro espaço utópico onde é possível sonhar um mundo diferente, antecipar – imaginando-os – outros possíveis e outros modos de pensar o lugar dos homens com os outros seres e com a natureza foi defendida por Benoît Hamon por um certo tempo nessa campanha eleitoral.

Há uma função positiva da utopia para Ricoeur, mas há um grande silêncio de Macron sobre as relações entre imaginação e política, da qual a questão ecológica, nas suas repercussões sociais e econômicas, é hoje um dos desafios. O autor de L’idéologie et l’utopie seguramente poderia perguntar como elas se dialetizam em Macron, a menos que se tornem um dilema para ele.

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