À procura de novas categorias teológicas. Artigo de Andrés Torres Queiruga

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20 Dezembro 2013

"Começando pela última das categorias analisadas [universalismo, cf. artigo anterior], é preciso recuperar tudo quanto há nela de positivo, sob condição de não renunciar a quanto chamei de “realismo antropológico”. É quanto pretende sugerir a expressão 'universalismo assimétrico'", escreve Andrés Torres Queiruga, teólogo espanhol, artigo publicado em Missione Oggi, na edição nº7 de agosto-setembro.

Eis o artigo.

Universalismo, porque mantém como base primária e irrenunciável uma dupla convicção: a) que todas as religiões são, como tais, vias reais de salvação e b) que o são porque exprimem da parte de Deus sua presença universal e ilimitada, sem favoritismos nem discriminações. Porém assimétrico porque é impossível ignorar as diferenças reais entre as religiões: não, repetimos, porque Deus discrimine, mas porque da parte do homem a desigualdade resulta inevitável.

(Baste um exemplo simples: progenitores normais e honestos amam com idêntico amor todos os filhos, mas cada um deles recebe e vive o amor a próprio modo, a ponto de que algum deles possa até não sentir-se amado. Recorde-se o exemplo do filme de Hitchcock: “Marnie”, adoecidas porque convencida que a mãe não a amasse enquanto na realidade esta havia sacrificado toda a sua vida por ela). Trata-se, com efeito, não de um “desígnio” de Deus, que escolheria e privilegiaria algumas pessoas ou nações em detrimento de outras, mas de desigualdades inevitavelmente impostas pela finitude criatural. A oferta divina, enquanto amor ilimitado e sem “parcialidades” (Rm 2,11), é igualitária, mas sua acolhida humana se realiza, por força, de modos e graus diversos, de acordo com o momento histórico, do contexto cultural ou da decisão da liberdade. Embora reconhecendo carências, deformações ou defeitos em todas, não seria realista ignorar que existem religiões que, mesmo julgadas em sua estrutura complexiva e tendo em conta seu contexto, aparecem objetivamente como menos realizadas.

Talvez representem uma mudança de significado. Nisso não há sequer um capricho divino. Como tudo o que é concreto e histórico, também no mundo religioso a descoberta ocorre num ponto, mas sua destinação é universal : no próprio momento em que é feita, cessa de ser possessão para ser percebida como responsabilidade e encargo. Dom, que procura realizar-se na acolhida e, da mesma forma, na oferta aos outros. Sequer como algo próprio que se presenteia aos outros, mas como culminação dentro da herança comum, no final descoberta e destinada a ser compartilhada com a promessa de um futuro mais pleno e compartilhado.

Também assim, a culminação insuperável é percebida com extrema cautela e vigilante modéstia. Neste sentido, é muito importante precisar o significado imediato da palavra em seu novo contexto. A própria palavra “culminação” implica que não se trata de exclusividade, mas de compartilhamento que leva mais em frente aquilo que a seu modo está em todos. E sequer pode significar “omnicompreensão”, como se determinada religião, por elevada que seja, pudesse exaurir o Mistério: o tesouro pode ser precioso e insuperável, mas a acolhida humana será sempre carente e insuficiente, em “vasos de argila” (2 Cor 4, 7). Vasos dos quais por força vasarão essências e faltarão aspectos presentes em outras configurações religiosas. O que, portanto, também significa abertura real às possíveis riquezas e complementaridades que delas possam advir.

Finalmente, não podem sequer significar “fechamento” que paralise a história e feche o futuro: ao contrário, remete a uma plenitude dinâmica, na qual o processo anterior chega à verdade de si próprio e se abre às máximas possibilidades de seu vivenciado. Acontece o mesmo num amor autêntico: chegado ao seu cume não se paralisa, mas entra precisamente no espaço da máxima plenitude; ou na vida: no cume da evolução da espécie humana, não morre, mas se abre ao espaço sem limites do espírito e da cultura.

É preciso repensar a revelação em Cristo. Reconhecer isto não obriga a renunciar ao absoluto, ao definitivo ou à unicidade da revelação que nós cristãos confessamos como ocorrida em Cristo. Mas obriga, por certo, a repensá-la muito a fundo, até o ponto em que – juntamente como duro desafio e inesperada possibilidade de progressos – talvez seja aqui uma das maiores tarefas para a hodierna teologia cristã.

Não servem os nivelamentos apressados que, como J. Hick, falam com demasiada facilidade do “mito” da unicidade, conduzindo a uma forte confusão sobre a figura única de Cristo. Mas, a estes não se pode remediar contrapondo-lhes somente o “mito do pluralismo”, contentando-se, assim, em reafirmar as velhas categorias, que são precisamente aquelas do mundo cultural superado pela nova situação. Como cristão posso confessar minha convicção que com Cristo a relação viva com Deus tenha atingido o insuperável, pelo qual creio que nele se me tornem evidentes as “chaves definitivas” do comportamento de Deus com respeito ao mundo e de nossa correspondente conduta, a ponto de não poder imaginar – falo literalmente – que haja espaço para ir além de quanto por ele foi descoberto.

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