A Campanha Amazoniza-te “se torna uma escola para nós, aprender a respeitar, conhecer, preservar”, afirma Presidente da CNBB

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28 Julho 2020

Convocar o mundo para defender a Amazônia tem se tornado um desafio, ainda mais no contexto de violência contra os povos tradicionais, algo que tem sido agravado pela pandemia da COVID-19. São muitos os crimes que estão acontecendo na Amazônia brasileira, o desmatamento, a grilagem, os incêndios e o garimpo e a mineração só estão aumentando, levando à destruição do bioma amazônico e à proliferação do coronavírus nas comunidades, mesmo nas mais distantes, onde os meios para combatê-lo são praticamente inexistentes.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Diante dessa conjuntura, a Igreja do Brasil tem lançado neste 27 de julho a campanha Amazoniza-te, numa tentativa de promover ações que articulem os líderes dos povos e das comunidades tradicionais, apelando para a participação ativa de todos os povos na defesa da Amazônia, seu bioma e seus povos ameaçados em seus territórios. A Amazônia está sendo agredida em seus povos e meio ambiente, segundo dom Erwin Kräutler, vice-presidente da REPAM-Brasil. Diante disso, “Amazoniza-te é sinônimo de sensibiliza-te, toma consciência, acorda antes que seja tarde demais”, em palavras do bispo emérito do Xingu.

Um dos grandes defensores dos povos indígenas amazônicos, ao longo de mais de 50 anos de missionário na região, enfatiza que “a responsabilidade é de todos nós e ultrapassa as fronteiras do Brasil, é o clamor que surge da terra, da floresta, dos rios e lagos, é a súplica insistente, é o pedido à responsabilidade, que brada aos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, que surge das vilas, dos povoados, das periferias e centros urbanos”. Por isso, ele faz um chamado a “juntos lutar pela Amazônia, ela merece, seus povos merecem nosso empenho, nosso engajamento”, agradecendo, em nome da Comissão Episcopal para a Amazônia, “a todas as entidades nacionais e internacionais que colaboram com essa campanha e se mostram sensíveis à causa da Amazônia”.

Não podemos esquecer, como afirmava Marcia Palhano, da Comissão Pastoral da Terra, um dos organismos parceiros da campanha, que “a Amazônia é a mãe que abraça toda a diversidade dos povos do campo, que tem toda a força da ancestralidade da mãe Terra”. Trata-se de uma terra com um importância vital para os povos originários e comunidades tradicionais que a habitam, algo que foi visibilizado no Sínodo para a Amazônia, que “em seu processo de escuta, permitiu que os povos registrassem seus apelos, que ganharam grande repercussão”, segundo a irmã Maria Irene Lopes.

A Secretária Executiva da REPAM-Brasil destacava a importância do Papa Francisco, que “fez ecoar os gritos da Amazônia e de seus povos para todo o mundo”. Estamos diante de uma campanha que faz um chamado a sensibilizar, mobilizar, potencializar denúncias da situação enfrentada pelos povos indígenas da Amazônia, uma realidade agravada pela pandemia da covid-19, segundo a religiosa, que também apresentava os pontos chave da campanha.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, tem apostado fortemente nesta campanha. Em palavras de seu presidente, dom Walmor Oliveira de Azevedo, “a Amazônia é muito importante por seus povos tradicionais, história, biomas, pela fé cristã forte nela plantada”. Quando ele fala de amazonizar-se, esse conceito “nos reporta ao conceito de alteridade, do outro”. Mesmo sem morar na Amazônia, ele afirma que “o sentido de alteridade me dá a possibilidade de, não estando na Amazônia, amazonizar-me, e assim que ecoe no coração de cada pessoas, em qualquer lugar do mundo, especialmente no Brasil este convite”. Para o arcebispo de Belo Horizonte, “a sociedade só se constrói na medida em que tem participação do outro, de cada um e de todos”.

Analisando a realidade, o presidente da CNBB afirma que “estamos num tempo onde o subjetivismo é tão grande que tem colocado o indivíduo acima de tudo, passando por cima do outro, passando por cima das instituições, fomentado por um subjetivismo que leva a pensar que pode passar por cima do outro e das instituições”. Trata-se de indivíduos que “não escutam, não levam em conta, não se sensibilizam para a dor e para o sofrimento dos outros”, insiste dom Walmor.

Diante disso, faz um chamado a “amazonizar-se, abrir o coração, dialogar, não passar por cima da comunhão”, apresentando a CNBB como órgão de comunhão.

Entrar na dinâmica proposta pela campanha Amazoniza-te, em palavras do arcebispo, “se torna uma escola para nós, aprender a respeitar culturas, povos diferentes, conhecer riquezas, preservar o meio ambiente”. Isso demanda “abrir-nos aos outros, como uma escola, senão as pessoas não se convencerão”, insistindo em que amazoniza-te é uma escola de aprendizagem.

“Se faz necessário que o Brasil olhe para a Amazônia e para os povos da Amazônia”, afirmou Joênia Wapichana, em sua intervenção. Segundo a primeira deputada federal indígena, a Amazônia é a região mais atingida pela covid-19, mais um episódio de uma vulnerabilidade histórica dos povos indígenas, iniciada na violência da colonização, e depois perpetuada na falta de respeito pelos direitos coletivos e a vida, com continua chegada de doenças fruto das invasões. Essa discriminação dos povos originários tem se manifestado nos vetos ao Projeto de Lei de ajuda aos povos indígenas, onde o Presidente da República chegou vetar até o fornecimento de água. A urgência da campanha é grande para a deputada, pois os mais vulneráveis estão necessitando dessa visibilidade no cenário nacional e internacional, o que demanda compartilhar as responsabilidades, a construção e defesa da vida coletiva.

Desde o mundo científico, Ima Vieira, apontava números que mostram os riscos que enfrenta a Amazônia, onde “justiça social e ecologia estão interligadas”, uma região que, em palavras do Papa Francisco, tem se tornado triste paradigma do que está acontecendo em muitas partes de planeta. A ecóloga destaca o aumento das taxas de desmatamento, desigualdade social, desastres ambientais, doenças, falta de aceso a água potável e saneamento básico. Estamos diante de uma desestruturação de políticas ambientais, que fomenta a tolerância com a ilegalidade, que impera na região, que tem como consequência as ameaças e mortes de indígenas, camponeses e religiosos. Trata-se de conflitos que impactam a vida dos povos da floresta.

Segundo a perita na última Assembleia Sinodal, “há muitos interesses e projetos geopolíticos para a Amazônia que entram em conflito com os povos da região e as unidades de conservação”. Estamos diante de grandes projetos de infraestrutura para favorecer o modelo predatório, o que pode conduzir a um ponto de não retorno, de savanização da Amazônia. Nesse contexto, as secas, queimadas, perda de floresta aparecem como elementos decisivos. Segundo Ima Vieira, “não adianta impôr modelos de fora na Amazônia”, apostando no “fortalecimento dos órgãos ambientais e de proteção dos povos, demarcação de terras indígenas, monitoramento do desmatamento, garantia dos direitos de uso da floresta da parte dos povos”. Para isso, “amazonizemo-nos antes que seja tarde”.

Para Dira Paes, do Movimento Humanos Direitos, amazonizar-se é um sentimento, a melhor maneira de mobilizar aqueles que querem defender a Amazônia. A atriz fez um chamado a cuidar dos direitos humanos. Frente à cobiça, que atravessa todos os direitos dos povos e da floresta, provocando um impacto virulento de destruição e o desrespeito das comunidades que habitam a Amazônia, Dira Paes faz um “alerta vermelho para discutir políticas e atuar, para mobilizar e que todos possamos agir em prol de um sentimento”. Numa região como a Amazônia, a ausência do estado é muito perigosa, mas também um governo que não oferece garantias, enfatiza a atriz.

Estamos diante de uma “campanha para sensibilizar, porque a Amazônia está no coração do mundo”, segundo Dário Bossi. O comboniano recordava as palavras de São Paulo VI, “Cristo aponta para a Amazônia”, e destacava que a campanha lançada neste 27 de julho, se conecta com a Assembleia Mundial pela Amazônia. Ao apresentar os objetivos e materiais, o assessor da REPAM-Brasil falava dos vídeos curtos, que querem ajudar a “pôr em diálogo os povos da Amazônia com o Papa Francisco, a Igreja e o mundo dos artistas, pesquisadores e cientistas”. Junto com isso foi apresentada a plataforma, amazonizate.org, com propostas de continuidade dos vídeos, cartas dos bispos, estudos científicos, propostas de ação e um calendário de atividades.

 

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