“A Conferência Eclesial Amazônica é a realização do que o Concílio Vaticano II propôs”. Entrevista com Dom Eugenio Coter

Amazônia. | Foto: Wikimedia Commons

20 Julho 2020

Em meio à pandemia, de forma virtual, nasceu no dia 29 de junho passado a Conferência Eclesial da Amazônia, da qual é membro Dom Eugenio Coter, bispo do Vicariato de Pando, na Bolívia. Esta conferência responde ao princípio da encarnação e do diálogo e pode ser um exemplo a ser seguido por outras realidades similares. 

 

Dom Coter vê a Conferência Eclesial da Amazônia como um instrumento que abre a participação leiga, indígena e local, dentro de uma instância eclesial de reflexão e organização do trabalho pastoral. Segundo o Bispo de Pando, "é a concretude, neste ponto do caminho eclesial, do que foi proposto pelo Concílio Vaticano II, que iluminou as diferentes conferências extraordinárias da Igreja na América, de Aparecida, onde a participação dos leigos na Igreja se tornou cada vez mais concreta e aberta", vendo-a como "o fim natural deste processo, sem que ele fosse algo forçado".

 

Mas estes também são dias difíceis para Dom Eugenio Coter, infectado pela COVID-19, que nesta quarta-feira, 15 de julho, viu morrer Dom Eugenio Scarpellini, bispo de El Alto, Bolívia, amigos desde seu tempo como seminaristas em Bergamo, "alguém com quem compartilhamos muito caminho, com quem houve certas dinâmicas comuns”. Foi um choque muito forte, no qual a partir da fé ele espera descobrir a presença de Deus.

 

 

Eugenio Scarpellini, bispo de El Alto, Bolívia, faleceu no dia 15 de julho. (Foto: Aleteia/Divulgação)

 

Este tempo deveria nos ensinar, em sua opinião, a aproveitar melhor os meios virtuais, superando "o preconceito que nasce da ignorância e da incompreensão". Neste sentido, o bispo diz que este foi o ano em que ele mais se encontrou com o clero, ou que a mídia virtual permitiu o nascimento da nova Conferência Eclesial da Amazônia. Este tempo também nos mostrou algo que deve ser superado, "um rosto de corrupção que vai aos pequenos meandros, a todos os cantos, ao coração do povo".

 

A entrevista é de Luis Miguel Modino

 

Eis a entrevista.

 

Em 29 de junho, foi constituída a Conferência Eclesial da Amazônia, da qual o senhor faz parte. Como o senhor acha que esta conferência pode influenciar o futuro da Igreja Amazônica e universal?

 

Na medida do trabalho que será dado à conferência e das atribuições que lhe serão reconhecidas, a conferência poderá ser um passo muito importante para uma experiência eclesial ainda mais encarnada dentro da especificidade de certos territórios pelos sinais culturais, antropológicos e naturalistas, que são fundamentais no equilíbrio do mundo, dos continentes e localmente. Ela permitirá que a Igreja tenha um rosto ainda mais encarnado dentro desta realidade.

 

Mapa da Bolívia. (Fonte: Wikipédia/Divulgação)

 

Ela responde ao princípio da encarnação de maneira mais forte, mais precisa e é a oportunidade de, dentro de uma comunhão universal, porque se move dentro de uma comunhão e de um diálogo permanente, faz parte do CELAM, e estará em diálogo com as diferentes conferências episcopais locais, mas tem sua própria capacidade, a partir de seu próprio espaço reconhecido, de poder dar as respostas específicas a este território, encarnando ainda mais a realidade da Igreja. Se isso for vivido no território da Amazônia, tornar-se-á um estilo de caminho para outras realidades similares ou com características muito específicas, o que poderá enriquecer a Igreja. A beleza de um jardim não é que exista apenas um tipo de flor, a beleza é que existem flores de diferentes cores e formas, mas que fazem parte de um mesmo jardim.

 

Representantes dos povos originários estão presentes nesta Conferência Eclesial da Amazônia. A Igreja Católica tem insistido muito, especialmente no processo do Sínodo para a Amazônia, sobre a aliança entre a Igreja e os povos originários. Esta conferência pode fortalecer e ajudar a colocar em prática esta aliança?

 

O Sínodo para a Amazônia trouxe à luz esta aliança vivida desde a chegada do cristianismo, com suas exceções, que foram exceções à estrutura ordinária da Igreja, que sempre esteve muito próxima dos povos, que salvou as tradições, a cultura, a língua, deu forma e escrita às línguas. É um sinal desta presença da Igreja que, como disse o Papa em Puerto Maldonado, chegou à Amazônia sem malas, para ficar, entrar e crescer na história dos povos, sofreu com eles, cresceu em estatura e resgatou com eles toda a cultura.

 

O Sínodo tornou esta história ainda mais visível, que é uma história que segue e é projetada dentro das estruturas eclesiais, a partir da possível conferência episcopal ela se torna uma conferência eclesial. O passo decisivo foi dado pelo Papa na criação do conselho pós-sinodal, quando os bispos, de acordo com os regulamentos, elegeram os delegados a este conselho de cada conferência episcopal que pertence à Amazônia, e o Papa, que tinha que eleger seus delegados, pediu a liberdade como Papa para poder eleger pessoas que não eram bispos, e viu como algo positivo eleger os representantes dos povos indígenas, uma religiosa, um leigo e uma leiga, para o conselho pós-sinodal.

 

A Conferência Eclesial assumiu o conselho pós-sinodal e está dando um certo passo oficial, até que o Papa reconheça os estatutos. O que foi o conselho pós-sinodal está se tornando a Conferência Eclesial da Amazônia. O conselho pós-sinodal teve a tarefa de ver como encarnar a reflexão do Sínodo, a Conferência Eclesial da Amazônia tem a mesma tarefa, o mesmo desafio, e se abre a esta participação leiga, indígena, local, dentro de uma instância da Igreja de reflexão e organização da pastoral. Este é o caminho e, uma vez aprovados os estatutos, ela será organizada ainda melhor, é o início de um caminho que será traçado e que ira se concretizando.

 

Como ajuda o futuro da Amazônia e da Igreja universal que esta conferência não seja apenas episcopal, mas eclesial, onde obviamente os bispos estão incluídos, provocando uma abertura para uma forma mais sinodal de ser Igreja?

 

É a concretude, neste ponto do caminhar eclesial, do que foi proposto pelo Concílio Vaticano II, que foi iluminado pelas diversas conferências extraordinárias da Igreja na América, em Aparecida, onde a participação dos leigos na Igreja se tornou cada vez mais concreta e aberta, não só como fiéis, mas também em lugares de responsabilidade pastoral, reconhecendo que existe um serviço episcopal e clerical a esses fiéis, mas que esses fiéis também podem servir em nome da mesma fé do batismo que os anima. Aparecida deu um importante enfoque a isto, Evangelii Gaudium assume esta responsabilidade laical dentro de uma Igreja madura, que passa de alguns fiéis apoiados pelo trabalho da parte clerical da Igreja para serem os protagonistas deste caminhar, sempre com o serviço do clero e dos religiosos, mas também são atores que contribuem para esta caminhada, porque são o Povo de Deus.

 

O clero e os religiosos acompanham esta caminhada eclesial dos batizados, mas eles ganham força dentro da capacidade de organização e colaboração. Não é um antagonismo, mas uma colaboração e integração que vê o crescimento dos fiéis. Este processo levou, neste momento, a esta caminhada, que tirou força da Evangelii Gaudium, tomou luz com Laudato Si, uma experiência com a REPAM e com o trabalho sinodal, que viu a ampla participação dos leigos, dos povos originários, dos migrantes na Amazônia, que foram os verdadeiros protagonistas do texto que os bispos mais tarde recolheram, sintetizaram e levaram para Roma, como expressão de uma voz que veio dos leigos e dos povos indígenas.

 

Este é o fim natural deste processo, sem que ele seja algo forçado, e isto foi dado ao Papa para que ele possa ajudar esta criança, esta menina, esta conferência, a crescer e a contribuir. Este processo torna-se significativo e terá que continuar nesta linha, com este propósito de uma Igreja que está amadurecendo, que está crescendo.

 

O senhor falou sobre a tradicional aliança da Igreja com os povos da Amazônia, algo que está aparecendo muito claramente neste tempo de pandemia. Como o senhor valoriza o grande trabalho que a Igreja Católica está realizando na Amazônia para tentar combater os efeitos da pandemia e acompanhar a vida do povo?

 

Basta ver os gestos, as ações que foram promovidas por diferentes organizações eclesiásticas, nacionais ou internacionais, que se moveram, grupos de jovens, grupos solidários, a Cáritas, para responder e aliviar a situação dos povos indígenas diante da emergência da COVID, com a consciência que se formou em referência a isto. Isto levou a uma grande presença, a uma grande ajuda e a sentir que as pessoas entendiam que a Igreja não está no comando do sistema de saúde, isso é claro. O sistema de saúde, que é escandalosamente deficiente em relação às demandas comuns de saúde, que está escandalosamente ausente, está a cargo do Estado.

 

Mapa de Pando, na Bolívia. (Fonte: Wikipédia/Divulgação)

 

Os indígenas sentem que a Igreja não está no comando, que não é responsabilidade dela, que não tem força, mas veem que a Igreja os acompanhou neste processo, os ajudou, os orientou, trouxe medicamentos, alimentos, promoveu a cultura da medicina tradicional, das ervas, que estão ao alcance daqueles que vivem na floresta. Estamos trabalhando em um projeto para levar pequenos geradores de oxigênio para o campo, onde há um médico ou uma enfermeira, nestes postos médicos meio vazios no campo, onde não há um aspirador, uma cânula de aspiração, uma garrafa de oxigênio, onde há uma farmácia insuficiente, que não tem os medicamentos básicos para enfrentar, não estou dizendo uma pandemia, uma pequena epidemia de cólera, não há nada disso.

 

Um dos problemas graves é que quando este vírus piora, ele ataca os pulmões, e as pessoas morrem por afogamento, e não é apenas a medicina natural que pode aliviar, ela alivia apenas os mais fortes, mas algo mais é necessário. Trata-se de fornecer a esses centros médicos vazios uma máquina que está ao alcance de qualquer prefeitura, pois elas não são caras e, apesar da pandemia, não se tornaram mais caras. Este é um sinal de uma Igreja que faz as pessoas sentirem que a Igreja as acompanha, celebra com elas, na liturgia e na vida, e luta na vida como uma luta diante do Senhor, para que ele a fortaleça e consiga vencer. As manifestações que me chegam em agradecimento mostram estas coisas.

 

O senhor também foi afetado pela doença, ainda está se recuperando, e no último dia 15 Dom Eugenio Scarpellini, bispo de El Alto, um missionário italiano como o senhor, um amigo seu, morreu. Como o senhor está vivendo pessoalmente esta situação?

 

Vivi-o como um choque, porque falei com ele. Somos ambos da diocese de Bergamo, que foi geminada com a Bolívia desde 1962, quando começou o Concílio, quando Dom Antezana pediu sacerdotes ao Papa João XXIII, ao que ele disse que o Vaticano não tem nenhum, mas minha diocese tem, vai lá e pergunta, e diz que o Papa lhes pediu, e no dia em que o Concílio começou veio o primeiro missionário. Dom Eugenio foi ordenado em 78 e eu em 81, ele veio à Bolívia em 88 e eu em 92, ele em La Paz e eu em Cochabamba. Ele trabalhou em paróquias, como eu fiz, no início, ele foi ordenado bispo cinco anos antes, e quando fui eleito bispo do Vicariato de Pando, ele foi nomeado bispo de El Alto.

 

Mapa de El Alto, na Bolívia. (Fonte: Wikipédia/Divulgação)

 

Alguém com quem temos compartilhado muito caminho, com quem houve certas dinâmicas comuns. Conversamos por muito tempo na segunda-feira, porque o sábado anterior tinha sido meu aniversário, ele tinha me enviado uma pequena mensagem, eu tinha acabado de superar a COVID. Na quarta-feira, quando vi que estavam enviando uma mensagem para o grupo whatsapp que temos como missionários de Bergamo, porque na véspera tudo estava bem, embora ele ainda estivesse com oxigênio, em dois, três dias mais eles poderiam tirá-lo, na manhã seguinte ele estava bem, às 9h30 começaram a chegar mensagens que o levavam aos cuidados intensivos e então ele morreu.

 

Foi um choque muito forte, que tento viver do sofrimento de um amigo perdido, com o qual compartilhamos o caminho desde os anos do seminário, desde 1976. Mas ao mesmo tempo da dimensão da fé, o sofrimento humano é preenchido pela fé e eu acredito que tudo o que acontece na vida do mundo, Deus sabe como usá-lo para que Seu Reino possa crescer. Neste momento, apelo à , porque vejo o nó que está debaixo do tapete, e não o desenho que está acima, que Deus está fazendo. Sou chamado a ter fé, também a partir deste fato da morte súbita e violenta pelo vírus de Dom Eugenio, que eu o vivo como um nó, mas a partir da fé espero que Deus tenha desenhado um desenho de seu Reino na parte visível do tapete.

 

Olhando para o futuro, o que este momento de pandemia que estamos vivendo nos ensina como missionários, como Igreja na Amazônia e como Igreja universal?

 

Que existem muitas dinâmicas para construir relações humanas às quais não recorremos, que não aproveitamos, que às vezes com o preconceito que nasce da ignorância e da incompreensão, não alcançamos, por exemplo, esta dinâmica virtual. Queremos sempre demonizá-lo, dizendo que não são relacionamentos verdadeiros, mas que agora descobrimos que eles podem fazer coisas como o nascimento de uma conferência eclesial sem gastar dinheiro para se encontrar, que é necessário, mas que de vez em quando isso pode ser feito muito mais intensamente quando usamos esses meios de forma positiva.

 

Nunca nestes sete anos em que fui bispo tive tantas reuniões com todo o clero como neste ano, que estamos fazendo nossa reunião do clero a cada 15 dias, compartilhando uma hora e meia de oração, de formação, de dizer uns aos outros o que cada um está vivendo, de interpretação do que está vivendo, para um discernimento e momento de formação. Este tornou-se um ponto importante, onde todos estão presentes e onde se cobra se alguém não está presente, porque se sente que ele está faltando em um momento bonito. Estamos fazendo isso com os religiosos e estamos convidando pessoas de um lado ou do outro, que nunca poderíamos convidar porque estavam em outro país, em outro espaço, e hoje podem sentar-se conosco.

 

É uma riqueza que não temos aproveitado, explorado, durante anos, que estamos descobrindo agora, enquanto nossos jovens e adolescentes a utilizam há muito tempo. Aprendemos a ensinar por estes meios quando há lugares no Círculo Polar Ártico onde, durante seis meses do ano, as crianças têm sua aula assim, têm sua formação, seu momento educacional, sua avaliação. Não é apenas a transmissão de conhecimentos, são as relações, a troca, a participação, a emoção, a expressão de linguagens, de arte, que estão crescendo. É um enriquecimento, porque um entra no coração do outro, há uma riqueza infinita da qual não aproveitamos, que a pandemia nos atingiu de cheio.

 

Por outro lado, aumenta a consciência de uma responsabilidade social que cada um tem individualmente, porque esta pandemia não é apenas responsabilidade das estruturas de saúde, que precisam de apoio e ajuda, é responsabilidade de cada um com o outro, porque cada um pode ser um elemento de saúde ou de contágio do outro, e isto requer responsabilidade individual, deve ser amadurecida, e que às vezes na dinâmica anterior, a irresponsabilidade, a imaturidade, a ignorância das coisas, a superficialidade, permitiram que o bem de um se tornasse o mal do outro, porque era um bem mal feito.

 

Hoje a pandemia colocou a responsabilidade na cara, basta ver como, onde não respeitaram o distanciamento social, onde o ignoraram, pagaram com vidas humanas. Onde a mentira de alguém, para defender seus interesses, tem custado a vida de outros. Isto foi deixado claro, é uma consciência, que ainda não foi assumida por todos. Estes são casos que a pandemia gerou, mas agora esperamos, ainda teremos que coexistir com isto por muito tempo, que isto entre nas profundezas da consciência de todos e permita a maturidade de todos. As poucas vezes que saio à rua por necessidade, mesmo as crianças de dois anos na motocicleta, vão com suas máscaras, muito simpáticos, porque parece que seus olhos falam mais. Todos estão fazendo isso e aqui em Riberalta se tornou uma consciência comum. Isto nos faz compreender que temos uma consciência de responsabilidade social e comunitária que vem crescendo, infelizmente graças à pandemia.

 

O que a pandemia nos mostrou e devemos deixar para trás?

 

Corrupção, a pandemia está mostrando um rosto de corrupção que vai até os pequenos meandros, para todos os cantos, para o coração do povo, quando o pão se tornou muito ruim mantendo o mesmo preço, quando há comércio de oxigênio e o preço dobrou ou triplicou, quando os medicamentos subiram de preço. Quando o mesmo pessoal médico, alguns são generosos, outros pedem salários que estão além do alcance dos centros médicos, chamam-se heróis, mas são eles que varrem a generosidade, quando aqueles que se aproveitam da emergência bloqueiam as estradas para a passagem dos caminhões de oxigênio para reivindicar pequenas vantagens a nível local.

 

Todos estes são sintomas de corrupção, que estão trazendo sofrimento e morte aos mais indefesos, e eles o fazem apesar disso e ainda por cima disso. A pandemia está mostrando que neste país, onde havia um governo supostamente favorável aos pobres, em El Salvador acabam de entregar um hospital de 400 leitos, dos quais 50 são de cuidados intensivos do terceiro nível, que custou 45 milhões de dólares, e aqui há três anos fizeram um hospital de 80 leitos, 12 de cuidados intensivos, do segundo nível, o que é escasso, porque há falta de pediatria e maternidade, e custou 75 milhões de dólares. E lá nem sequer tinha a máquina de oxigênio, que agora foi comprada pelo movimento popular, que me pediram para ajudar a organizar como vicariato, e acabamos de comprar a máquina de raios X portátil, a máquina que gera oxigênio, para complementar um hospital que custou o dobro do que um hospital de 400 leitos, totalmente equipado. A pandemia revelou todo um mundo de podridão, de corrupção, que se aproveitou dos pobres, com a cumplicidade dos comitês de vigilância.

 

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