Covid-19 e clima: duas boas razões para comer menos carne

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “A mulher precisa, e as religiosas sobretudo, sair daquele papel de que ela é inferior”. Entrevista com a Ir. Maria Freire

    LER MAIS
  • Governo Bolsonaro deixa estragar 6,8 milhões de testes de covid-19

    LER MAIS
  • A Economia de Francisco. ‘Urge uma nova narrativa da economia’. A vídeomensagem do Papa Francisco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


17 Julho 2020

"Um regime flexitariano ajudaria prevenir pandemias, lutar contra o aquecimento global e tornar o planeta mais sustentável", escreve Giulia Wegner, pesquisadora socioambiental da Unidade de Pesquisa em Conservação da Vida Selvagem (WildCRU) da Universidade de Oxford, em artigo publicado por openDemocracy e reproduzido por Mr Mondialisation, 14-07-2020. A tradução é de Natália Firmino Amarante e a revisão é de Prof. Dr. Cesar Sanson.

Eis o artigo.

Este ano, assistimos uma sucessão alarmante de diversos desastres ecológicos. Milhões de hectares de floresta viraram fumaça na Amazônia e na Austrália. Um número elevado de cheias submergiram cidades inteiras, assim como seu patrimônio histórico e cultural. Cada vez mais cetáceos, tartarugas e pássaros agonizam depois de ingerir plásticos. E finalmente, a epidemia global de Covid-19 que nos lembra que fazer tudo aquilo que queremos no nosso planeta pode ter consequências mortíferas.

Os últimos 60 anos têm sido caracterizados pela aparição cada vez mais frequente de zoonoses, ou seja, doenças infecciosas transmitidas pelos animais aos seres humanos, tais como o coronavírus. A maior parte dessas zoonoses (cerca de 150 no total) foram transmitidas por animais selvagens (com o contágio que pode ser alimentado pela agricultura industrial) : entre outros, Ebola (1976, África Oriental), HIV (identificado em 1981 nos Estados Unidos), SARS (2003, China) e mais recentemente Covid19 (2020, China).

Estas transmissões são apenas parcialmente devidas ao aquecimento global, que altera as temperaturas e as chuvas e favorece os vetores de vírus, tais como mosquitos, ou que, com o derretimento de geleiras, podem libertar vírus que que se encontram “presos” há milhares de anos. Mas o aumento dessas novas zoonoses deve-se principalmente à maneira como nós, humanos, penetramos cada vez mais nos últimos ecossistemas virgens que restam no planeta. Entramos também em contato com animais selvagens portadores de vírus mortais.

Quando a floresta tropical amazônica é queimada para fazer terra barata para o gado, quando a terra africana é desbravada para extrair madeira e minerais (por exemplo, coltan usado em aparelhos eletrônicos), quando introduzimo-nos em habitats inexplorados para caçar animais exóticos e vender a sua carne, a sua pele, marfim e partes do corpo para fins supostamente medicinais - em todos estes casos, nós humanos entramos em contato com populações animais previamente isoladas que transportam naturalmente centenas de milhares de vírus e bactérias aos quais nunca estivemos expostos.

Estes vírus não são novos, alguns, como o Corona (uma classe de vírus), existem no planeta Terra há mais de 3 milhões de anos. É a nossa interação com eles que é recente, através da globalização e o desenvolvimento das sociedades humanas.

É por isso que a maioria das novas epidemias infecciosas está ligado ao desflorestação, que cria novas paisagens rurais onde os animais selvagens e os humanos entrem contato.

Certas espécies de morcegos e roedores prosperam agora nestes ambientes criados pelo homem. Devido ao seu elevado número e características imunitárias, são espécies "reservadas" que abrigam de maneira assintomática vírus que podem ser letais para os seres humanos. Além disso, muitos vírus utilizam um "portador intermediário" para evoluir e passar da espécie “reserva” para o ser humano.

Por exemplo, um dos vetores do vírus Ébola é a carne mal cozida de animais selvagens que foram infectados pelo consumo de frutas comidas por morcegos portadores do vírus. A epidemia de Nipah, na Malásia, explodiu quando a suinicultura intensiva e as árvores de fruto se estabeleceram na orla da floresta. O vírus foi transmitido de morcegos para porcos, através de frutas contaminadas pela saliva ou pela urina, e de porcos passou para humanos.

Assim, enquanto continuarmos a afundar-nos nos últimos ecossistemas ainda intactos para extrair recursos, novas doenças infecciosas continuarão a emergir, com um potencial letal desconhecido. Como explicou Alanna Shaikh (especialista sistemas de saúde globais), mesmo que todos os países do mundo fossem capazes de desenvolver protocolos eficazes para conter a aparição de novas epidemias - identificando novos vírus logo que estes apareçam, tratando imediatamente as pessoas infectadas, transmitindo toda a informação necessária para que outros países se preparem a tempo para a eventual chegada dos vírus aos seu territórios - mesmo com tais precauções, enquanto continuarmos a abusar do planeta, o contágio massivo de novos vírus será inevitável. Há que aprender lições com isto.

Esta partilha de doenças entre humanos e animais lembra-nos que somos também animais e parte integrante do mundo natural. As barreiras que colocamos entre o meio ambiente e nos não são mais que ilusões. A nossa dependência é total. A única maneira de aliviar os desastres ecológicos cujas consequências começamos a pagar é de aceitar e respeitar esta simples realidade.

As causas do desregulamento de ecossistemas são diversas e variadas, mas todas estão ligadas a super consumação dos recursos naturais. Em particular, o consumo de produtos de origem animal é a causa tanto do risco crescente de pandemias zoonóticas como do aquecimento global. Como todos sabemos hoje - esperemos - o aquecimento global é causado pelas emissões de gases com efeito de estufa relacionadas principalmente com a produção de eletricidade e aquecimento (25%), desflorestação, agricultura e pecuária (24%), produção industrial (21%) e tráfego automóvel (14%).

Os governos tendem a concentrar os esforços de atenuação do aquecimento global nos setores da energia e dos transportes, mas o sistema global de produção alimentar e a produção animal em particular, são essenciais. Os animais (aves, suínos, vacas, caprinos, etc.) são responsáveis pela maioria (72-78%) das emissões de gases com efeito de estufa no setor agroalimentar. Isto deve-se ao fato da exploração pecuária utilizar o máximo dos recursos do planeta (terra, água), à fermentação intestinal dos ruminantes (que produz metano) e às elevadas emissões de gases do seu estrume. A exploração pecuária - que necessita de espaço e alimentos - é também uma das principais razões para a destruição de habitats naturais, o que facilita o contato com populações de animais selvagens.

Uma vez que a expansão da produção de gado e de sua alimentação ocorre principalmente em países tropicais, o risco de novas zoonoses se concentra nas florestas tropicais, caracterizadas por uma elevada biodiversidade de mamíferos e uma elevada desflorestação para dar lugar a novos campos agrícolas e de gado. Além disso, a pecuária intensiva, devido à sua alta densidade e baixa diversidade genética, pode atuar como um amplificador para a transmissão de novos agentes patogênicos.

Existe agora um consenso na comunidade científica de que as emissões de gases com efeito de estufa não podem ser suficientemente mitigadas sem mudanças nutricionais globais a favor de dietas de baixo teor em produtos animais. O Programa Oxford Martin sobre o Futuro dos Alimentos e o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas afirmam que o objetivo de manter o aquecimento global bem abaixo dos 2°C nunca será alcançado a menos que sejam implementadas medidas para o setor agroalimentar mundial, sem uma transição para uma produção agrícola ambientalmente sustentável, uma redução dos resíduos alimentares e a adoção de dietas contendo quantidades limitadas de proteínas animais. Mudanças que se confrontam com os nossos hábitos culturais não sem alguma oposição reacionária, apesar da urgência da situação.

Uma dieta dita flexitariana ou de "saúde global" consiste em grandes quantidades de alimentos de origem vegetal (vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos, sementes, cereais), pequenas quantidades de produtos animais (carne, peixe, ovos e produtos lácteos) e uma pequena quantidade de carne vermelha (a mais poluente). Uma escolha global a favor de um regime flexitariano reduziria as emissões de gases com efeito de estufa no setor agroalimentar em 56% e permitiria alimentar uma população global de 9 bilhões de pessoas até 2050 de uma forma ambientalmente sustentável. É de notar que o nosso consumo de carne é tão astronômico e tão dependente de países produtores como o Brasil que uma relocalização "sustentável" da produção é materialmente impossível.

Um regime flexitariano ajudaria prevenir pandemias, lutar contra o aquecimento global e tornar o planeta mais sustentável

A comissão EAT-Lancet Commission on Food, Planet and Health (2019) tira as mesmas conclusões. A comissão salienta também que a redução do consumo de proteínas animais e alimentos pouco saudáveis, tais como açúcares adicionados e produtos altamente transformados, poderia ajudar a prevenir cerca de 11 milhões de mortes por ano (19-24% das mortes de adultos). O consumo excessivo de produtos de origem animal está entre as causas da obesidade e de doenças crônicas, tais como diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

Assim, para reduzir as emissões de gás e o risco de novas epidemias, é essencial que cada um de nós adote, o mais rápido possível, uma dieta no mínimo flexitariana, comprando alimentos oriundos de produções ecologicamente sustentáveis (como os produtos orgânicos) e deixemos de desperdiçar alimentos.

Em termos de evolução, aquilo que distingue o ser humano de outras espécies não é, como poderíamos pensar, a capacidade de sentir emoções ou de se expressar artisticamente ou ainda, tecnologicamente. Algumas espécies animais partilham conosco a capacidade de sentir medo, de ficar feliz, de sofrer, de ter expectativas, de desenvolver e transmitir conhecimentos às suas crias.

O que nos distingue das outras espécies animais é a capacidade cerebral de poder imaginar algo que ainda não existe e ainda de comunicar esta ideia abstrata à nossa comunidade para estimular ações que a possam tornar concreta. Mas ainda precisamos implementar esta capacidade… Já estamos sofrendo as consequências de nossa inação. Se não agirmos, nossos filhos e nossos netos, comunidades humanas e espécies não-humanas que não tem o privilégio de escolha, sofrerão consequências ainda mais graves.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Covid-19 e clima: duas boas razões para comer menos carne - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV