A ‘carícia’ de João XXIII? “Não deve ser reduzida a um refrão vazio”

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09 Julho 2020

No Eco di Bergamo o bisneto do Pontífice, Emanuele Roncalli destaca o risco de transformar o "discurso da lua" em uma simples anedota cujo significado mais autêntico não é compreendido.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Secolo XIX, 06-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

A "carícia" evocada por João XXIII no famoso "discurso da lua", olhando pela janela de seu gabinete na noite da abertura do Concílio Vaticano II ("Quando regressardes a casa, encontrareis os vossos meninos. Fazei uma carícia às vossas crianças e dizei: ‘esta é a carícia do Papa’"), corre o risco de ser reduzido a "um refrão”, se não mesmo "a alguma vulgar e aberrante paródia", diminuindo todo o discurso, como se fosse uma "simples anedota", sem entender "seu significado mais autêntico". Foi o que destacou o bisneto de Giovanni XXIII, o jornalista Emanuele Roncalli, em um texto "contracorrente" publicado no Eco di Bergamo.

Loris Capovilla, secretário particular do Pontífice de Bergamo, quase havia implorado, nos dias em que foi nomeado cardeal pelo Papa Francisco, para não desvirtuar sua figura com uma retórica aparentemente benevolente, mas na realidade redutiva: "Por favor, não o chamem mais de ‘Papa bom’. Estou lutando contra esse apelido há cinquenta anos", disse Capovilla:" Os jornais na realidade usaram essa palavra para mortificar seu pontificado, que, em vez disso, sabemos, foi muito importante para a Igreja e para o mundo, para o Concílio, para a causa da paz”.

Agora, Emanuele Roncalli volta ao discurso talvez mais famoso desse pontificado para sinalizar um risco semelhante: “Um ranking das mais belas frases históricas proferidas pelos pontífices vê em primeiro lugar aquela de João XXIII, de 11 de outubro de 1962, o dia de abertura do Concílio, quando O Papa Roncalli, exausto, pressionado pelo secretário Dom Loris Capovilla, apareceu à janela para abençoar o povo de Roma e, de improviso, fez o famoso "discurso da lua" com a tenra despedida final: ‘façam uma carícia às crianças de vocês", escreve Emanuele Roncalli. “Ele informou a Dom Loris que havia pedido inspiração a Santa Teresa de Lisieux, ‘Santa Teresinha’, de quem era devoto, e que deixou essa frase em seus escritos: ‘Só há uma coisa a fazer aqui: lançar para Jesus as flores dos pequenos sacrifícios, chegar a ele com as carícias’. Então a carícia, era muito mais do que uma palavra de que ele gostava. Nas Cartas para a família, ele nunca se esquecia de um pensamento e de uma carícia para os sobrinhos. A visita aos escritórios da Congregação presidida por Agagianian lembrava-lhe de "uma ala do Oriente, do meu Oriente, acariciando as lembranças mais queridas da minha vida". E nas anotações de seus diários pessoais, ele observava: "Os salmos, carícia do espírito".

Pois bem, nessa palavra dita pelo Papa, há algo mais consolador e suave. Aquela carícia não é mais apenas o simples gesto de uma mãe ou de um pai que transmite ao filho a pedido do papa. Com a carícia, o pontífice quer dar bondade, serenidade, doçura e, acima de tudo, almejar a paz: a paz de espírito, a paz da família. Não é por acaso que nos escritos de Roncalli lemos ainda: "O exercício da bondade pastoral e paterna pastor et pater deve resumir todo o ideal da minha vida". Também o Papa Francisco, como outros predecessores, citou frequentemente Roncalli e sua carícia.

Do mesmo modo - continua o sobrinho bisneto de João XXIII - essa palavra entrou nas manchetes e, infelizmente, em alguma vulgar e aberrante paródia. Às vezes, infelizmente, se nota um certo abuso em seu uso, como se fosse um refrão. E assim também o discurso de 11 de outubro de 1962 corre o risco de terminar nisso, como uma simples anedota, se você não entender seu significado mais autêntico. A imagem idílica de uma lua esplêndida e aquela mais doce das carícias nas crianças não podem obscurecer outras palavras proferidas no mesmo discurso que soam assim: “Minha pessoa não conta por nada, é um irmão que vos fala (...) Continuemos, pois, a amar-nos, a querer-nos bem, a querer-nos bem; olhando-nos mutuamente no encontro, recolhendo aquilo que nos une, deixando de lado qualquer coisa que nos possa criar dificuldade". Talvez muitos - conclui Emanuele Roncalli - "já o haviam esquecido".

 

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