Cinco anos com o Papa Francisco e esse discurso sobre o “Mistério da Lua”

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19 Março 2018

“Pensando no próximo Papa: um homem que, mediante a contemplação de Jesus Cristo e a adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si para ir às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da ‘doce e reconfortante alegria de evangelizar’”. Antes de entrar no Conclave que o elegeu bispo de Roma, Jorge Mario Bergoglio esboçou com estas poucas, mas sugestivas, palavras, o perfil do homem que ele esperava ver sentado na cadeira de Pedro, pelo bem da Igreja e do mundo inteiro.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 14-03-2018. A tradução é de André Langer.

Completados os cinco anos do Pontificado de Bergoglio, no torvelinho de balanços, avaliações e previsões que podem ser encontrados em todos os lugares, o breve discurso pronunciado antes do Conclave pelo futuro Papa oferece as coordenadas objetivas para avaliar como se comportou até agora. E sobre como poderá ser no futuro.

O discurso do “Mysterium lunae”

No bilhete manuscrito que Bergoglio leu aos seus colegas cardeais, não havia nenhum projeto de pontificado. Não se falava sobre a cúria romana, sobre a pederastia do clero ou sobre o IOR. Não continha a agenda dos “desafios” a serem enfrentados. Em alguns pontos, expressava-se simplesmente um olhar sobre a Igreja, que reconhecia em termos elementares seu ponto de origem, sua natureza e como deveria agir.

Bergoglio disse que a Igreja “é chamada a sair de si mesma”, não por esforço ou projeto próprios, mas contemplando e seguindo Cristo. Disse que somente Cristo pode conduzir a Igreja a sair de si mesma, e que o próprio Cristo “bate de dentro para que o deixemos sair”, enquanto “a Igreja auto-referencial procura manter Cristo dentro de si e não deixá-lo sair”. Ele identificou a raiz das patologias eclesiais na auto-referencialidade, na presunção de autossuficiência da Igreja que leva ao “mundanismo espiritual”, que definiu como “viver para glorificar uns aos outros”. Essa “forma de narcisismo teológico”, disse o futuro Papa, “faz com que a Igreja, sem perceber, acredite ter luz própria” e “deixe de ser o ‘Mysterium Lunae’” de que falavam os Padres gregos e latinos do primeiro século cristão. Para eles, era evidente que a Igreja, assim como a lua, apenas refletia a luz quando seu corpo opaco é iluminado pela graça luminosa de Cristo.

No breve discurso dirigido ao Conclave, Bergoglio sugeriu que, somente contemplando e confessando o ‘Mysterium Lunae’ da Igreja, sua não-autossuficiência, sua permanente dependência da graça, seria possível incrementar “as possíveis mudanças e reformas que devem ser realizadas para a salvação das almas”. Ele não prefigurou nenhuma engenharia de aparatos. Nenhum plano para “mudar” a Igreja. Fez alusão apenas a essas poucas mudanças necessárias e interessantes, isto é, aquelas que removem pesos e obstáculos para a obra da graça no dinamismo histórico real da Igreja. Mudanças necessárias para facilitar a comunicação da salvação que Cristo trouxe.

O alcance do Evangelho e as autocongestões eclesiais

A primeira pregação e os primeiros gestos públicos do Papa Bergoglio exibiram diante do povo de Deus o mesmo olhar sobre a Igreja e sobre o mundo que o Pontífice tinha expressado no breve discurso ao Conclave. “Nós podemos caminhar o quanto queremos, nós podemos construir tantas coisas”, disse o Papa Francisco um dia após a sua eleição pontifícia, na homilia da missa com os cardeais, “mas, se não confessamos Jesus Cristo, as coisas não funcionam. Nos tornaremos uma ONG piedosa, mas não a Igreja, esposa do Senhor”.

Nesses primeiros passos do pontificado, difundiu-se a grata percepção de um novo alcance evangélico que abraçava muitas esperanças e expectativas que foram amadurecendo no corpo eclesial durante as décadas anteriores. No final do pontificado de João Paulo II, o caráter maratonista desse imenso papado continuava a reverberar naqueles que identificavam (e ainda identificam) o horizonte crucial da missão cristã com a “mobilização cultural” com vistas a frear as tendências espirituais da modernidade. Mas, precisamente, a grandeza do Pontificado combativo de Wojtyla, o protagonismo que impelia a identificar todo o corpo eclesial como um produto da liderança papal, deixou a Igreja em estado de desorientação, de autocongestão.

Os anos do Papa Ratzinger terminaram com as difíceis lutas entre grupos que cresceram e se fortaleceram à sombra do horizonte comum “ratzingeriano”, revelado pelos escândalos do “Vatileaks”. Para alguns deles, justamente o Pontificado ratzingeriano deveria ter servido de trampolim para um grande projeto cultural-ideológico. Uma “revolução papal”, concebida como “vastos programas”, para voltar a promover o protagonismo social e cultural da Igreja, começando pelo Ocidente, em claro antagonismo com as supostas tendências “secularizantes” do catolicismo pós-conciliar. Mas depois, precisamente o manso Papa teólogo, com o passar do tempo, escolheu uma maneira de governar que alguns perspicazes e livres teólogos pós-conciliares poderiam ter definido como “profética”.

Como disse o sociólogo católico Giuseppe De Rita: “Bento XVI escreve livros e passa a ideia de ter decidido não governar”. Enquanto o alto clero estava se mordendo e devorando (o próprio Papa disse isso certa vez aos seminaristas de Roma), ele não se ocupava com isso. Ele falava de outras coisas. Em suas comoventes catequeses, o Papa “antidivo” falava de São Francisco, de Santa Teresa de Lisieux, de Santa Josefina Bakhita, com palavras que eram uma fonte de consolo para milhões e milhões de pobres almas. Sem dizê-lo, ele sugeria a todos que a Igreja é dirigida pelo próprio Senhor, e isso lhe permite atravessar inclusive as situações provocadas pelos desastres dos homens de Igreja.

Mas sua aparente indecisão decepcionava principalmente os teóricos do “Papa condottiero”, esse que deveria ter homologado os organogramas eclesiais à ideologia “muscular” das batalhas culturais. E, de fato, os primeiros que se referiram à possível renúncia do Papa Bento XVI foram meios de comunicação e personagens “ultra-ratzingerianos”, que já estavam prontos para liquidar como manifestação de fraqueza os tons “penitenciais” que Ratzinger assumiu diante dos escândalos da pederastia no clero. O papa bávaro, usado primeiro como bandeira identitária, perdia força, de acordo com certos ex-seguidores, para os quais teria sido oportuno começar a pensar em alguém mais “enérgico”, em vista do Conclave que necessariamente viria pela frente.

Estratagemas baratos

Em vez disso, apareceu o Papa Francisco, fisgado “quase do fim do mundo”. Imediatamente, com suas palavras e gestos, tomou o caminho que parecia ser o mais apropriado para o presente, pensando em uma Igreja não recolhida em si mesma, pronta para seguir Cristo pelas estradas do mundo: tornar as estruturas mais leves, concentrar o olhar no essencial que nutre o dia-a-dia da vida cristã – a oração, os sacramentos, a predileção pelos pobres, as obras de caridade como sinal da misericórdia de Deus para todos os homens. Talvez, diminuindo documentos, pronunciamentos e essas que Ratzinger chamava de “estruturas permanentes de celebração”. Porque o papa não é o único administrador de uma organização cultural de assistência. Mas simplesmente o guardião da fé dos Apóstolos.

O povo de Deus reconheceu imediatamente o seu pastor e alegrou-se no ato. A “conversão pastoral” sugerida pelo novo Bispo de Roma, com seu alcance missionário, repetia constantemente que Cristo faz a Igreja e a vivifica permanentemente. Também era necessário reconhecer a própria pobreza, esse “deixar que Cristo”, através do Espírito, liberte da pretensão de começar sozinho, das suas próprias ideias, dos próprios cálculos.

Mas o caminho que começou com o “Mysterium Lunae” era tão vertiginoso para os grupos, os grupelhos e os partidos clericais de diferentes naturezas que, no grande “jogo de papel” da estrutura eclesiástica, mantiveram-se ocupados, pensando em novas posições e comissões, imaginando novas “competências à altura dos tempos”, para dividi-las entre clérigos e leigos “profissionalizados”.

Para acalmar a vertigem diante de uma possível e nova aventura, tão alegremente removida de qualquer antiga e nova nomenclatura clerical, havia estratagemas baratos, com efeito quase garantido: concentrar os refletores e também os humores e as batalhas nele, em sua pessoa e na figura do Papa que “ousou” chamar-se Francisco. Esconder o horizonte sugerido por suas palavras e gestos, sempre confiando nesse antigo provérbio chinês: “quando o dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo”.

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