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26 Junho 2020

“Se a tese de Jung fosse aceita, cuidar-se interiormente constituiria uma obrigação ética, pois de algum modo impacta na própria pessoa e nos outros. A única maneira de responder a isso é lembrar que existe uma responsabilidade coletiva em cada indivíduo, pois é lá, no indivíduo, onde se ‘padece’ e se ‘faz’ a época”, escreve Bernardo Nante, decano de Filosofia, Literatura e Estudos Orientais da Universidade del Salvador - USAL, em artigo publicado por La Nación, 23-06-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O psicólogo suíço C. G. Jung (1875-1961) destacou que nossa civilização está em “transição”, ou seja, sujeita a transformações rápidas, incertas e críticas. Seu estudo da psique coletiva, presente em cada indivíduo, permitiu-lhe afirmar que tanto a raiz de muitos de nossos males como o seu “remédio” estão na profundidade anímica. Poderia sintetizar-se o antes mencionado com uma citação sugestiva de F. Hölderlin: “Mas onde está o perigo, também cresce o salvador”.

A presença do mal não assumido na alma, mas projetado sobre o próximo, tem consequências muito graves em nosso tempo, pois o ser humano, por um lado, é espiritualmente desamparado e, por outro, conta com um enorme poder de destruição. Acreditamos que basta confiar na boa vontade e cumprir certas regras morais - essenciais - para evitar o mal. No entanto, em todo “moralista” - que evita suas contradições internas - está oculta uma sombra que pode adquirir proporções impensadas.

O próprio Jung tinha uma alta consideração por São Paulo, que não deixava de se considerar o primeiro pecador. Jung insistia em que se trata de assumir a sombra pessoal e coletiva, ou seja, aqueles conteúdos incompatíveis com os valores do eu consciente que estão presentes em nós, perturbam nossos sonhos e alteram nossa emotividade. “Assumir” significa reconhecer e discernir os impulsos, as imagens, as ideias e até os sonhos que me contradizem, pois de alguma forma influenciam, mesmo que de maneira sutil, minha disposição para com os outros.

Para Jung, os neuróticos são torturadores compulsivos que não querem sofrer sua própria inferioridade, ou seja, não aceitam esse “perigo interno” que, não obstante, pode “salvar”. Observe que a mensagem é tão severa como esperançosa, porque, em última análise, trata-se de aceitar que nossa responsabilidade coletiva não se limita às nossas boas ações, mas requer autocuidado. Lembremos que, com seus jejuns, Gandhi não apenas protestava contra a injustiça e a violência externas, mas também observava e tentava trabalhar a presença desses males externos em seu próprio interior.

Em uma conferência em Viena, em 1932, na qual Jung já temia uma nova guerra mundial, afirmou: “As gigantescas catástrofes que nos ameaçam não são processos elementares de índole física ou biológica, mas eventos psíquicos”. Uma pandemia não é o mesmo que uma guerra, mas pode-se dizer que, diante de qualquer mal coletivo, seja de origem natural (um terremoto) ou de origem moral (uma guerra), é essencial entender que a resposta mais responsável exige, além das ações pertinentes, de um autocuidado.

É por isso que o “autocuidado”, ou seja, as práticas psíquico-espirituais - meditação, yoga, exercícios espirituais de Santo Inácio, etc., propostas por todas as tradições espirituais, embora com múltiplas variantes, se tornariam uma parte fundamental da formação cultural.

Pierre Hadot demonstrou que para algumas correntes da filosofia antiga, um verdadeiro filósofo deve se exercitar espiritualmente. Jung, por sua vez, tentou mostrar que a importância do autocuidado também cabe ao não crente e, por isso, propôs um trabalho peculiar sobre os sonhos e a imaginação ativa.

Se a tese de Jung fosse aceita, cuidar-se interiormente constituiria uma obrigação ética, pois de algum modo impacta na própria pessoa e nos outros. A única maneira de responder a isso é lembrar que existe uma responsabilidade coletiva em cada indivíduo, pois é lá, no indivíduo, onde se “padece” e se “faz” a época. “Quando contemplamos a história da humanidade”, escreveu em 1933, “não vemos a não ser a superfície dos acontecimentos (...). Em nossa vida mais privada e subjetiva, não apenas padecemos uma época, mas também a fazemos. Nossa época somos nós!”.

 

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