Liturgistas austríacos argumentam a favor da “bênção” dos casais homoafetivos

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18 Junho 2020

Setor litúrgico dos bispos encomendou um livro sobre as uniões homoafetivas.

Um livro encomendado pelo setor para assuntos litúrgicos dos bispos católicos austríacos, que defende a bênção sacramental de casais homoafetivos, despertou um interesse considerável dentro e fora dos países de língua alemã.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 17-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

E esta semana ele recebeu ainda mais atenção depois que o coordenador do setor de liturgia, Dom Franz Lackner, OFM, da Arquidiocese de Salzburgo, elegeu-se presidente da Conferência Episcopal Austríaca.

O novo livro, disponível apenas em alemão, chama-se “Benediktion von gleichgeschlechtlichen Partnerschaften”, ou “A bênção das parcerias entre pessoas do mesmo sexo”, em tradução literal.

Escrito em parceria pelo Pe. Ewald Volgger, OT, e por Florian Wegscheider, respectivamente professor e professor assistente de liturgia e teologia sacramental na Universidade Católica de Linz, instituição privada, a obra explora um território desconhecido.

Os casais homoafetivos podem buscar o compromisso batismal de amar um ao outro?

A primeira metade do texto trata dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo na Áustria a partir de um ponto de vista ético e bíblico. A segunda metade traz sugestões litúrgicas para se abençoar as uniões de parceiros gays.

Volgger, padre da Ordem da Alemanha (ou Cavaleiros Teutônicos), disse que a sua dúvida principal é se os casais homoafetivos que se amam podem perseguir a vocação batismal por uma vida em união e receber a bênção oficial da Igreja.

“A dimensão pastoral reside no reconhecimento básico da Igreja quanto a esse modo de vida”, explicou em entrevista publicada em 5 de junho no sítio katholisch.de, endereço eletrônico oficial da Conferência Episcopal da Alemanha.

De acordo com ele, a Igreja poderia mostrar o seu apreço por essa parceria, que expressa simbolicamente o amor de Deus pelos seres humanos, oferecendo uma bênção oficial, isto é, uma bênção.

“Muita decepção e muito sofrimento seriam evitados e a discriminação acabaria”, disse o padre de 58 anos.

Bênção: mais que uma simples benção

“Deixaria claro para aos parceiros envolvidos que eles poderiam se apresentar publicamente como pessoas abençoadas pela Igreja. Isso é mais do que uma simples bênção. Como um casamento, uma bênção é oficialmente registrada no registro batismal”, explicou ele.

Perguntado por que razão o livro não percorre todo o caminho na defesa do Sacramento do Matrimônio a casais homoafetivos, Volgger disse ter chegado à conclusão de que o melhor caminho a seguir é avançar um passo de cada vez e com certa restrição.

“O ponto crucial do reconhecimento, é claro, reside em admitir que a intimidade sexual é um bem humano precioso”, ressaltou.

É por isso que se pede uma bênção, um ato oficial de bênção conhecido como “benedicional”. Em teologia litúrgica, segundo o religioso, benedicional é algo muito precioso.

Será, no entanto, o casamento homoafetivo o objetivo de longo prazo?

“Se o ensino da Igreja respeita um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo como um desdobramento comum de nossa vocação batismal, ele expressa que Deus está presente e trabalha em Jesus Cristo. Isto constitui o caráter sacramental do relacionamento”, disse ele.

“A designação não é o objetivo principal. O essencial é o reconhecimento da vida compartilhada de dois parceiros do mesmo sexo que Deus reuniu. A dimensão teológica, do ponto de vista da teologia da graça, não recebeu uma consideração adequada até agora”, completou.

Os bispos pedem um debate sobre as uniões homoafetivas

O entrevistador perguntou sobre aqueles que preferem uma simples celebração de bênção, que não seja sacramental, o que não exigiria nenhuma alteração no ensino católico. Por outro lado, essa sugestão parece desnecessariamente complicar as coisas.

Volgger disse que uma celebração eclesial precisaria obedecer ao ensino da Igreja. Insistiu que a Igreja oficial deve discutir abertamente essa questão e explicar por que uma tal bênção não seria possível.

O padre-professor disse que especialistas de diferentes disciplinas de teologia e de ciências humanas encontraram uma resposta positiva e têm sustentado por que é possível que a Igreja reconheça esse modo de vida. Além disso, ressaltou que vários bispos já pediram que as perguntas sobre uniões homoafetivas sejam respondidas.

“É por isso que o Magisterium tem o dever de pensar sobre as consequências que devem ser tiradas”, enfatizou Volgger.

O Catecismo da Igreja Católica, que afirma que os atos homossexuais são “intrinsecamente desordenados” e “sob nenhuma circunstância devem ser aprovados”, opõe-se diametralmente à proposta de Volgger.

Assim, será que ele acredita ser possível que a Igreja acabe virando 180 graus nesse assunto, especialmente porque um consenso católico mundial parece estar longe?

O debate não leva ao cisma

“Pode haver alguma verdade nessas dúvidas”, admitiu.

“Mas, ao mesmo tempo, um número significativo de bispos tem dito aos padres envolvidos e comprometidos que é essencial fazer progressos honestos em relação a esse assunto”, disse ele.

Volgger lembrou que Dom Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, disse recentemente que já esperava haver coalizões nas dioceses que queriam reconhecer as uniões homoafetivas e os divorciados recasados.

Entre os vários comentários recebidos após a publicação do livro, o religioso disse muitos deles aprovaram a sua iniciativa e enfatizaram a importância de discutir e avançar nessa questão com o objetivo de alterar a legislação católica.

“Mesmo que a redação do Catecismo ainda seja muito apodítica, isso não significa que não possa ser revisada”, disse o padre.

“Com Amoris Laetitia, o Papa Francisco gerou um novo impulso e novas ideias sobre o assunto, que foram elencados por estudos bíblicos, pela teologia moral e ética”, ressaltou.

“Mas, claro, percebo que ainda temos um longo caminho a percorrer, devido à não simultaneidade nos diferentes países, na Igreja e nos campos ecumênico e inter-religioso. Mas um caminho significa que queremos prosseguir e que temos um objetivo a alcançar”, disse Volgger, que afirmou ainda que não teme nenhum cisma caso a questão homossexual seja levada adiante.

“Quem usa argumentos como o medo de haver um cisma para impedir essa discussão, também quer impedir debates objetivos”, acrescentou.

“Aqueles que nos ameaçam com um cisma da Igreja são convidados a permitir a discussão e o diálogo. Isso seria uma expressão de respeito e prudência na luta por decisões valiosas”, afirmou.

Afinal, disse, a missão básica da mensagem evangélica é procurar trabalhar uns com os outros e entre si, e isso inclui parcerias.

Volgger lembrou e sublinhou que os homossexuais têm o mesmo direito a uma união responsável, assim como os heterossexuais.

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