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17 Junho 2020

"A necessidade crucial é que esse movimento recém-nascido, inspirado pela morte de George Floyd, evite se tornar absolutista e revolucionário, mas se torne verdadeiramente "fruto do pacto". Ele deve proteger as conquistas obtidas para o indivíduo, enquanto abre novos caminhos para o crescimento humano por meio de relações econômicas e sociais que incentivam todos a participar como membros da comunidade do pacto. O pacto ideal nos ensina que a relação entre o indivíduo e o coletivo não é um jogo de soma zero", escreve Perry Huesmann, pastor da Igreja Evangélica Reformada de Finale Ligure, em artigo publicado por Reforma – semanal das igrejas evangélicas batistas metodistas e valdenses, 16-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O racismo nos EUA nos chama a buscar uma forma mais elevada de justiça: a ideia do pacto foi desbancada por aquela do contrato. Sou um estadunidense engajado. Amo o meu país e o que ele representa nos seus momentos mais brilhantes e nas incríveis oportunidades que oferece a milhões de pessoas. Mas olho com preocupação para o fato de os EUA enfrentarem muitos desafios difíceis simultaneamente. Os desafios sanitários, econômicos, sociais e políticos convergem para criar um momento de escolha. Mas exatamente a escolha é colocada ente o quê? Entre o mesmo antigo contrato social quebrado ou uma versão reformada dele. O contrato social estadunidense estava baseado principalmente na ideia de Locke de propriedade privada e sobre a necessidade de o governo protegê-lo.

Portanto, o contrato social estadunidense foi mais econômico que social. Funcionou muito bem para muitos, mas não para todos. O assassinato brutal de George Floyd levou milhões de pessoas a considerar o quanto esteja quebrado o contrato social.

O cientista político russo-americano de Harvard Louis Hartz defendia na década de 1950 que as questões sociais e legais estadunidenses eram entendidas apenas através das lentes do indivíduo. Mas o que muitos estadunidenses não sabem é que o contrato social não era o único modelo de relações sociais que existia na fundação do país. Todas as treze colônias originárias se reportavam à ideia de um pacto bíblico em suas constituições fundadoras.

Essa ideia fora trazida ao Novo Mundo pelos puritanos, imersos no pensamento e na língua judaica.

O pacto é uma força vinculante mais forte que o contrato social de Locke. Vai além do simples acordo econômico de uma sociedade de indivíduos e da natureza egoísta de qualquer contrato, para falar sobre realidades humanas maiores: nossa igualdade humana diante de Deus, nossas obrigações mútuas como concidadãos e a possibilidade (esperançosa) de viver em unidade com a diversidade criada por Deus. Vestígios do pacto ideal ainda são visíveis nos símbolos estadunidenses. O sistema do governo federal é baseado em um pacto, e o lema nacional, E pluribus unum (de muitos, uno), é uma noção que tem muito a ver com o pacto. Mas na história dos EUA, o lado econômico venceu. O pacto foi lentamente cancelado do contrato.

E aquele contrato está agora rompido. Como chegamos aqui? Os negros africanos foram trazidos para os Estados Unidos como escravos para sustentar a visão econômica de Locke do contrato social. Foram escravizados para fins econômicos da classe dominante. Os Estados Unidos travaram uma sangrenta guerra civil depois que líderes do abolicionismo da escravidão dos negros, os pensadores do Iluminismo e muitas denominações protestantes chamaram suas consciências para a obrigação moral de colocar um fim à escravidão em nível nacional e garantir a igualdade para todos, e então o Presidente Lincoln começou a sanar a nação com uma nova visão nacional enraizada no pacto. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos e do mundo, "o outro" ganhou pleno reconhecimento constitucional.

Os Estados Unidos ainda estão estudando as consequências dessa transição do contrato para o pacto. Os Estados Unidos fizeram progressos por meio de reformas, mas não tendo um passado feudal como a Europa, falta-lhes uma verdadeira tradição revolucionária.

No espírito revolucionário, Michael Moore aplaudiu ao incêndio do 3º distrito policial de Minneapolis na semana passada, mas seus documentários nunca trouxeram significativas reformas estruturais porque o público estadunidense permanece no centro, enraizado na reforma e não na revolução.

Essas reformas progressivas são, por exemplo, as garantias sociais garantidas após a Grande Depressão e o Movimento pelos Direitos Civis liderado por Martin Luther King. Mas o vínculo que une os EUA continua sendo o bem-estar econômico do indivíduo e da sociedade estadunidenses, ora em forma predatória, muito menos do que o bem-estar humano em todas as suas esferas, especialmente para as minorias.

O absolutismo atenuou a busca contínua pelo ideal do pacto na sociedade estadunidense. Essa tem sido uma característica crescente da direita política dos EUA nos últimos 40 anos, mas não estava presente no Partido Republicano antes de Reagan. O absolutismo chegou a caracterizar uma geração de eleitores conservadores, muitos dos quais são evangélicos e católicos, politicamente motivados por uma única questão: o aborto. O restabelecimento dos laços diplomáticos entre os Estados Unidos e a Santa Sé sob Reagan e o papa João Paulo II contribuiu para abrir as portas a essa crescente influência antipacto, na qual a verdade é definida pela absoluta certeza caracterizada por pureza e exclusividade.

O ensinamento moral e a doutrina social da Igreja Católica Romana levaram a direita a considerar politicamente o compromisso como uma palavra suja, a consentir socialmente uma crescente segregação e a sustentar economicamente uma maior disparidade. Quando um partido político é caracterizado pelo pensamento absolutista, geralmente gera um exato oposto, necessariamente definido como absoluto, a fim de fornecer uma oposição adequada. Isso ajuda a explicar onde os EUA estão hoje: política, econômica e socialmente trancados com pouca esperança de compromisso.

A necessidade crucial é que esse movimento recém-nascido, inspirado pela morte de George Floyd, evite se tornar absolutista e revolucionário, mas se torne verdadeiramente "fruto do pacto". Ele deve proteger as conquistas obtidas para o indivíduo, enquanto abre novos caminhos para o crescimento humano por meio de relações econômicas e sociais que incentivam todos a participar como membros da comunidade do pacto. O pacto ideal nos ensina que a relação entre o indivíduo e o coletivo não é um jogo de soma zero.

Ambos são necessários na busca comum por justiça. Todos deveriam se sentar à mesa. Por fim, esse jovem movimento deve enfatizar a força do pluralismo sem cair em um tribalismo enraizado nas políticas identitárias.

Ao mesmo tempo que estou abalado com os eventos atuais nos Estados Unidos, estou muito confiante. A igreja cristã acaba de celebrar o período de Pentecostes, o momento em que o Espírito de Deus soprou novamente na ordem criada para renovar o pacto de Deus com Seu povo e favorecer o nascimento e crescimento de uma nova humanidade enraizada em Jesus e caracterizado pela diversidade e unidade, bem como do shalom através da justiça. Portanto, Dum spiro, espero; dum spiramus speramus. Enquanto respiro, espero; enquanto respiramos, esperamos.

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