Os limites do Papa Francisco

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26 Mai 2020

"Parece-me que há muito a ser feito para ajudar o papa de parte de um laicato que, embora adulto, voltou a receber passivamente a hóstia como uma criança. A "igreja em saída" é minoritária: seriam necessários paroquianos corajosos para colocar as paróquias nas ruas, a menos que se espere que seja o pároco a sair".

O comentário é de Giancarla Codrignani, escritora e jornalista italiana, em artigo publicado por Cerco solo di capire, 21-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A oposição ao Papa Francisco agora é absolutamente evidente e até a mídia abandonou sua tradicional reserva sobre os fatos internos da Cúria Romana e as preocupações sanitárias não ofuscaram o trabalho, já nem mais escondido, de desacreditar o Papa Francisco. A imagem da veste branca no deserto da Praça São Pedro, em uma noite escura e úmida, permaneceu impressa como um símbolo impressionante de nossa infeliz precariedade. Mas também é legível como um sinal da solidão de um papa em sua igreja, necessitada de unidade, mas dividida de acordo com interpretações de pertencimento cristão, não mais limitados às escolas teológicas, mas confiados aos crentes na aplicação do mandato de um Concílio evidentemente ainda incômodo mesmo que garantido à presença do Espírito.


Foto: Vatican News

A inversão hierárquica da hierarquia para o povo de Deus, validada pela autonomia reconhecida ao laicato, investiu e dividiu uma hierarquia amedrontada pela perda do valor sagrado do dogma e determinada a manter o poder e o controle sobre a cristandade. A decisão de João XXIII de dar o anúncio do Vaticano II primeiro à imprensa e não à cúria ainda se mostra reveladora de sua capacidade política: Paulo VI o guiou para a definição, mas os opositores depois ganharam o jogo sobre a liberdade de aprender a ler melhor o Evangelho à luz da modernidade. De fato, o povo de Deus - como a sociedade civil - católico, "naturalmente" plural, que permaneceu ignorante no aprofundamento dos valores, foi entregue sem crítica a Camillo Ruini e a qualquer outro pregador com o rosário na mão.

De acordo com o número de likes nas mídias sociais em um hipotético referendo interno, não se sabe se os católicos "gostariam" mais de Wojtyla ou de Bergoglio. Independentemente do fato de o papado precisar se orientar para a eleição de uma pessoa que não deve tanto "agradar", mas ser seguida pela qualidade do magistério, talvez no Vaticano a surpresa da homenagem prestada por Francisco a Wojtyla na celebração pelo centenário com o convite aos pobres de Roma para se sentarem nos lugares de honra antes que os cardeais e os diplomatas, mais uma vez deve ter deixado o pessoal da cúria desorientado.

Até Sergio Paronetto, presidente do Centro de Estudos da Pax Christi italiana, denuncia a subestimação da "galáxia muito variada contendo posições iniciais muitas vezes opostas, mas convergentes para um único objetivo: bloquear o papa, livrar-se dele, desacreditá-lo e, em perspectiva, operar para que não seja eleito um Francisco II". Mesmo a história ensina que os poderes fortes (e reacionários), como nas eleições de 1948 inventaram o anticomunismo europeu, depois tiveram medo do Concílio e hoje se opõem a Francisco, "que pede desenvolvimento sustentável e justiça social (causando) incômodo a quem está interessado apenas no dinheiro", de acordo com as palavras do cardeal Maradiaga (República 22.10.2019).

Algumas personalidades, embora sejam a favor de Francisco, o consideram derrotado, expressando frequentemente sua decepção pelas reformas que não aconteceram. Certamente é verdade que ele não aplicou a tesoura corretiva no "Novo" Catecismo de João Paulo II ou no código do direito canônico; nem, como mulher, eu posso certamente me alegrar com os esvaziamentos que se seguem às suas declarações encorajadoras e que nem mesmo as superioras das Ordens religiosas conseguem bloquear. No entanto, não creio que uma atenção realista à política da sempre poderosa cúria romana encontre em Francisco um papa "incerto": o "felizmente reinante" deve se opor às falsas certezas, mesmo doutrinárias, que o contestam a ponto de acusá-lo de heresia.

Um dominicano que eu respeito, Timothy Radcliffe o define como um "pastor que procura". Se ele incentiva a igreja para a saída e condena o pecado eclesiástico do clericalismo, na metáfora da extrema solidão na praça vazia não se viam as sombras suspeitas, mas pairava a ameaça de um desafio (que não deveria absolutamente ser aceito) para dividir a igreja. É hora, de fato, de pensar no futuro e salvar uma igreja destinada a se conformar seriamente cristã. Por outro lado, se a igreja olhasse para trás sem tornar irreversíveis os conteúdos do Vaticano II - hoje quase desconhecidos já que a turma dos atuais sexagenários frequentavam a escola primária quando estava sendo celebrado - percepção dos sinais dos tempos, seria um fracasso, porque, enquanto a geração de cristãos críticos tinha sido aluna dos profetas do Concílio - Chenu, Haering, Congar, Rahner, Schillebeeckx ... - e tinha uma consciência clara dos sinais dos tempos, um amanhã, ainda que na presença de espíritos grandes e corajosos, não haveria mais católicos comprometidos: para os jovens (nossos filhos, netos) a religião talvez continue sendo um problema, mas não desperta interesse e, mesmo na sociedade civil percebem os valores democráticos obscurecidos por nacionalismos e violências.

Por tudo isso, parece-me que há muito a ser feito para ajudar o papa de parte de um laicato que, embora adulto, voltou a receber passivamente a hóstia como uma criança. A "igreja em saída" é minoritária: seriam necessários paroquianos corajosos para colocar as paróquias nas ruas, a menos que se espere que seja o pároco a sair.

Massimo Faggioli, com quem quase sempre concordo (e que leciona há anos na Faculdade jesuíta dos EUA), gostaria que a contribuição de Francisco para a renovação fosse mais forte e decisiva: eu gostaria de sugerir que ele enviasse convites aos representantes da Conferência Episcopal americana, que foi o poder de fogo contra o Concílio e hoje está posicionada contra Francisco. O Pentecostes acontece em 31 de maio. A descida do Espírito Santo aconteceu cinquenta dias após a ressurreição, algo que, dito assim, não significa muito, se não nos lembrarmos dos seguidores de Jesus que estavam fechados em casa por medo de serem presos.

O evento soa o alarme para os atemorizados, que entenderão, enfrentarão o martírio e só assim a igreja terá história. Os sacrifícios de hoje que nos dizem respeito são de outro tipo: não sabemos quantos assistirão ao compartilhamento distanciado de comunidade em que talvez alguém tenha desaparecido, mesmo que tenha parecido certo voltar a celebrar após a pouco cordial mensagem ao governo italiano orientado a manter a proibição.

O sacrifício do jejum eucarístico "para não contagiar o próximo" não teria sido diferente daquele imposto ao avô que não pode abraçar seus netos. No entanto, o Pentecostes, se nos perguntarmos sobre o seu significado, nos diz que a intenção inovadora proposta pelo papa que veio do fim do mundo - necessária, na minha opinião, depois dos 27 anos de pontificado de Wojtyla e dos 7 do papa Bento - aguarda a força das nossas mãos.

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