"Jesus: a história de um vivente". Obra fundamental de Schillebeeckx trouxe um Jesus vivo

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07 Janeiro 2017

"Não obstante, apesar de todas as críticas recebidas (juntamente com os elogios), o livro permaneceu sendo simbólico para mim, juntamente – como diria Schillebeeckx – com a 'narrativa' de minha vida. Não posso resumir aqui todos os finos detalhes desta tese densamente sustentada. Mas duas coisas permanecem, para mim, importantes: o livro trouxe o Jesus vivo para mim, e me presenteou com uma hermenêutica viva", escreve Ormond Rush, padre da diocese de Townsville, Austrália, e professor na Universidade Católica Australiana, de Brisbane, ao comentar a importante obra Jesus: a história de um vivente, de Edward Schillebeeckx, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Jesus: An Experiment in Christology (“Jesus: a história de um vivente”, publicado no Brasil pela Paulus, 2008, 743p.)
De Edward Schillebeeckx
Seabury Press, 1979

As Escrituras eram a minha disciplina favorita no seminário. No final da década de 1960 e início da década seguinte, as palestras que assistíamos eram todas sobre o método histórico. Eu tinha um interesse particular naquilo que estava na moda, a chamada “busca pelo Jesus histórico”. Sem dúvida, fui hermeneuticamente ingênuo quanto aos limites do método histórico-crítico e fiquei claramente otimista demais quanto a ser capaz de voltar com sucesso para dentro daquele “mundo por detrás do texto”.

A perspectiva na época, porém, era animadora. Jesus me fascinava. Como ele era? Era uma busca espiritual tanto quanto intelectual. Também durante aqueles anos no seminário, alguns de nós fazíamos estudos extras na Universidade de Queensland, instituição local. Aí fiz um curso de estudos bíblicos em 1971. Lembro o quão provocativo foi para mim a vez que puseram a seguinte questão como tema para um ensaio: “Qual a significação para a teologia contemporânea da busca pelo Jesus histórico?”

Nos meus primeiros anos de ministério pastoral, após a ordenação em 1975, continuei a ler tudo o que se relacionava às Escrituras, especialmente nos estudos sobre Jesus. Meus jovens amigos padres e eu estávamos idealisticamente determinados a sempre “mantermos atualizadas as nossas leituras”.

Em pouco tempo, fui sedentamente absorvido pela obra de Hans Küng intitulada “Ser Cristão”. Logo em seguida, uma tradução de “Jesus”, do padre dominicano Edward Schillebeeckx, publicada em 1979, originariamente escrita no mesmo ano da obra de Küng, 1974. Na ocasião, eu atuava numa paróquia rural chamada Charters Towers, no interior da região nordeste da Austrália.

À noite, punha-me a ler “Jesus”, de Schillebeeckx, que de forma alguma é uma leitura fácil. Foram noites longas; levei dois meses para concluir o tomo de 750 páginas. Talvez de modo triunfante, no lado de dentro da capa de meu exemplar escrevi a lápis: “Leitura terminada em 7 de julho de 1980”.

O livro me fascinou com o retrato que apresenta de Jesus e suas propostas de reconstruir como os seus primeiros discípulos o vieram a interpretar, trajetória que se inicia antes de sua morte e que continua depois de sua ressurreição.

Dirigindo-se a uma Europa em crise religiosa, Schillebeeckx quis apresentar um Jesus dando o devido respeito à investigação histórica, todavia com uma visão para o contexto dos crentes e não crentes europeus contemporâneos. Vendo hoje, 35 anos depois, esse é provavelmente o livro mais influente da minha vida, tanto espiritualmente como intelectualmente.

Em pouco tempo tive conhecimento dos pontos fracos da obra. Nem todas as resenhas acadêmicas da época eram positivas (embora muitas fossem brilhantes). Logo depois de terminar a leitura, o biblista Raymond Brown veio à nossa diocese para uma série de palestras. Aconteceu que eu era o diretor diocesano de comunicação. Pensei que seria bom entrevistá-lo para uma rádio local, onde eu mantinha um programa regular.

Quando chegou perto do final da entrevista, pensei fazer uma pergunta sobre o livro (de um modo um tanto egoísta, mais para matar a minha própria curiosidade, não para o bem do público que, de fato, não precisava ouvir sobre um holandês nascido na Bélgica chamado Schillebeeckx). Brown me surpreendeu com sua criticidade. Havia pontos particulares da exegese com os quais ele discordava; partes do livro que eram demasiado especulativas; e ele acreditava que a obra teria sido melhor se Schillebeeckx tivesse ampliado o escopo dos autores que cita e daqueles a quem pediu para ler os originais antes da publicação.

Não obstante, apesar de todas as críticas recebidas (juntamente com os elogios), o livro permaneceu sendo simbólico para mim, juntamente – como diria Schillebeeckx – com a “narrativa” de minha vida.

Não posso resumir aqui todos os finos detalhes desta tese densamente sustentada. Mas duas coisas permanecem, para mim, importantes: o livro trouxe o Jesus vivo para mim, e me presenteou com uma hermenêutica viva.

Em primeiro lugar, apesar de sua densidade acadêmica, o texto me tocou pela perspectiva renovada sobre Jesus. Nesse tocante, dois capítulos em particular permanecem joias especiais. Na Parte 2 sobre o Evangelho de Jesus Cristo, o primeiro capítulo trata “da mensagem salvadora de Jesus” e o segundo capítulo, “do modo de vida de Jesus”. Elas examinam o objetivo fundamental de Jesus, o reino de Deus, as parábolas, a prática comunhão de mesa, sua visão de Deus e a visão divina para a humanidade: “O riso, não o choro, é o propósito mais profundo que Deus deseja” para a humanidade.

E o mais importante de tudo, a própria experiência íntima de Jesus do Deus que ele pregou como Abba: “A fonte dessa mensagem e práxis, demolindo uma noção opressora de Deus, era a sua experiência de Abba, sem a qual o retrato do Jesus histórico fica drasticamente manchado, sua mensagem emasculada e sua práxis concreta (embora ainda significativa e inspiradora) é roubada do significado que ele próprio lhe deu”.

Jesus é a nossa janela para dentro de Deus, a nossa entrada para dentro d’Ele. Frases lapidares do livro ainda se fazem presentes em minhas aulas: a história do Jesus humano é a “história de Deus”, “a parábola do próprio Deus”, “‘Deus traduzido’ para nós”; ele é o “místico e o exegeta de Deus”.

Em segundo lugar, o livro trouxe uma hermenêutica viva para mim. A ousadia pura deste seu projeto me animou. Em uma deliberada “cristologia a partir da base”, o autor estava tentando traçar a gênese da crença cristã em Jesus Cristo reconstruindo o processo hermenêutico que deu origem aos Evangelhos.

A começar com os discípulos pré-Páscoa e como eles teriam interpretado Jesus, o autor passa a mostrar como isso permaneceu sendo, após a Ressurreição, a base de uma interpretação contínua e mais completa dele. Trabalhando sobre as formulações finais do Novo Testamento, ele propõe marcos interpretativos que bem poderiam ter sido operantes aos que primeiro testemunharam Jesus, o seu modo de vida, suas ações e ensinamentos. O fato de que ele era o último profeta, enviado por Deus, constituiu uma interpretação inicial central.

Os princípios hermenêuticos que orientam a obra “Jesus” estariam todos resumidos na seção introdutória da obra subsequente de Schillebeeckx: “Christ: The Experience of Jesus as Lord”. Este texto serve, como disse certa vez Schillebeeckx, como uma conclusão para o primeiro volume. Aqui ele fala mais explicitamente e de maneira mais abrangente sobre a hermenêutica.

Propõe duas importantes teses que capturam o que o volume “Jesus” tinha a intenção de demonstrar. Não existe revelação divina sem experiência humana, e toda experiência humana já é interpretação. Embora a revelação divina não se reduza à experiência humana, a revelação somente pode ser mediada através de uma tal experiência interpretativa. O que temos nos quatro Evangelhos são os resultados de um longo processo, fundamentado na realidade de Jesus de Nazaré. Representação alguma diz tudo, porque ele foi interpretado de maneiras diferentes. Mas cada um captura fielmente o mesmo Jesus.

Acompanhei Schillebeeckx na medida em que seu pensamento se desenvolveu nos anos seguintes, com sua hermenêutica, por exemplo, acolhendo a teoria crítica. Mas o livro “Jesus” permaneceu, para mim, simbólico.

Quando fui convidado, em 1987, pelos bispos de meu estado para cursar licenciatura em teologia fundamental na Universidade Gregoriana em Roma, a minha virada hermenêutica continuou girando. Minha monografia foi sobre a metodologia teológica de Schüssler Fiorenza. Aqui, um nome esteve o tempo todo presente: Hans Robert Jauss, com a noção de hermenêutica da recepção.

Foi a hermenêutica de Jauss que mais tarde se tornou o foco de meus estudos doutorais, também na Gregoriana. Para Jauss, há três elementos que contribuem para a comunicação efetiva do significado: aquele que deseja se comunicar; a articulação real da comunicação em palavras e atos; e aqueles que estão recebendo essa comunicação. Todos os três são importantes. Mas este terceiro elemento da tríade era particularmente significativo para Jauss: o receptor.

Grande parte disso eu vim saber por meio de Schillebeeckx, todavia a necessidade de ajustar a sua hermenêutica já se encontrava um pouco mais clara para mim. No entanto, continuei a aprender com ele através de seu pensamento permanentemente em desenvolvimento, que sempre iria desafiar os meus próprios horizontes.

Relendo recentemente “Jesus” de Schillebeeckx, percebi que, naquela primeira leitura em 1980, estavam sendo lançadas as sementes de um livro que eu escreveria três décadas depois: “The Eyes of Faith: The Sense of the Faithful and the Church’s Reception of Revelation”. Na seção central deste livro, tento mostrar como o processo de interpretação da fé no Novo Testamento na Igreja primitiva explorado por Schillebeeckx é, para nós, “o” exemplo paradigmático daquilo que veio a se chamar “sensus fidei” (o sentido da fé) dos cristãos individuais (como Lucas) e o “sensus fidelium” de uma comunidade inteira (como a comunidade de Lucas, e o círculo mais amplo das comunidades cristãs) em questão nos primórdios da Igreja.

Como capa do livro, deliberadamente escolhi um afresco de Giotto, da Capela Scrovegni, em Pádua, Itália, com Jesus no meio lavando os pés de Pedro, cercado pelos discípulos com aqueles olhos de amêndoas penetrantes giottoesco olhando com superioridade inquirindo: Quem é este Jesus que torna a salvação divina tão tangível? A imagem captura bem a própria investigação penetrante de Schillebeeckx presente em seu livro.

A obra “Jesus”, porém, não fala somente sobre Jesus. Fala também sobre aqueles que primeiramente o interpretaram. E a autoridade divina que a Igreja reconhece ao testemunho destes homens nos autoriza a imitá-los em uma investigação contínua da fé, com o nosso próprio “sensus fidei”. Mas este é um outro assunto, para uma Igreja sinodal emergente.

Estive pensado enquanto olhava para meu exemplar de “Jesus” cheio de anotações e partes sublinhadas: quando pegamos um livro e o lemos, nunca sabemos aonde ele poderá nos levar, tanto tempo depois de termos terminado de lê-lo na primeira vez.

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