Aquela luta contínua contra o tempo informe. Artigo de Timothy Radcliffe

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22 Mai 2020

"A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais é um convite para lembrar que, mesmo no isolamento das nossas casas, podemos sustentar a comunhão de maneiras que nunca foram possíveis no passado. Respondemos a uma crise global com uma comunhão global", escreve Timothy Radcliffe, ex-mestre geral dos dominicanos, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 21-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nos dias 22 e 23 de janeiro de 2020, o diretor geral da Organização Mundial da Saúde presidiu um comitê de emergência para avaliar se um novo vírus que eclodiu em Wuhan constituía uma questão internacional de emergência sanitária pública. O comitê não conseguiu chegar a um acordo. No dia seguinte, 24 de janeiro, o Papa Francisco publicou a Mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações, sobre a arte da narrativa. O mundo estava prestes a perceber um novo flagelo global. Que histórias podemos contar diante de uma pandemia? O Papa afirma que precisamos de histórias "para não nos perdermos (...) histórias que ajudam a reencontrar as raízes, a força para ir em frente juntos". As nossas histórias comunitárias e individuais forjam o nosso senso de tempo, para que possamos navegar com esperança em direção a um futuro.

Mas neste período de confinamento, os calendários habituais que nos dão uma noção do futuro estão perdendo sentido. As reuniões familiares, para casamentos e funerais, não são possíveis; não podemos nos reunir para celebrar as grandes solenidades do ano litúrgico; até o calendário esportivo não nos dá mais uma sensação de expectativa. Nosso tempo se tornou informe. Uma pandemia nos deixa sem orientação. Precisamos de histórias que moldem nossa vida em tempos de calamidade. Providencialmente, a mensagem do papa começa com uma citação - "para que você conte aos ouvidos" (Êxodo 10, 2) - que se refere diretamente às pragas infligidas aos egípcios.

O sangue dos cordeiros nos marcos das casas judaicas os salvou da última praga, a morte de todos os primogênitos homens. As pragas da Bíblia nos colocam diante da morte, não apenas como um destino inevitável de todo ser vivente, mas também como um poder implacável que somente o Senhor da vida e da morte pode derrubar. Toda pandemia contém uma pitada de apocalipse, do "cavalo amarelo e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte, e o inferno o seguia"(Apocalipse 6, 8).

As epidemias muitas vezes lançam a sombra da morte sobre a humanidade, mas nunca antes estivemos tão conscientes de uma ameaça global. Todos os dias leio quantas vítimas se contam em cada um dos países do mundo. Que história de esperança o cristianismo pode oferecer hoje antes do Covid-19? A Páscoa judaica era uma memória das pragas que levaram à libertação dos israelitas da escravidão no Egito. Essa memória forjava o confronto do Senhor com o maior inimigo da humanidade, a morte, na noite anterior à sua traição. Essa é a história com a qual podemos reencontrar nossa orientação em um tempo de calamidade. Naquela noite, ruía tudo o que havia dado orientação e direção aos discípulos. Tudo em que eles haviam depositado sua esperança estava prestes a desmoronar. Diante deles, havia apenas traição, negação, deserção, o colapso de sua pequena comunidade e a paixão e a morte de quem os chamava de amigos. Como disseram os discípulos no caminho de Emaús: "Esperávamos que fosse ele o que remisse Israel" (Lucas 24, 21). A cruz não parecia ser apenas a morte de uma pessoa, mas a vitória da própria morte.

Portanto, o gesto de Jesus de pegar o pão, abençoá-lo e declarar que era seu corpo e que o vinho era seu sangue, foi um gesto impregnado de uma esperança que foi muito além de qualquer imaginação que pudessem ter. Não contrastava apenas com a sua morte no dia seguinte, mas com o reinado da morte, estendendo-se para a vitória no Dia da Páscoa. O esplendor do drama daquela última noite pode ser vislumbrado em situações em que a morte por um tempo lança a sua sombra escura sobre os povos. Isso me impressionou pela primeira vez durante uma visita a Ruanda em 1993, quando o genocídio estava apenas começando. Eu ia visitar as freiras dominicanas no norte quando o embaixador belga chegou e nos aconselhar a ficar em casa porque o país estava em grande tumulto, mas nós partimos mesmo assim.

Depois de um dia cheio de violência, de rebeldes e soldados, crianças mutiladas pelas minas, fui me encontrar com as freiras dominicanas. O que eu poderia dizer em meio a tanto horror? Eu tinha ficado sem palavras. Então lembrei que tinha que reiterar uma memória e uma promessa, que desafiavam a morte e prometiam comunhão quando a humanidade estava dispersa. Esta é a história com a qual desafiamos a ameaça da pestilência, e é por isso que é muito triste que a maioria de nós não possa se reunir para celebrá-la, mas que tenha que assisti-la online.

A mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais é um convite para lembrar que, mesmo no isolamento das nossas casas, podemos sustentar a comunhão de maneiras que nunca foram possíveis no passado. Respondemos a uma crise global com uma comunhão global. As pessoas que assistem a Eucaristia diária online em meu priorado em Oxford são três vezes mais do que vinham à Igreja antes do covid-19. Estou recebendo um tsunami de e-mails e telefonemas. Eu uso o Skype e o Zoom como nunca antes.

No entanto, o isolamento físico consome nossa humanidade. Precisamos o alimento do rosto dos outros e do sustento de um toque gentil. Se somos privados disso, nossa humanidade morre de fome. Os avós não podem abraçar suas crianças e nos encontramos separados das pessoas que amamos. Zoom e Skype não são suficientes. Como podemos suportar isso? A história da Última Ceia fala de uma comunhão nascida do isolamento cada vez mais profundo de Jesus.

No decorrer da Última Ceia, ele preside uma comunidade que já está desmoronando. No jardim de Getsêmani, seus discípulos dormem enquanto ele luta sozinho para enfrentar seu destino. Ele é uma figura solitária quando se encontra diante do juízo dos sumos sacerdotes e de Pôncio Pilatos, e depois atinge a extrema solidão da cruz, tornada indescritivelmente mais grave pela multidão vociferante aos seus pés. Portanto, uma maneira para suportar o isolamento imposto a bilhões de pessoas é participar da solidão de Jesus, que o suportou para que pudéssemos pertencer uns aos outros nele. Em Ruanda, e mais recentemente na Síria, perto da fronteira com o EI (o chamado estado islâmico), me foi revelada a esperança intensa de nossa simples história eucarística. Essa é a narrativa que nenhuma pestilência pode subverter. E, no entanto, por milhões de pessoas vão à missa, esta é percebida simplesmente como entediante. Para muitos, não toca o imaginário, é apenas um triste dever de suportar.

É paradoxal que uma das histórias mais populares do século XX, O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, seja uma exploração de sua fé na Eucaristia. Pouco antes da primeira comunhão de seu filho Michael, ele escreveu para ele "eu te proponho a única grande coisa para amar na Terra: os Santos Sacramentos. Aqui encontrarás aventura, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho para todo o teu amor nesta terra”. Parece estranho que um romance que tocou o imaginário do mundo seja eucarístico, enquanto a própria Eucaristia frequentemente não consegue fazê-lo. Como a beleza de sua narrativa pode se tornar evidente? O Papa Francisco identifica o heroísmo como uma característica de histórias envolventes: “As histórias de cada tempo têm um ‘bastidor’ comum: a estrutura prevê ‘heróis’, mesmo cotidianos, que para perseguir um sonho enfrentam situações difíceis, combatem o mal impelidos por uma força que os torna corajosos, a do amor. Mergulhando nas histórias, podemos encontrar motivações heroicas para enfrentar os desafios da vida”. O Senhor dos Anéis é a história de pequenos seres que se movem lentamente, que temem a aventura, mas se tornam heróis.

Se pudermos ver o drama de nossa Eucaristia como uma história de heroísmo, isso poderia inflamar a nossa imaginação. Dois exemplos vêm imediatamente à mente. O primeiro é a antiga composição poética inglesa The Dream of the Rood, que provavelmente remonta ao século VII. Retrata Jesus como um jovem herói que sobe na cruz para lutar como um cavaleiro. O segundo é o filme Homens e Deuses (título original: Des hommes et des dieux), dirigido por Xavier Beauvois, que em 2010 venceu o Grand Prix no festival de Cannes. Tocou o imaginário de milhões de pessoas, porque é a história verdadeira de alguns tímidos monges comuns que se tornam heróis. Narra a história de uma pequena comunidade de monges trapistas na Argélia nos anos 1990, que se veem atingidos por uma onda crescente de violência. Eles têm que ficar e correr o risco de morrer ou ir embora? A cena mais comovente é a sua Última Ceia. O idoso irmão Luc pega duas garrafas de vinho e coloca a música do Lago dos cisnes no gramofone. Nenhuma palavra é dita. Vemos apenas seus rostos, cheios de tristeza pelo sofrimento que os espera e de alegria, porque todos participarão da história dos últimos dias de seu Senhor. É a beleza absoluta de um heroísmo eucarístico silencioso e sem pretensões.

Como podemos viver a situação atual de maneira heroica e, assim, tocar o imaginário de nossos contemporâneos? Durante as pestilências do passado, por exemplo a Morte Negra, os cristãos saíram e atendiam os doentes, correndo o risco de morrer. Os heróis de nossa pandemia são os enfermeiros e os médicos que trabalham nas linhas de frente. Muitos deles fazem isso como expressão de sua fé cristã, mas como a Igreja pode vivenciar de modo claro a tragédia da história eucarística agora que as igrejas estão fechadas e muitos hospitais, pelo menos no Reino Unido, não permitem a entrada de capelães? Acabei aceitando, com dificuldade, a sabedoria e a correção da decisão de isolar o clero. Caso contrário, nos tornaríamos ferramentas de contágio.

Existem exemplos de heroísmo: Dom Giuseppe Berardelli, o padre de setenta e dois anos que renunciou ao ventilador para que um jovem pudesse viver e, consequentemente, morreu; ou um jovem dominicano norte-americano que trabalha em Nova York que se mudou para um hospital para ajudar as pessoas afetadas pelo vírus, mesmo que isso tenha significado abandonar a sua comunidade. No entanto, é difícil para mim imaginar como a Igreja possa tornar explícito o heroísmo de nossa grande história diante do covid-19. O isolamento pode ser necessário, mas não parece heroico! Talvez seja possível com uma espécie de santo realismo, olhando a morte de frente, reconhecendo a tragédia única vivida por cada vítima, mas recusando-se a entrar em pânico, pois acreditamos que o domínio da morte tenha terminado.

Há um último tema na mensagem do Papa que, na atual crise, assumiu uma importância inesperada. Francisco enfatiza a beleza de contar nossas histórias a Deus. “Narrarmo-nos ao Senhor é entrar no seu olhar de amor compassivo por nós e pelos outros. A Ele podemos narrar as histórias que vivemos, levar as pessoas, confiar situações. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as rupturas e os rasgões”.

Nessa Páscoa, foram muitos que não puderam receber o sacramento da reconciliação. Dois meses após a publicação da mensagem, o Papa pediu aos fiéis que confessassem seus pecados a Deus na ausência de um sacerdote. Isso não deve necessariamente ser uma declamação dos pecados, mas, como sugere a mensagem do Papa, uma narrativa da própria história para Deus, com seus dramas, fracassos e triunfos. Santo Tomás de Aquino, em seu Scriptum super librum IV Sententiarum, vai mais além e afirma que, quando não há um sacerdote, pode-se contar os próprios pecados a outro leigo, que não pode dar a absolvição, mas que é uma espécie de ministro do sacramento "por necessidade". Portanto, nesta crise, todos podemos representar o ouvido misericordioso de Deus, participando do drama da vida alheia, tranquilizando uns aos outros sobre a vitória final do amor.

 

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