Yves Congar abriu uma porta para o papel transformador da teologia

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30 Novembro 2016

“A primeira versão de “A History of Theology” de Yves Congar foi escrita no mesmo período que Marie-Dominique Chenu, então reitor da casa dominicana de estudos (a Saulchoir), onde Congar lecionou e proferiu uma palestra programática. Essa palestra desencadeou uma polêmica que se estendeu por mais de duas décadas”, escreve Catherine E. Clifford, professora de teologia na St. Paul University, em Ottawa, no Canadá, autora, juntamente com Richard Gaillardetz, do livro “Keys to the Council: Unlocking the Teaching of Vatican II", em artigo publicado por National Catholic Reporter, 28-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A History of Theology
De Yves Congar
Doubleday, 1968

Eis o artigo.

Tive uma das mais importantes introduções à teologia e ao mundo de um dos grandes teólogos do século XX quando abri, pela primeira vez, as páginas da obra “A History of Theology” (Uma história da teologia), de Yves Congar. Este nunca foi um best-seller e talvez jamais estará entre as principais obras na coleção impressionante de escritos produzidos por teólogos dominicanos. Mesmo assim, o seu texto abriu as portas para um conjunto de questões sobre o papel transformador da teologia – a sua capacidade de refletir sobre a experiência de Deus e falar aos contemporâneos todos os momentos da história e em contextos sociais amplamente divergentes – que tem ocupado os meus estudos e o meu ensino desde então.

Ainda durante a graduação, pouco tempo depois de eu ter mudado o para o curso de estudos religiosos, participei de um seminário de profunda importância pessoal. O programa havia sido organizado com a colaboração e recursos compartilhados de faculdades católicas, anglicanas, menonitas e da Igreja Unida. O professor menonita que presidia o evento pediu-me que preparasse uma apresentação que servisse para explicar a meus colegas – a maioria dos quais pertencia a outras igrejas cristãs – como, desde o Vaticano II, a Igreja Católica pôde ter mudado tanto e, todavia, permanecer a mesma igreja. Os demais acompanharam estes desenvolvimentos com uma atenção arrebatada!

Sem saber exatamente como responder a este desafio, procurei um conselho de um dos meus professores católicos, que imediatamente me remeteu ao livro “A History of Theology”.

Uma leitura desafiadora, “A History of Theology” é uma versão revista e atualizada de um artigo que Congar publicara no início de sua carreira (1938-1939) no Dictionnaire de théologie catholique, intitulado “Théologie”. Congar (1904-1995), padre francês, nasceu no início do século passado. Ele contribuiu – talvez mais do que qualquer teólogo do século XX – para o estudo da Igreja, incluindo suas estruturas e missão, hoje chamado de “eclesiologia”. Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), Congar trabalhou como perito para várias comissões importantes, fazendo contribuições diretas e, por vezes, significativas aos textos oficiais conciliares.

Em seis capítulos bem documentados, “A History of Theology” analisa a evolução das definições e abordagens da teologia através da história. Começa desde os tempos pré-cristãos, quando a teologia – uma reflexão fundamentada sobre Deus – era obra dos filósofos metafísicos, passando pelas opiniões dos primeiros escritores cristãos indo até o período escolástico do início e fim da Idade Média, chegando ao período Reforma, no século XVI, e aos primórdios da era moderna, concluindo no final do século XX.
Compreendidos de maneiras diversas, os métodos teológicos evoluíram do comentário bíblico dos Pais da Igreja (sacra pagina), passando às obras mais sistemáticas e especulativas dos teólogos medievais (sacra doctrina), indo até a especialização abundante dos tempos modernos.

Os leitores de hoje ficarão impressionados com a evolução dinâmica e contínua da teologia. Na esteira do Vaticano II, Congar observou que “a situação teológica, na verdade, até mesmo a ideia de um empreendimento teológico” continuou a evoluir.
Congar traça habilidosamente a mudança histórica na teologia ocidental, de uma abordagem modelada pela tradição filosófica de Aristóteles e representada pelas obras de Alberto, o Grande, e Tomás de Aquino no século XIII, ao sistema mais positivista do franciscano Duns Escoto na virada do século XIV. Onde Aquino e seus seguidores propunham uma distinção e uma continuidade entre o nosso conhecimento do mundo e o conhecimento de Deus, a abordagem de Escoto considerava a revelação divina completamente extrínseca à ordem da criação, associando-se à corrente agostiniana juntamente com São Boaventura.

Estes desenvolvimentos, prefigurados nas dramáticas condenações do pensamento de Aristóteles e Averróis na Universidade de Paris em 1270 e 1277, prepararam o cenário para o surgimento do nominalismo e para o declínio da teologia do final da Idade Média. A discussão atenta de Congar fornece pistas para tensões persistentes que continuam se manifestando em várias correntes da teologia contemporânea.

Na busca de um sistema de pensamento coerente e lógico, os escolásticos medievais transformaram, sem querer, a teologia em um “instrumento de especialistas” que perdeu contato com a vida da Igreja e com a tradição bíblica. Em reação a isso, os reformadores do século XVI clamaram por um retorno à prioridade da Sagrada Escritura e uma reflexão mais atenta às lutas diárias dos cristãos comuns.

No início da era moderna, tanto o catolicismo como o protestantismo foram influenciados por movimentos mais pietistas centrados no encontro com Cristo. Em uma época de convulsão social, camponeses e as classes trabalhadoras facilmente se identificavam com o Cristo sofredor e simpatizavam com sua mãe.

A renovação teológica do século XX foi impulsionada pela preocupação pastoral em proclamar o Evangelho aos povos modernos e foi modelada por um retorno à Bíblia, às primeiras fontes da liturgia e às percepções teológicas dos primeiros escritores cristãos.
Em cada época, os teólogos preocupam-se em se envolver com as correntes intelectuais de seu tempo, para dar forma à fé viva da comunidade de fiéis à medida que encontram novas questões. O testemunho vivo da Igreja, enraizado na mesma fé dos primeiros seguidores de Jesus registrada nas Escrituras, é necessariamente transposto para o vernáculo das novas culturas e envolto no diálogo com o conhecimento científico renovado. A comunidade humana se transforma e se desenvolve ao longo da história. A Igreja aprende com os desenvolvimentos da ciência e da cultura e pode – com a ajuda do Espírito de Deus – crescer em sua compreensão da revelação divina.

Desse modo, podemos falar em “desenvolvimento” na doutrina cristã – um desenvolvimento que é mais do que uma simples mudança na linguagem ou na expressão da fé: ela também envolve uma penetração mais profunda do mistério de Deus e de seu amor ilimitado pela humanidade.

Embora “A History of Theology” não seja um livro sobre o Vaticano II como tal, ele ajudou-me a entender o Concílio como um momento em que toda a Igreja Católica empreendeu um autoexame completo ao se confrontar com as mudanças históricas, sociais, políticas e econômicas que remodelavam comunidade humana. Num desejo de proclamar o centro da mensagem evangélica aos homens e mulheres modernos, o livro procurou atualizar o magistério, o governo, a liturgia, as formas de ministério ordenado e a vida religiosa da Igreja, bem como o testemunho dos fiéis leigos.

A perspectiva da história – ou aquilo que acabamos chamando de “consciência histórica” –- levou os teólogos e lideranças católicas a entender que a Igreja se adaptou aos contextos sociais e culturais cambiantes e às necessidades pastorais concretas dos povos de todas as épocas.

A teologia jamais pode se contentar em repetir cegamente fórmulas do passado. Ela possui uma responsabilidade crítica e criativa de apropriar-se da sabedoria e do significado da fé de maneiras que ajudarão os contemporâneos a encontrar Cristo e a viver como seus discípulos. A teologia tem a responsabilidade de mediar a boa nova de um modo que possa modelar a resposta da comunidade cristã aos novos desafios e percepções à medida que surgem na história humana.

Como uma criatura da história cujo propósito último é formar a prática da vida cristã, nada escapa à preocupação da teologia: economia, questões de justiça social, a preocupação pelos pobres e marginalizados. Para realizar essa tarefa, ela deve envolver-se no diálogo com outras disciplinas.

Ao longo dos anos, passei a apreciar a significação e a transformação decorrentes da introdução de uma mentalidade histórica operativa na reflexão teológica e na vida da Igreja. A primeira versão de “A History of Theology” foi escrita no mesmo período que Marie-Dominique Chenu, então reitor da casa dominicana de estudos (a Saulchoir), onde Congar lecionou e proferiu uma palestra programática. Essa palestra desencadeou uma polêmica que se estendeu por mais de duas décadas.

Falando na Festa de São Tomás de Aquino em 1936, Chenu refletiu sobre o método histórico que inspirava o estudo e o ensino da teologia na Saulchoir abordagem caracterizada pelos críticos como uma “nouvelle théologie” – uma “inovação” perigosa e um rompimento com uma tradição imutável. Em grande parte, Chenu inspirou-se numa reflexão de Tomás de Aquino, que cuidadosamente distinguia entre o objeto da fé como tal e a expressão da fé, condicionada por um contexto cultural particular.

Em Saulchoir ensinava as obras de Aquino, o “Doutor Angélico”, prescritas pelo Papa Leão XXIII como um modelo para a teologia católica, porém o fazia com uma abordagem historicamente orientada, não acrítica e sintonizada com os desafios pastorais contemporâneos.

Em 1938, os superiores religiosos de Chenu o obrigaram a subscrever uma série de teses que equivaliam a uma retratação de suas reflexões, que logo apareceram no índice de obras proibidas. Pouco depois, foi tirado de seu cargo de reitor e a Saulchoir foi fechada.

Congar escapou à censura durante a Segunda Guerra Mundial, quando atuou como capelão do exército desembarcando em um campo de prisioneiros de guerra. Mas, ao longo da década de 1950, ele estaria sujeito à suspeita, incompreensão e censura. Quem poderia prever que levar a sério a história seria ser tão dispendioso, ou considerado uma tarefa tão perigosa?

As ideias de Congar, de Chenu e muitos outros só seriam amplamente recebidas a partir do momento em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. O Papa João via Cristo como o centro da história. Na Encarnação, Cristo entrou na história humana. O Cristo Ressuscitado, por meio do Espírito, continua a agir na – e através da – comunidade humana.

Embora no mundo haja tanto o bem quanto o mal, a história é uma realidade graciosa e uma “mestra de vida” com a qual a Igreja pode aprender. De fato, João XXIII convidou os bispos participantes do Concílio Vaticano II a assumirem um renovado senso de responsabilidade pela missão da Igreja naquilo que chamou de “uma nova era na história do mundo”.

Estes temas são retomados na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo Atual, onde o Concílio convoca a todos os cristãos e, na verdade, todas as pessoas de boa vontade, a assumirem suas responsabilidades como “artífices e autores da cultura da própria comunidade”.

Numa época em que desenvolvemos a capacidade de modelar o mundo em que vivemos, perigosamente taxando os recursos da terra para as gerações futuras, a vocação da humanidade é a de agir conforme a nossa “responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história”, lê-se em Gaudium et Spes. Hoje a tarefa da teologia continua ser a de refletir sobre essa responsabilidade à luz do Evangelho.

Ter lido “A History of Theology” abriu as portas para dentro do mundo da teologia. Essa leitura me conduziu a outros trabalhos inovadores do Congar (Divided Christendom, de 1937; Lay People in the Church, de 1950; True and False Reform in the Church, de 1953; e Tradition and Traditions, de 1960-1963) e seus muitos estudos em eclesiologia.

O seu exemplo de trabalho árduo e persistente em face da grande adversidade e censura me falou de como o serviço da teologia é, às vezes, recebido com grande incompreensão. Lançar luz sobre as duras verdades da história e apontar o caminho para uma conversão traz a cruz consigo. Quando sou tentada à impaciência com o ritmo lento do progresso, é-me útil ter a visão estendida da história. Dar um passo atrás ajuda a pôr as coisas em perspectiva, a discernir os movimentos do Espírito divino.

Aquele primeiro debate desafiador ainda como estudante de graduação foi o início de um longo aprendizado na prática do diálogo. Descobri muitos outros companheiros ecumênicos nesse trajeto. Mais que parceiros de conversa, são companheiros peregrinos de quem eu muito recebi.

Os homens e mulheres com os quais tive o privilégio de estudar durante meus anos de pós-graduação ajudaram-me a cultivar uma paixão pela Igreja. Não porque é uma comunidade perfeita, mas exatamente porque o Espírito de Deus continua a trabalhar através deste encontro plural da humanidade, com todas as suas falhas e fraquezas.

Esforço-me para incutir em meus alunos hoje aquela mesma sensação de confiança no Deus da história e aquele amor pela diversidade de dons espirituais que nutre e enriquece o povo peregrino de Deus.

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