Em 50 anos, um terço do planeta estará condenado a um clima como o do Saara

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06 Mai 2020

As áreas do planeta onde vive um terço dos humanos se tornarão, em 50 anos, tão quentes como as áreas mais quentes do Saara, a não ser que sejam reduzidas drasticamente as emissões de gases do efeito estufa. Isso é indicado pelos resultados de um estudo realizado por pesquisadores da China, Estados Unidos e Europa, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

A reportagem é de Antonio Cerrillo, publicada por La Vanguardia, 05-05-2020. A tradução é do Cepat.

O relatório analisa a localização geográfica em que historicamente se estabeleceu a população humana e a distribuição territorial dos aumentos esperados nas temperaturas até 2070. E o cruzamento dessas duas coordenadas nos permite concluir que o rápido aquecimento global pode significar que cerca de 3,5 bilhões de pessoas vivam, em 50 anos, fora do espaço ou nicho climático no qual os humanos prosperam há 6.000 anos.

Essas descobertas alertam que as emissões de CO2 e outros gases do efeito estufa colocariam a humanidade em risco de uma crise sem precedentes, de acordo com a equipe de pesquisa internacional, composta por arqueólogos, especialistas em história climática e outros cientistas.

As populações humanas estão concentradas principalmente em estreitas e muito localizadas faixas climáticas. A maioria das pessoas vive em locais onde a temperatura média anual está entre 11 e 15 graus, enquanto um número menor de pessoas vive com uma temperatura média em torno de 20-25 graus. Nesse clima, os seres humanos encontraram suas melhores condições para se desenvolver.

No entanto, esse nicho climático provavelmente comporta limitações fundamentais para que os seres humanos possam sobreviver e prosperar, diz Marten Scheffer, professor da Universidade de Wageningen (Holanda), que coordenou a pesquisa em conjunto com seu colega chinês Xu Chi, da Universidade de Nanquim.

Em um cenário em que as emissões continuem aumentando constantemente, as pessoas experimentarão pessoalmente um aumento médio de temperatura de 7,5 graus, em 2070. Este é um valor mais alto do que o aumento médio da temperatura mundial de pouco mais de 3 graus. Isso ocorre porque a terra esquenta muito mais rápido que o oceano e também porque o crescimento da população muda para lugares já quentes.

O relatório diz que a maioria das regiões que agora estão próximas dos 13 graus registrarão, em 50 anos, uma temperatura média de cerca de 20°C (aquela que agora possui o norte da África, partes do sul da China e regiões do Mediterrâneo). Por sua vez, as populações nas regiões que atualmente são quentes aumentarão até que representem uma parte importante da população mundial.

Especificamente, 3,5 bilhões de pessoas serão expostas a uma temperatura média anual acima de 29 graus, uma situação que agora ocorre apenas em 0,8% da superfície terrestre (concentrada principalmente no Saara). No entanto, a projeção para 2070 é que essas regiões climáticas abranjam 19% da terra. Isso significa que “3,5 bilhões de pessoas viveriam em condições quase inabitáveis”, diz Jens-Christian Svenning, da Universidade de Aarhus, coautor do estudo.

Os países mais populosos que correm maior risco são a Índia, onde mais de 1,2 bilhão de pessoas viveria em lugares tão quentes como o Saara e a Nigéria, onde 485 milhões de pessoas viveriam nessas condições. O Paquistão, Indonésia e Sudão veriam afetados mais de 100 milhões de pessoas cada um.

A Espanha verá aumentos significativos de temperatura devido à mudança climática, embora não atinja esse limiar de inabitabilidade, já que as temperaturas ao longo do ano não serão tão quentes como as partes mais quentes do Saara.

“O coronavírus mudou o mundo em formas que eram difíceis de imaginar, há alguns meses, e nossos resultados mostram como a mudança climática pode causar algo semelhante”, diz Scheffer. “A única coisa que pode impedir que isso aconteça é um corte rápido nas emissões de carbono”, afirmou.

“A boa notícia é que esses efeitos podem ser bastante reduzidos se a humanidade conseguir conter o aquecimento global”, diz o coautor do estudo, Tim Lenton, especialista em clima e diretor do Global Systems Institute (Instituto de Sistemas Globais), da Universidade de Exeter.

“Nossos cálculos mostram que cada grau de aquecimento acima dos níveis atuais corresponde a cerca de um bilhão de pessoas que sairão do nicho climático. É importante que agora possamos expressar os benefícios de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em algo mais humano do que em termos monetários”, acrescenta o pesquisador.

Os autores apontam que parte dos 3,5 bilhões de pessoas expostas ao calor extremo poderiam tentar migrar, se a mudança climática não parar, mas enfatizam que muitos fatores, além do clima, afetam as decisões de migrar e essa parte da pressão para mudar poderia ser resolvido através da adaptação climática.

“Prever a verdadeira magnitude da migração causada pelo clima continua sendo um desafio”, diz Scheffer. “As pessoas preferem não migrar. Também há margem para adaptação local em parte do mundo, dentro de limites, mas no Sul isso exigirá promover o desenvolvimento humano rapidamente”.

“Este estudo ressalta porque uma abordagem holística é crucial para lidar com a mudança climática, que inclua a adaptação aos seus impactos, o tratamento das questões sociais, o impulso para o autogoverno e o empoderamento do desenvolvimento, bem como caminhos legais compassivos para com aqueles cujas casas se vejam afetadas. Isso garantirá um mundo em que todos os seres humanos possam viver com dignidade”, acrescenta Scheffer.

“Ficamos sinceramente assombrados com nossos próprios resultados iniciais”, afirma Xu Chi. “Como nossas descobertas foram tão chocantes, levamos mais um ano para verificar cuidadosamente todas as suposições e os cálculos”, continua. “Também decidimos publicar todos os dados e códigos de computador para aumentar a transparência e facilitar o trabalho de acompanhamento de outros. Os resultados são tão importantes para a China como para qualquer outra nação. Está claro que precisaremos de uma abordagem global para proteger nossos filhos contra as potencialmente enormes tensões sociais que a mudança projetada poderá provocar”.

“Novas técnicas e esforços combinados em todo o mundo aumentam o nosso poder de reconstruir o passado da humanidade”, afirma Tim Kohler, arqueólogo da Universidade Estadual do Estado de Washington, Pullman. “Isso nos ajuda a encontrar nossa dependência íntima do clima, e como surpreendentemente permaneceu constante ao longo do tempo. Também vemos na arqueologia muitos exemplos em que a mudança climática precipitou a migração”.

 

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