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28 Abril 2020

O Cardeal George Pell ressurgiu no cenário público com a serenidade que lhe é característica. Apenas quatro dias depois que sua condenação por transgressões de abuso sexual infantil foi anulada, por unanimidade, pelo Supremo Tribunal da Austrália, o religioso lançou-se de volta às guerras culturais com uma entrevista cativante concedida a Andrew Bolt, da Sky News Australia.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 22-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na entrevista, transmitida em 14 de abril, fica claro que o prelado de 78 anos pretende continuar tentando influenciar os assuntos da Igreja e que continuará sendo a principal luz entre os católicos que se opõem à agenda de reformas do Papa Francisco. No Sábado de Aleluia, o ex-tesoureiro do Vaticano sentou-se para uma conversa de 50 minutos com Bolt, um dos principais comentaristas conservadores da Austrália e, na imprensa, um dos mais importantes defensores do cardeal.

Instigado por Bolt, Pell sugeriu que sua condenação na Austrália esteve motivada por seus inimigos, principalmente por causa de sua postura pró-vida e sua defesa aberta da família tradicional. Também sugeriu que o caso poderia estar ligado à oposição que ele, Pell, provocara ao tentar erradicar a corrupção financeira no Vaticano. Essa possibilidade tem pouco impacto em Roma, onde a visão geral é a de que o pior inimigo do cardeal é ele mesmo.

“O senhor e o papa não são próximos”, observou Bolt. “Ele está muito à esquerda e é um pregador do aquecimento global. O senhor é conservador e cético em relação às mudanças climáticas. O papa vem sendo um líder frágil, e o senhor tem exigido reformas na Igreja. Nesse particular [as acusações de abuso], o papa lhe deu apoio como o senhor gostaria?” Pell admitiu que ele e o papa não sustentam visões teológicas semelhantes, mas insistiu que o Bispo de Roma lhe deu apoio irrestrito. Francisco, disse Bolt, “merece respeito”. Mas a relutância do cardeal em desafiar o ataque de Bolt a Francisco foi reveladora.

Para muitos dos opositores do papa, o Cardeal Pell, acadêmico e administrador habilidoso, é visto como um poderoso líder contra a direção que Francisco deseja dar à Igreja. No conclave de 2013 que elegeu Francisco, acredita-se que Pell esteve entre os que apoiaram o Cardeal Angelo Scola.

Em meu novo livro, The Outsider: Pope Francis and His Battle for Reform the Catholic Church, detalho como, enquanto o cardeal era chamado a Roma por Francisco para reformar as finanças da Santa Sé e quando fazia parte do círculo interno de assessores do papa, Pell opôs-se a Francisco no tocante a Laudato Si’, aos dois sínodos para a família e ao sínodo amazônico. Em entrevista comigo em 2014, o cardeal discordou de uma pergunta que fiz sobre se Jesus daria a Comunhão a católicos divorciados e recasados. “Eles mataram Jesus”, respondeu o australiano. Em outras palavras: “Não!” Em 2017, Pell se sentou para um jantar privado com Scott Pruitt, então administrador da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, que rejeita a visão científica de que a mudança climática é causada pela atividade humana.

Hoje, Pell é um homem livre e quase todos no Vaticano, onde todo mundo se mostrou cético em relação às acusações feitas contra ele, estão dando suspiros de alívio. Mas a soltura de Pell é também um incentivo aos que buscam uma visão eclesial alternativa à visão promovida por este pontificado.

A audiência digital das produções on-line vaticanas atinge níveis históricos. O sítio eletrônico Vatican News teve 14,5 milhões de visualizações durante a Semana Santa – onde, neste período de confinamento, todas as liturgias papais foram transmitidas ao vivo – e contou com 5,5 milhões de usuários. Ano passado, a Semana Santa viu 1,5 milhão de usuários e 3,5 milhões de visualizações.

Apesar dessa popularidade, Francisco tem se mostrado ambivalente quanto às transmissões ao vivo de suas liturgias e audiências gerais. Ele advertiu contra a virtualização da Igreja. Recentemente, durante uma de suas homilias no começo do dia, ele referiu-se a um bispo que o repreendeu por não permitir que uma congregação maior – segura socialmente, distanciada entre si – estivesse presente na Praça São Pedro nas liturgias transmitidas on-line “para que o povo pudesse ser visto”. O papa acrescentou: “É verdade que neste momento devemos ter esta familiaridade com o Senhor desse modo, mas para sair do túnel, não para permanecer aí”.

Aqui vemos refletida uma tensão entre a necessidade de a Igreja ser visível on-line e a percepção de que a comunidade cristã não é meramente digital. O pontificado de Francisco caracteriza-se pelo desejo de “tocar as feridas” da humanidade, abraçar os pobres, refugiados e marginalizados. Isso não é possível com o distanciamento social. O papa de 83 anos tem usado todas as vias digitais para se conectar com as pessoas durante esta pandemia, ao mesmo tempo que enfatiza que a comunidade católica não é apenas uma realidade virtual ou gnóstica.

A Santa Sé – sob duras críticas por sua tentativa de aproximação com o regime de Pequim – deu outro passo tentador em direção à reconstrução das relações com a China. La Civiltà Cattolica, revista jesuíta supervisionada pela Secretaria de Estado do Vaticano, lançou uma edição digital chinesa. O periódico quinzenal, que este ano completa 170 anos (é precisamente 10 anos mais novo que a revista The Tablet), agora tem um sítio eletrônico em chinês. La Civiltà Cattolica, dirigida pelo empreendedor Pe. Antonio Spadaro, assessor próximo de Francisco, também criou uma conta no WeChat, popular aplicativo de mensagens e mídia social chinês.

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