Para o Papa Francisco, esta quarentena põe em conflito duas causas que lhe são caras

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22 Abril 2020

"Francisco dedica-se igualmente a uma Igreja próxima do povo, uma igreja que sai da sacristia e vai às ruas. Ele é também um inimigo declarado do clericalismo e talvez esteja vendo um risco de elitismo clerical reavivado no fato de que a missa está sendo celebrada sem fiéis em todo o mundo".

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 19-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o comentário.

Hoje, 19 de abril, marca o 42º dia sem missa pública aqui na Itália, em decorrência a uma quarentena nacional por causa do coronavírus. Num momento em que a taxa de infecção continua a cair, tem-se visto uns especularem sobre uma “ripresa”, ou seja, um retorno gradual à normalidade. Como parte deste cenário, os bispos italianos têm mantido conversas com o governo sobre quando a vida litúrgica poderá recomeçar.

Tensões em torno do isolamento social têm sido sentidas no mundo todo: da Alemanha, onde os bispos católicos protestam contra a decisão da chanceler Angela Merkel de manter em vigor a proibição dos serviços religiosos ao mesmo tempo permitindo a reabertura de milhares de lojas, até os EUA, onde o governador do Kansas trava uma batalha judicial sobre os limites impostos aos ajuntamentos religiosos e onde Dom Peter Baldacchino, de Las Cruces, no Novo México, decidiu cancelar, por sua conta e risco, a suspensão das missas públicas.

Uma dimensão instável desse debate é a atitude do Papa Francisco. Com o passar do tempo, ele enviou sinais que, paradoxalmente, incentivam tanto os defensores das restrições impostas pelo governo quanto os críticos.

Por um lado, Francisco deu exemplo transmitindo sua missa diária sem a presença dos fiéis, claramente praticando o distanciamento social. Francisco também elogiou os padres que encontraram maneiras criativas de chegar até as pessoas por meios digitais, celebrando a missa em telhados ou terraços para a comunidade local, e assim por diante, o que implica que a resposta adequada não é desafiar as restrições, mas trabalhar dentro delas.

No entanto, foi Francisco quem persuadiu o cardeal italiano Angelo de Donatis, seu vigário de Roma, a reabrir paróquias para orações particulares menos de 24 horas depois que de Donatis anunciara que elas seriam fechadas. (O próprio de Donatis posteriormente testaria positivo para o vírus e receberia tratamento no hospital Gemelli, de Roma, antes de continuar sua recuperação em casa.)

Na sexta-feira, Francisco também usou a sua missa matinal para chamar de “perigosas” as liturgias celebradas sem pessoas.

Tais medidas, disse ele, fazem parte deste “momento difícil”, mas não podem levar a “Igreja, os sacramentos e o povo” a transformarem-se em um exercício de realidade virtual. Segundo o papa, estas restrições têm o objetivo de “sair deste túnel, não permanecer assim”, pois a Igreja constitui-se em uma “familiaridade concreta com o povo”.

“A Igreja não é isso”, disse ele, referindo-se à quarentena. “Essa é a Igreja em uma situação difícil”.

Talvez um dos motivos pelos quais os católicos que aceitam tais limites, e aqueles que se irritam com os mesmos limites, sintam que o papa os entende é porque a situação envolve dois valores fundamentais para o pontífice, valores que nem sempre se caem bem juntos.

Por um lado, Francisco acredita que, no enfrentamento de problemas complexos, a Igreja precisa estar em diálogo e aprender com as ciências humanas. Em Laudato Si’, sua encíclica de 2015 sobre o meio ambiente, ele cita um “consenso científico muito sólido”, apontando para o aquecimento global como parte de seu argumento para o “cuidado da casa comum”.

Nos últimos cinco anos, Francisco travou uma batalha contra os céticos e negadores das mudanças climáticas, incluindo alguns de dentro de seu próprio rebanho, insistindo que as recomendações da comunidade científica devem ser levadas a sério. Seria, portanto, irônico se, ao enfrentar um desafio comum de grandes proporções, como no caso da pandemia de coronavírus, o papa minimizasse as advertências dos epidemiologistas e especialistas em saúde pública.

Em certo sentido, os debates climáticos criaram um modelo para a política do coronavírus, já que muitas vezes os conservadores (incluindo católicos), céticos em relação ao “grande governo” e à “ciência fake”, são os que mais desconfiam da quarentena imposta pelo Estado com uma estampa científica. Instintivamente, esse não é um ponto de vista pelo qual Francisco tenha mostrado grande simpatia, o que pode explicar o amplo apoio dele aos bispos italianos no cumprimento dos decretos do governo.

Por outro lado, Francisco dedica-se igualmente a uma Igreja próxima do povo, uma igreja que sai da sacristia e vai às ruas. Ele é também um inimigo declarado do clericalismo e talvez esteja vendo um risco de elitismo clerical reavivado no fato de que a missa está sendo celebrada sem fiéis em todo o mundo.

No início deste mês, um interessante artigo a esse respeito foi publicado pelo jornalista católico italiano Riccardo Cristiano, um dos principais apoiadores de Francisco, intitulado “Padres e aquela tentação em tempos de coronavírus”. Cristiano criticou um documento emitido pela conferência dos bispos da região italiana da Úmbria, apresentado como uma mensagem pastoral sobre a suspensão de missas públicas.

No documento, os bispos escreveram: “A assembleia participa da celebração, mas não é o protagonista constitutivo do ato sacramental, este sendo, na verdade, o ministro ordenado, seja ele sacerdote ou bispo”.

Provavelmente, a mensagem pretendia apenas tranquilizar as pessoas de que as missas transmitidas ao vivo continuam válidas, mas Cristiano detectou algo alarmante.

“Essa situação dolorosa pode despertar o desejo [entre os clérigos] de serem, eles mesmos e por si sós, a Igreja, que é um grande desafio que o coronavírus põe para muitos padres”, escreveu ele. “É um risco muito mais importante do que um documento com o qual, talvez, nem todos os seus signatários realmente concordam: clericalismo”.

Eis uma questão que provavelmente preocupa Francisco também.

É natural que o papa dificilmente seja o único católico ambivalente em se tratando do estado atual das coisas, aceitando a importância de defender a vida e a saúde, mas também preocupado em tratar a prática religiosa como desnecessária e dispensável.

No entanto, para Francisco, visto que esta situação opõe duas causas que lhe são caras, ela pode também ser particularmente agonizante para ele – o que explicaria tanto a sua tolerância atual quanto a sua evidente impaciência.

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