O desafio da conferência neoconservadora a poucos passos do Vaticano

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27 Janeiro 2020

"Salvini, Meloni, Maréchal-Le Pen, Orbán, a embaixadora de Trump junto à Santa Sé e vários outros oradores chamados de todo o mundo para dar vida à nova Santa Aliança".

O comentário é de Riccardo Cristiano, jornalista, em artigo publicado por Y., 20-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

A fundação Edmund Burke organizou uma grande reunião em Roma. A iniciativa pode ser considerada uma tentativa de solicitar a sacralização do neoconservadorismo soberanista. O tema do encontro será de fato "Deus, honra, nação: o Presidente Ronald Reagan, o Papa João Paulo II e a liberdade das nações". Tem de tudo para falar sobre a ideia de uma nova Santa Aliança. E a data escolhida é muito significativa, 4 de fevereiro. Como todos sabem, mas talvez nem todos recordam, 4 de fevereiro é o dia em que o documento sobre a fraternidade humana foi assinado há um ano pelo Papa Francisco e pelo imã da Universidade Islâmica de al-Azhar, Sheikh Ahmad al-Tayyeb.

Portanto, a ideia parece aquela de contrapor à fraternidade humana a honra nacional, na qual a religião parece ter um papel significativo; o fardamento com o qual as nações desfilam; a comunidade de crentes (Fath) e a comunidade dos combatentes (Fight). Se essa fosse a ideia, a figura de João Paulo II, o Papa do espírito de Assis e do diálogo entre todas as religiões, pareceria "coagida". O romanticismo de Edmund Burke, a quem a fundação organizadora se reporta, tem pouco a ver com o pensamento de Karol Wojtyla.

A sede do encontro será o Grand Hotel Plaza. Obviamente, muito importante também é a composição do painel de oradores, chamados de todo o mundo para dar vida a esta nova Santa Aliança. Os nomes italianos para nós são conhecidos: Matteo Salvini e Giorgia Meloni. Sua sintonia com o papa do espírito de Assis é difícil de entender. Mais evidente é a do húngaro Viktor Orbán, profeta do cristianismo iliberal e palestrante garantido. Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos EUA, também pode ser incluído na lista de oradores. Grande amigo pessoal de Trump e um dos seus "assessores" mais ouvidos, em Roma é conhecido por muitos como o marido da sra. Callista Gingrich, embaixadora de seu país na Santa Sé. Que o marido da embaixadora de Trump no Vaticano esteja participando naquele dia de um encontro contra o atual Papa é um fato. As escolhas dos maridos não envolvem as esposas, mas um oportuno fair play territorial poderia ser considerado.

Contudo, Newt merece ser apresentado pelo que é, não por sua esposa. Suas posições frequentemente evocam a teologia da prosperidade que o cardeal Ravasi definiu de "uma busca individualista pelo bem-estar". A teologia da prosperidade defende que Deus é o artífice do nosso bem-estar; portanto, se estamos mal, isso significa que algo com Deus não funciona.

Menos famosa é Anna Maria Anders. Na Polônia atual, ela não é um nome ambíguo, já que em 2016 presidiu o Conselho para a proteção da memória da luta e do martírio, para depois se tornar secretária de Estado da chancelaria do primeiro-ministro. Desde setembro, ela é embaixadora da Polônia na Itália. A pouca notoriedade não ilumina nem mesmo o significado da presença de Marion Maréchal, que não se apresenta com o segundo sobrenome que costuma usar, Le Pen. Marine Le Pen é sua tia. Inscrita no Front National, ela compartilhará o programa, que fala do cristianismo apenas para a salvaguarda do patrimônio, "tanto que se trate de monumentos históricos ou do patrimônio rural (igrejas ou qualquer outra coisa)". Parece pouco, mas Marion Maréchal, em 4 de fevereiro, poderia fornecer alguns esclarecimentos a esse respeito.

Mas o grande evento é composto de outra presença, a de Christopher DeMuth, ex-presidente do American Enterprise Institute. Se muitos consideraram esse instituto o verdadeiro planejador da invasão do Iraque, outros deveriam lembrar do quanto aquela invasão causou de preocupação ao papa polonês, já doente. Até DeMuth poderia se lembrar de que em 16 de março de 2003, no Angelus, o próprio João Paulo II disse:

Pertenço àquela geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos mais jovens que eu, que não tiveram essa experiência: "Nunca mais guerra!", como Paulo VI disse em sua primeira visita às Nações Unidas. Temos que fazer tudo o que pudermos! Sabemos bem que não é possível a paz a qualquer custo. Mas todos sabemos o quão grande é essa responsabilidade. E, portanto, oração e penitência!

Cada um é dono de fazer a conferência que quiser e no dia que lhe for mais conveniente, mas o que João Paulo II tem a ver com os nostálgicos da invasão do Iraque, os organizadores da restauração de edifícios de culto como único ato de redescoberta do própria bagagem de valores cristãos, quase como se as pedras contassem mais do que preces, e com os nostálgicos da batalha de Lepanto, quando o culto mariano de João Paulo II era completamente diferente, é realmente difícil de entender. Mas no dia 4 de fevereiro teremos chance de entender.

A conferência é patrocinada pelo The Bow Group (Reino Unido), Center for European Renewal (Pises Baixos), Danube Institute (Hungria), Edmund Burke Foundation (USA), Herzl Institute (Israel), International Reagan Thatcher Society (USA), Nazione Futura (Itália).

 

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