Papa Francisco convoca padre argentino para coordenar resposta vaticana à crise do coronavírus

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17 Abril 2020

No dia 8 de abril deste ano, o papa Francisco nomeou o padre e teólogo argentino Augusto Zampini Davies como secretário adjunto do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral – SDHI, pondo-o em uma posição fundamental para ajudar na formulação não apenas da resposta da Santa Sé à pandemia de Covid-19 como também na reflexão sobre os impactos da doença nas mudanças sociais e econômicas que surgirão após a crise.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 15-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em entrevista exclusiva à revista América, o padre Zampini disse: “O futuro começa hoje, e devemos ter a consciência de que as decisões que estão sendo tomadas pelos governos e líderes mundiais nestes meses moldarão o futuro do mundo”.

Zampini crê que a atual crise mundial oferece “uma oportunidade inédita de transformação, para um mundo melhor, mais saudável e menos injusto”. Em seu novo cargo, ele espera poder ajudar a Santa Sé a exercer pressão nesse sentido.

E como nenhum governo ou instituição tem ideias realmente claras do que fazer, “estamos diante de uma oportunidade única para a Santa Sé e a Igreja lançarem luz sobre a situação e propor ideias também sobre pacotes de ajuda que estão sendo preparados para tentar garantir que não se repitam os erros cometidos em 2008, quando o foco voltou-se principalmente para o salvamento das grandes instituições financeiras. Dessa vez, eles também devem trabalhar para resgatar as pessoas”.

O religioso observou que, embora a crise mundial de 2008 tenha sido principalmente econômica, a crise atual é econômica e ecológica e diz respeito à saúde e à segurança alimentar, à necessidade de garantir que as pessoas tenham água potável, segurança internacional, segurança cibernética, assistência médica, emprego e muito mais.

Por exemplo, ele explicou que, se considerarmos criar um sistema mundial de saúde, o que esta pandemia tem mostrado é que será necessário transferir recursos de outras áreas, como a dos investimentos em guerra e armamentos. Será preciso também acabar com os conflitos, como o Papa e o secretário-geral das Nações Unidas vêm implorando. Da mesma forma, será necessário reduzir ou perdoar a dívida dos países em desenvolvimento para que estes possam lidar com a crise e reconstruir suas economias.

Zampini enfatizou que a questão do trabalho é central para a reestruturação da economia mundial. Ele observou que os indicadores socioeconômicos preveem que muitos outros milhões de pessoas poderão estar sem trabalho após a pandemia. Disse que, embora os que estão no setor formal de emprego possam ter seguro-desemprego como forma de proteção, os do setor informal podem não ter a mesma tutela.

Como nenhum país pode se dar ao luxo de ter 40 a 60% de sua população em assistência social, existe a necessidade premente de encontrar maneiras de criar novos empregos.

Mas que tipo de trabalho pode ser esse? Segundo o entrevistado, é necessário pensar no futuro, como o Papa tem pedido.

Zampini já trabalhava no dicastério (termo vaticano para “departamento” ou “ministério”) voltado ao serviço humano e integral no momento em que foi nomeado. Quando o papa Francisco criou este departamento em 2016, o cardeal Peter Turkson o convidou para coordenar a unidade de Desenvolvimento e Fé, que lida com economia e finanças, trabalho e movimentos sociais, povos indígenas, paz e novas tecnologias. Em específico, este setor busca promover um modelo de desenvolvimento baseado em valores religiosos que seja inclusivo e sustentável. O cardeal o conhecia bem, disse Zampini, pois eles haviam se encontrado em eventos anteriores sobre ecologia e a encíclica papal Laudato Si’.

Então, quando a pandemia de Covid-19 varreu o mundo, o papa Francisco, segundo também Zampini, sentiu a necessidade urgente de o Vaticano não só responder à emergência de saúde, mas também olhar para o futuro, para ver como a Igreja poderia ajudar a moldar o mundo que nasce hoje em meio à crise. Francisco confiou ao SDHI esta tarefa e convocou reuniões com seus membros, incluindo Zampini, para discutir o caminho a seguir.

Em 7 de abril, Francisco telefonou-lhe e disse que o queria no comitê diretor da força-tarefa, chefiada por Turkson, “para injetar uma maior agilidade na tomada de decisões”, juntamente com o monsenhor francês Bruno-Marie Duffé, secretário do SIHD. Esse comitê responde diretamente ao papa Francisco. Zampini descreveu o Papa como “um homem em missão neste momento da história”.

Segundo ainda Zampini, a força-tarefa identificou cinco áreas de concentração. O primeiro diz respeito à resposta humanitária imediata à emergência de saúde, em relação à assistência humanitária e pastoral dada a pessoas infectadas, e ao apoio a hospitais e igrejas locais. A Caritas Internationalis coordena esse trabalho em sintonia com os demais departamentos do Vaticano e com o subsecretário do SIHD, o mons. Segundo Tejado Muñoz, que chefia esta unidade.

A segunda área envolve a análise e reflexão sobre o que está acontecendo no mundo durante a pandemia e o que deve acontecer depois. Zampini já coordenava esta unidade antes de sua nomeação.

Este setor tem analisado a dimensão ecológica da pandemia e o que é necessário para evitar futuros surtos. Essa é uma área crucial, porque a pandemia resultou da maneira como “tratamos os animais e como tratamos a natureza”, disse ele.

O padre Zampini vê uma necessidade de conversão e “mudança radical” em termos de cuidado da criação, como o papa Francisco pede em Laudato Si’. O sacerdote argentino está convencido de que essa mudança “é possível” agora, depois da experiência das pessoas com a pandemia e a quarentena. O SIHD tem trabalhado com várias instituições, incluindo o Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático e as Pontifícias Academias de Vida e Ciências Sociais.

Zampini disse que esse departamento tem colaborado com outras instituições públicas e privadas do mundo inteiro, além de universidades como Georgetown, academias pontifícias e movimentos sociais. O setor colabora com equipes econômicas criadas nos últimos três anos e se relaciona com economistas importantes, como Mariana Mazzucato, da University College London, bem como jovens economistas e empreendedores aproximados pela iniciativa do Vaticano chamada A Economia de Francisco. Esse evento foi adiado por causa da crise, mas poderá acontecer em Assis ainda este ano.

A força-tarefa também se concentrará na comunicação, disse o padre. Aqui, o objetivo é encontrar formas de compartilhar os resultados das análises e reflexões com o mundo em geral e colaborar com outras organizações. Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para Comunicações, lidera essa frente, auxiliado pelo cardeal jesuíta Michael Czerny, subsecretário do SIHD para refugiados e migrantes.

A quarta área de atenção da força-tarefa se concentrará nas relações da Santa Sé com os Estados. Zampini explica que, como um pequeno Estado, o Vaticano mantém relações diplomáticas com 183 países, interagindo e compartilhando informações com eles. Como isso envolve a Seção para as Relações com os Estados, da Secretaria de Estado, esta operação é coordenada pelo subsecretário da citada seção, o monsenhor polonês Mirosław Stanisław Wachowski, em colaboração com o rev. Fabbio Baggio, subsecretário do SIHD.

A quinta área de foco da força-tarefa diz respeito à arrecadação de fundos, disse ele, não apenas para financiar o trabalho da força-tarefa em um momento no qual o financiamento do Vaticano irá inevitavelmente se esgotar devido ao fechamento dos museus do Vaticano (sua principal fonte de renda), mas também para prestar assistência às igrejas locais, à medida que elas procuram responder à pandemia de maneira holística. O administrador do SIHD, Nicola Riccardi, OFM, lidera esta unidade.

Zampini sente-se bastante qualificado para o seu novo e desafiador cargo em meio a uma crise sem precedentes. Nascido em Buenos Aires, em julho de 1969, formou-se em direito pela Universidade Católica da Argentina em 1993 e, depois, trabalhou como advogado no Banco Central da Argentina; mais tarde, atuou no escritório de advocacia internacional Baker & McKenzie.

“Descobri minha vocação tarde, aos 27 anos, quando fui com um grupo de jovens para Salta”, no norte da Argentina, disse. Ele entrou para o seminário e foi ordenado na Diocese de San Isidro, em 2004. Posteriormente, estudou teologia moral no Colégio Máximo, Universidade de Salvador (2004-2006), e serviu em quatro paróquias diferentes, incluindo Nuestra Señora de Fátima, em Dique Luján, em Tigre, paróquia com grande número de pessoas carentes.

Em 2005, conheceu Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires (diocese vizinha), que manifestou interesse em seu trabalho com jovens carentes e o ajudou de maneira concreta, fornecendo um motor novo para o barco da paróquia que estava estragado. Mas, segundo o padre, ele realmente só conheceu o papa durante o sínodo pan-amazônico para o qual Francisco o nomeou como especialista.

Depois de trabalhar no ministério paroquial na Argentina, Zampini foi enviado em 2009, à Inglaterra para dar continuidade aos estudos. O religioso possui os títulos de mestrado em desenvolvimento internacional e economia pela Universidade de Bath, em 2010, e doutorado em teologia, pela Universidade de Roehampton, em Londres, obtido em 2014, com uma tese que vinculava as teorias econômicas de desenvolvimento de Amartya Sen, economista indiano e ganhador do Nobel, com os princípios do ensino social católico.

Na sequência, Zampini realizou pesquisa de pós-doutorado como bolsista no Instituto Margaret Beaufort, da Universidade de Cambridge (2013-2014). Sua área de especialização é teologia moral, com foco em economia e ética ambiental. Ele é membro honorário das universidades de Durham e Roehampton, no Reino Unido, e da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul. Desde 2004, leciona em diferentes universidades da Argentina e do Reino Unido.

Enquanto esteve na Inglaterra, Zampini trabalhou em paróquias de Bath e Londres e atuou por três anos como consultor teológico da Cafod, agência internacional de desenvolvimento católico do Reino Unido, em Londres. Com a Cafod, ele visitou Serra Leoa no final de um surto de ebola, além da Etiópia, Quênia, Bangladesh, Sri Lanka e Colômbia.

 

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