Acreditávamos ser invencíveis. Artigo de Francisco de Roux

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04 Abril 2020

“ As forças espirituais que originaram a natureza colocam conhecimento em cada ser. Há conhecimento na tartaruga, na árvore, na pedra, na água... os seres humanos precisam aprender com esses conhecimentos. Mas temos matado esses seres e, matando-os, matamos conhecimento. É por isso que sabemos cada vez menos, e é por isso que nos matamos, e pode ser que a natureza acabe matando todos nós. O coronavírus tirou-nos da ilusão de sermos deuses. Ficamos confusos e humilhados olhando aumentar as cifras reais de infestados e mortos. E não sabemos o que fazer.”, escreve Francisco de Roux, jesuíta colombiano, filósofo, economista e presidente da Comissão da Verdade do Acordo de Paz da Colômbia, em artigo publicado por Revista Semana e CPAL Social, 02-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Acreditávamos ser invencíveis. Quadruplicaríamos a produção mundial nas três décadas seguintes. Em 2021 teríamos o maior crescimento deste século. Matávamos 2 mil espécies por ano fazendo alarde da brutalidade. Havíamos estabelecido como moral que bom é tudo o que aumenta o capital e mau é o que o diminui, e governos e exércitos cuidavam do dinheiro, mas não da felicidade.

Achávamos normal que os 10% mais ricos do mundo, e a Colômbia incluída, ficassem a cada ano com 90% do crescimento da renda. Havíamos excluído os povos indígenas e os negros como inferiores. Os jovens se foram do campo porque era vergonhoso ser campesino. Estávamos pagando pesquisas para estender a morte para mais de 150 anos.

Havia pergunta incômodas. Para calá-las inventamos que podíamos prescindir da realidade. Com Baudrillard e outros filósofos nos alienamos em um mundo “des-realizado” e escolhemos líderes poderosos que deixaram de lado a verdade; e nos colocamos a consumir futilidades, fantasias e emoções que encontrávamos na Netflix, Youtube, Facebook, nas celebridades e até na pornografia, onde enfiávamos a cabeça como avestruzes.

Restavam os povos indígenas e os jovens e grupos de mulheres e de homens que nos diziam que havíamos perdido o caminho da realidade e do mistério. Que as condições estavam dadas para uma fraternidade planetária. Os chamávamos de atrasados e inimigos do progresso. Declarar-se ateu, que pode ser uma decisão intelectual honesta, tornou-se, para muitos, amostra de autossuficiência. O Homo Deus, o Homem Deus, foi o título do livro de Noah Harari que devoramos.

Porém, de imediato a realidade chegou. O coronavírus tirou-nos da ilusão de sermos deuses. Ficamos confusos e humilhados olhando aumentar as cifras reais de infestados e mortos. E não sabemos o que fazer. Diante desta realidade, há alguns dias, Harari chamou para o espírito de solidariedade que não via antes.

A vulnerabilidade

Definitivamente, não estamos seguros nunca. Dentro de algumas décadas, todos nós iremos embora com ou sem a covid-19. O rolo compressor da morte combina com nossas aparências estúpidas. "Pallida mors aequo pulsat pede". A pálida morte põe seu pé igualmente sobre todos. E, no dia em que chega, ninguém leva nada. Sairemos sós. Sem cartão de crédito, sem carro, sem casa. Iremos com o que fomos no amor, na amizade, na verdade, na compaixão e com o que fomos na mentira, no egoísmo, na desonestidade. Assim, enfrentaremos o mistério e ele nos lembrará ou rejeitará a história.

E, no entanto, viver a vulnerabilidade com grandeza é viver autenticamente, em solidariedade e interdependência, porque entendemos que somos todos carregados um pelo outro, protegidos um pelo outro. Não importa raça, gênero, país de origem, classes sociais, dinheiro ou religião. É a mensagem da covid-19.

A vulnerabilidade nos leva a incluir os demais, sem acreditar que somos superiores. Permite celebrar cada dia como se fosse o último. Isso nos dá a coragem do risco e a audácia de anunciar com alegria a esperança em meio às incertezas.

A vulnerabilidade ocorre para que os governos entendam o que é o Estado. A única instituição que nós, como cidadãos, temos de garantir a todos os homens e mulheres igualmente, nos bons e maus momentos, as condições de dignidade. É para isso que servem os presidentes e ministros, a Polícia e o Exército, e os juízes e o Congresso. Todos vulneráveis.

A dura verdade

Na Comissão da Verdade da Colômbia, ouvimos muitas vezes que é um erro procurar a verdade do que aconteceu no conflito. “Deixem isso assim”, é a expressão proveniente muitas vezes de um temor autêntico. Mas a realidade da pandemia mostra que não podemos escapar da verdade. Que temos a responsabilidade de esclarecer isso. Portanto, a pergunta global hoje é sobre a verdade da covid-19, que elementos a compõem, como ela se expande, como pode ser interrompida? Não aceitamos que eles nos digam que é possivelmente a montagem de um susto, que na melhor das hipóteses teremos saído em um mês, que com a oração de uma novena será curada. Nem suposições, nem ilusões e nem crenças nos servem. Nós precisamos saber a verdade.

Talvez agora entendamos por que continuamos buscando a verdade do conflito armado interno colombiano para enfrentar realidades que nos destroem. Não podemos abandonar a obrigação de esclarecer o assassinato de mais de 300 mil civis e 9 milhões de vítimas sobreviventes. E enquanto não conhecermos as causas estruturais e assumirmos as obrigações que surgem dessa verdade, continuaremos o que segue hoje, com 10 mil pessoas armadas no ELN, grupos de dissidentes e narcotráfico, assassinato de líderes e colapso de comunidades.

Estamos de acordo com as medidas extraordinárias tomadas pelo governo e pelos prefeitos diante do coronavírus. São decisões do poder estatal que mostram que o extraordinário é possível diante de uma realidade mortal quando há vontade política. Quando tomaremos medidas extraordinárias contra a violência política ligada ao narcotráfico que foi muito mais letal do que a pandemia entre os colombianos?

A mensagem dos Kogui

Há três semanas os Mama Kogui nos receberam em La Sierra a convite de Juan Mayr. Compartilharam conosco a dor da destruição do seu habitat e a dificuldade para preservar os locais sagrados. Estavam inteirados da pandemia e a mensagem que nos deram foi simples e clara:

As forças espirituais que originaram a natureza colocam conhecimento em cada ser. Há conhecimento na tartaruga, na árvore, na pedra, na água... os seres humanos precisam aprender com esses conhecimentos. Mas temos matado esses seres e, matando-os, matamos conhecimento. É por isso que sabemos cada vez menos, e é por isso que nos matamos, e pode ser que a natureza acabe matando todos nós.

A mensagem não é para deixar o que foi ganho com a ampliação da expectativa de vida, a educação e a tecnologia que nos comunica. É nos convidar a mudar todas as loucuras que nos distanciaram da natureza e de nós mesmos e nos precipitaram em egoísmo, injustiça, desigualdade, violência e mentira.

O povo em primeiro

Estamos confinados. Trabalhamos pelas redes. Na Comissão da Verdade, ouvimos as gravações de 12 mil vítimas. Nós lemos. Nós contrastamos opiniões. Como nós, milhões na Colômbia trabalham em casa e ganham sua renda. Mas há milhões que comem do que ganham por dia, que não podem comprar um pacote de batatas porque pagam todas as noites pela libra de arroz e pelo quarto de óleo.

O que será deles? Como eles vão sobreviver trancados quando passarem três semanas, ou 20? São perguntas de mães solteiras populares, de milhares de pequenas iniciativas familiares que vendem na rua, de milhões de lugares onde a casa é uma habitação superlotada de dois cômodos, onde cinco ou sete pessoas vivem da busca diária. Essas perguntas colocam à prova o Estado e a solidariedade de todos nós. Se todos dependermos de todos e não respondermos, essa multidão sairá e pegará o que há nas lojas e supermercados, porque ninguém pode deixar sua família morrer. Em extrema necessidade, tudo é comum, escreveu o teólogo Tomás de Aquino. Se essa multidão sair às ruas, o vírus nos invadirá.

O governo nacional e os prefeitos precisam ir além para atender às demandas da crise. Empresas privadas e bancos precisam agir. E é uma obrigação pessoal de cada um de nós, cidadãos. Parece desproporcional dizê-lo, mas é uma questão de vida ou morte. Todos na cama ou todos no chão. Seremos capazes de nos comportar como seres humanos desta vez?

O silêncio

As ruas estão vazias. A loucura de correr para chegar a tempo parou. A ansiedade insuportável do trânsito não nos pega. Se quisermos, finalmente poderemos ficar em silêncio. Se o fizermos, temos a oportunidade de acessar profundamente dentro de nós mesmos, conectar-se e entender. Nós podemos fazer isso em família. É o momento de medir o tempo em frente à televisão e ao telefone celular para abrir espaço à realidade do mistério que se sente quando nos abandonamos silenciosamente ao que vem de nossa experiência interior. Lá, acessamos a sabedoria que esclarece a razão da vida e esclarece a consciência e as responsabilidades pessoais e públicas.

Lá, a determinação de seguir em frente sabendo que nossa própria fragilidade faz sentido. A necessidade que temos um do outro. O significado da dignidade autêntica que só existe se as condições dela forem dadas a todos. A viabilidade do que nos parecia impossível: generosidade, solidariedade e, além da justiça, reconciliação e perdão. A coragem de viver em meio à vulnerabilidade.

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