Quando os manifestantes fazem referência a Santo Tomás de Aquino

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31 Janeiro 2020

Omnia sunt communia”: por trás dessas três palavras latinas, que às vezes florescem nas ruas, o filósofo poderá notar uma discreta, mas sólida, homenagem ao teólogo cristão Santo Tomás de Aquino.

O comentário é de Denis Moreau, filósofo, publicado por La Vie, 22-01-2020. A tradução é de André Langer.

Durante os vários movimentos sociais que nosso país conheceu nos últimos anos, vimos várias vezes (em uma igreja em Poitiers, em Nice, na Rua Saint-Martin em Paris...) um grafite misterioso composto por três palavras latinas aparecer nas pareces: “Omnia sunt communia”, “Tudo é comum” ou “Todas as coisas pertencem a todos”. Um grafite em latim: isso muda agradavelmente os tradicionais “Foda-se a polícia” ou “Foda-se o sistema”. E não me venha dizer, depois disso, que o nível do debate político baixou! Especialmente porque, surpreendentemente, essa afirmação – provavelmente vinda do movimento anarquista – tem suas raízes na história do mais venerável pensamento cristão.

A ideia geral, mas não a citação exata, provém, sem dúvida, da passagem dos Atos dos Apóstolos (2, 42-47), que descreve o modo de vida fraterno da primeira comunidade cristã e que serviu de modelo para muitas utopias coletivistas: “Todos os crentes colocavam em comum todas as coisas” (no latim da Vulgata: “Omnes qui credebant habebant omnia communia”).

Mas, rigorosamente falando, trata-se de uma citação daquele que o Papa Leão XIII designou, na Encíclica Aeterni Patris (1879), como o mestre dos teólogos católicos. Em sua monumental Suma Teológica – IIa IIae, questão 32, artigo 7, resposta 3 –, Tomás de Aquino (1225-1274) defende a ideia de que, quando uma pessoa ou um grupo está em situação de miséria ou extrema angústia, pode ser legítimo abolir a propriedade privada para suprir suas necessidades. Em latim, diz-se: “In casu extremae necessitatis, omnia sunt communia”, isto é: “Em caso de extrema necessidade, todas as coisas pertencem a todos”.

Em 1525, “Omnia sunt communia” foram, diz-se, as últimas palavras ditas aos seus executores do discípulo dissidente de Lutero, Thomas Müntzer, que pregou a revolta dos camponeses alemães contra os príncipes que os exploravam. Finalmente, quase cinco séculos depois, encontramos essa citação nos textos do Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, parágrafo 69), em uma passagem dedicada ao “destino universal dos bens”, que o Concílio recorda que foram criados por Deus para toda a humanidade.

É impressionante ver Tomás de Aquino e o que hoje chamamos de “Doutrina Social da Igreja” alimentar, assim, mesmo que de maneira inconsciente, a denúncia das injustiças e as contestações políticas contemporâneas. É, certamente, uma questão delicada saber se a teoria tomista se aplica, e em que medida, à atual situação econômica. Mas quaisquer que sejam as nossas opiniões políticas, essa tese, mesmo reduzida a um slogan, tem pelo menos o mérito de chamar a nossa atenção para o problema dos “bens comuns” (água, ar, conhecimento, etc.) que um certo ultraliberalismo tem a tendência infeliz de querer privatizar, e de nos lembrar, após o Vaticano II e nestes tempos em que crescem as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres, que “os bens da Criação devem fluir equitativamente entre as mãos de todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade”.

Durante um bloqueio estudantil em dezembro de 2019, esse famoso grafite foi encontrado nas paredes da Universidade de Nantes, acrescido de duas palavras: “Flatus vaginalis” – ou seja, literalmente, “flato vaginal”. O significado dessa adição especificamente nantesa não é claro: trata-se de uma alusão à expressão latina clássica “flatus vocis” (“palavras esvaziadas de sentido”), para indicar, de maneira crítica, que “Omnia sunt communia” é apenas um slogan vazio? Ou devemos, ao contrário, ver nela uma lisonjeira reivindicação feminista que nos convida a pensar na comunidade de bens fora das estruturas patriarcais do capitalismo? Ou ainda uma outra interpretação? (Eu deixo esta pergunta, leitores, à sagacidade de vocês: não hesitem em me enviar suas sugestões por intermédio da redação, que irá repassá-las.) Uma coisa, pelo menos, parece certa: “Flatus vaginalis” não é uma citação de Santo Tomás de Aquino.

 

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