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26 Março 2020

Passada a primeira e brutal sacudida da realidade, a perplexidade começa a dar lugar ao debate de ideias sobre qual caminho a sociedade ocidental tomará, a partir da pandemia. Neste combate filosófico, no momento, destacam-se dois pugilistas: o sul-coreano Byung-Chul Han, que adverte que o êxito da luta contra o vírus através da vigilância digital gerará um capitalismo autoritário de estilo asiático, e o esloveno Slavoj Zizek, que avalia que esta crise supõe o fim do capitalismo e abre a porta ao retorno de um comunismo idealizado.

A reportagem é de Gemma Tramullas, publicada por El Periódico, 24-03-2020. A tradução é do Cepat.

Entre o branco e o preto destas opções, existe uma extensa gama de tonalidades, que vai desde os pensadores que afirmam que tudo mudará, aos que apostam que tudo continuará mais ou menos igual. Também há posições que, não por menos difundidas, resultam menos valiosas. É o caso de Josep Maria Esquirol que, em coerência com o seu popular ensaio La resistencia íntima, prefere o recolhimento e “não falar muito”.

Ainda que, como afirma Daniel Innerarity, em momentos de desespero, a sociedade recorre aos filósofos, o certo é que o primeiro a expor amplamente sobre como fica a questão agora (e não só sua opinião) foi um historiador. Em um artigo publicado pelo Financial Times, que se tornou viral, o israelense Yuval Noah Harari escreveu que “as decisões que os governos tomarem nas próximas semanas mudarão o mundo para sempre”.

O autor do best-seller Sapiens afirma que estamos diante de duas escolhas possíveis: “a primeira é entre a vigilância digital totalitária (na linha que denuncia Byung-Chul Han) e o empoderamento cidadão” e a segunda “entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global” (linha de Slavoj Zizek).

Haverá um ‘pós-covid?’

Josep Ramoneda se mostra prudente: “Está claro que isto é o fim de um ciclo, mas haverá realmente um ‘pós-covid’?”, reflete o ex-diretor do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. “Eu não me atrevo a dizer ainda. Em nossos sistemas de poder existe a tendência a tentar virar a página como se não tivesse acontecido nada, mas também é verdade que as grandes mudanças da humanidade foram feitas com guerras, crises econômicas e epidemias”.

Ramoneda se preocupa com o prestígio das soluções autoritárias e que o medo leve os cidadãos a aceitar coisas que antes seriam consideradas inaceitáveis. “A sociedade havia sido reduzida a uma soma de indivíduos e só voltaram a nos juntar diante de uma ameaça de morte”, aponta. “Contudo, paradoxalmente, para nos juntar nos separaram, obrigando-nos a deixarmos de nos tocar, que é parte de nossa essência”. Diante desse paradoxo, Ramoneda evita fazer prognósticos sobre futuras mobilizações populares.

Por sua parte, Victòria Camps destaca que desta crise “deveríamos extrair uma lição de humildade”, mas teme que esta aprendizagem possa cair no esquecimento, enquanto o país estiver se recuperando. Para a filósofa, Prêmio Nacional de Ensaio 2012, é especialmente importante analisar a experiência do confinamento.

“De golpe, estamos diante de uma limitação da liberdade impensável, algumas semanas atrás”, afirma. “Nós a aceitamos porque temos medo do contágio, o nosso e o dos outros. Tornamo-nos disciplinados e obedientes, em parte por coação, mas também porque entendemos que temos que nos cuidar. A cultura individualista ficou estacionada pelo bem comum e, por causa da incerteza, estamos recuperando a confiança no estado e no governo, pois necessitamos de alguém que nos diga o que temos que fazer”.

A mãe de todas as crises

No entanto, nem sequer a mãe de todas as crises conseguiu frear completamente o ritmo frenético da sociedade para que pare e pense. Apesar de tudo, da dor e o horror, muitas pessoas continuam trabalhando, indo às aulas, fazendo exames, consumindo cultura e ficando com os amigos on-line, aprofundando essa sensação de perplexidade.

“A digitalização elimina a realidade”, escreve Byung-Chul Han. Neste contexto, teve muito eco um tuíte de Santiago Alba Rico: “Esta sensação de irrealidade se deve ao fato de que, pela primeira vez, está ocorrendo algo real conosco. Ou seja, está acontecendo algo com todos nós juntos e ao mesmo tempo. Aproveitemos a oportunidade”.

Naomi Klein não é filósofa, mas reserva-se à autora de A Doutrina do Choque um lugar proeminente neste debate. Ela foi uma das primeiras a dar a sua visão: “Essa crise, assim como as anteriores, pode ser a catalisadora para que toda a ajuda caia nos interesses dos mais ricos, incluindo os responsáveis por esta crise, ao passo que as famílias perdem suas poupanças e os pequenos negócios fecham”.

Sendo ainda mais pessimista, a norte-americana Judith Butler também se manifestou. Olhando para o seu país, prevê para o próximo ano “um doloroso cenário em que alguns seres humanos imporão o seu direito de viver à custa de outros”.

Voltando ao combate entre Han e Zizek, o esloveno (autor do ensaio ‘Sobre a violência’ e conhecido por não segurar a língua) concorda com Butler: “Estamos nos preparando para aplicar a lógica mais brutal da sobrevivência do mais forte?”, escreve. “A escolha está entre isto ou um tipo de comunismo reinventado [...] Acabou-se o de ‘América (ou seja lá quem for) primeiro!’. A América só pode ser salva por meio da colaboração global”.

Diante da menção ao “comunismo”, ainda que seja em um sentido de comunitarismo global, Han saltou como uma mola e escreveu no jornal El País que, longe de ser a sepultura do capitalismo, a pandemia será a porta-voz do êxito do modelo chinês e, junto à inteligência artificial, provocará uma nova mutação do capitalismo.

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