É assim que se combatem as desigualdades. Entrevista com Jeffrey Sachs

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16 Outubro 2019

Jeffrey Sachs ocupa um lugar especial entre os economistas. No Centro para o Desenvolvimento Sustentável, que ele dirige na Universidade Columbia, em Nova York, ele conseguiu reunir talentos e energias de disciplinas muito diferentes: não apenas a economia, mas também as ciências biofísicas, ambientais e sociais. Na vanguarda dos estudos sobre sustentabilidade e mudança climática, Sachs também é o estudioso a quem as Nações Unidas confiaram o Relatório Mundial da Felicidade, o estudo periódico que substitui indicadores como o Produto Interno Bruto, para medir o nível de felicidade e harmonia das nações.

Entre os temas aos quais ele se dedicou, está o impacto, no trabalho humano e na dignidade das pessoas, daquela que é definida de quarta revolução industrial. Ou seja, o advento de formas de produção e serviços cada vez mais automatizadas, com um papel crescente de inteligência artificial. Como em qualquer revolução industrial, não há necessidade de ser "luddistas" ou inimigos do progresso para perceber os riscos de colapsos sociais, traumas graves e duradouros para os mais fracos, as pessoas menos preparadas. Foi esse o tema sobre o qual a Pontifícia Academia de Ciências Sociais convidou Sachs a apresentar uma conferência em Roma.

A entrevista é de Federico Rampini, publicada por la Repubblica, 14-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nesta entrevista ao la Repubblica, o economista estadunidense antecipa alguns dos temas de sua apresentação e aborda outros relacionados à atualidade: do desafio chinês às eleições estadunidenses.

Eis a entrevista.

Seus colegas economistas muitas vezes quiseram minimizar e descomplicar as perdas de postos de trabalho causadas pela automação. A história econômica - eles dizem - ensina que a perda de antigos postos é acompanhada pela criação de novas atividades. Você não é um tecno-otimista ingênuo, enfatizou repetidamente que aqueles que perdem um emprego hoje, podem encontrar amanhã outro, menos remunerado. O que devemos fazer para curar os traumas causados pela automação e inteligência artificial?

Devemos redistribuir a renda dos vencedores (ou seja, os proprietários das indústrias tecnológicas) para aqueles que foram deixados para trás, os perdedores. Essa redistribuição deve incluir um sistema de saúde público e universal, a educação e a requalificação, moradias populares acessíveis e até mesmo complementação de renda para os trabalhadores menos remunerados. Essas intervenções devem ser financiadas com maior incidências fiscais sobre as empresas e sobre os patrimônios dos ricos.

Se a produção em novas atividades automatizadas exige investimentos de alto aporte de capital, o risco é que os proprietários do capital sejam os maiores beneficiários do progresso tecnológico. Como evitar que as desigualdades aumentem ainda mais?

Sempre transferindo a pressão tributária sobre os lucros das empresas. Além disso, as inovações tecnológicas devem ocorrer com a modalidade ‘open source’, isto é, o acesso livre e gratuito à propriedade intelectual. É assim que podemos garantir uma ampla e justa difusão das inovações digitais no campo da aprendizagem, saúde, governo, finanças e em muitos outros setores.

A economia dos EUA, após dez anos de crescimento, está próxima do pleno emprego. Mas o que dizer a todos aqueles que deixaram a força de trabalho e, portanto, são invisíveis nas estatísticas de desemprego? Existe uma parte da população ‘não empregável’, condenada à inatividade por ser desprovida de talentos a serem aproveitados no mercado de trabalho?

Se observarmos a taxa de atividade e não a taxa oficial de desemprego, vemos que, de fato, aqueles que têm um emprego, como porcentagem da população em idade ativa, estão muito abaixo dos picos do passado. A taxa de atividade hoje é de cerca de 61%, enquanto era de 64% ainda no ano 2000. Existem milhões de trabalhadores desanimados, que não conseguem mais encontrar empregos remunerados.

Do empobrecimento dos trabalhadores e da classe média às crescentes desigualdades, quanto depende do progresso tecnológico e quanto da globalização, ou seja, a liberalização das trocas?

A maioria dessas mudanças deriva da inovação tecnológica. Há um aceso debate entre os estudiosos, que estão divididos sobre essas questões. Eu diria que em 70-75% pesa a tecnologia, os 25-30% restantes provêm do impacto do comércio exterior e da concorrência de países emergentes.

Tudo isso desempenha um papel nos levantes populistas que conturbaram a geografia política nos EUA, Inglaterra e em outros lugares?

Certamente um fator-chave no crescimento do populismo é a crescente diferença de renda entre aqueles com um diploma ou pós-graduação e todos os outros trabalhadores. Os menos instruídos são a base eleitoral de muitos políticos populistas, entre os quais certamente Donald Trump. No entanto, os populistas não oferecem soluções para essa base social. Trump, aliás, está realmente piorando as coisas para quem votou nele. Ele é um enganador, não ajuda os trabalhadores. Sua ação de maior impacto foi a redução de impostos sobre os ricos.

Em matéria de inovação, há muito assumimos que os EUA, com seu Vale do Silício, sempre fosse líder. Mas subestimamos o avanço da China? Quais são as consequências se a China ultrapassar os Estados Unidos em setores-chave como a Inteligência Artificial?

Na China, está ocorrendo um boom nas tecnologias domésticas, inventadas localmente e de forma independente. Inteligência artificial, 5G, robótica, comércio on-line, métodos de pagamento digital. A China já alcançou a paridade com os Estados Unidos em muitas tecnologias. A principal consequência disso é a seguinte: os Estados Unidos e a União Europeia deveriam investir mais recursos públicos em ciência e tecnologia. É um investimento importante. Em vez disso, não deveríamos continuar as guerras comerciais com a China, que não resolvem nada.

No debate entre os candidatos democratas à indicação para as eleições presidenciais de 2020, você vê emergir novas ideias sobre como lidar com as consequências da quarta revolução industrial?

Os democratas são muito melhores que Trump, mas ainda não chegaram a um consenso ou definiram uma estratégia. A maioria dos candidatos deseja mais regras sobre o setor de tecnologia, mais impostos sobre os ricos e mais serviços públicos para trabalhadores e pobres. Todas coisas justas e importantes. Elizabeth Warren e Bernie Sanders falam sobre desmembrar gigantes digitais para ter mais concorrência. Andrew Yang introduziu no debate a renda universal de cidadania. Se um democrata vencer, certamente teremos políticas mais progressistas. Os Estados Unidos precisam muito disso porque sofrem de enormes desigualdades na renda, riqueza, padrões de vida e graves injustiças no sistema tributário.

 

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