Lembrança de são Oscar Arnulfo Romero. Um homem rico de verdade. Artigo de Jon Sobrino

Revista ihu on-line

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

Mais Lidos

  • Comunhão na Igreja dos EUA ''já está fraturada''. Entrevista com Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Vozes que desafiam. A vida de Simone Weil marcada pelas opções radicais

    LER MAIS
  • A disrupção é a melhor opção para evitar um desastre climático, afirma ex-presidente irlandesa

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

11 Setembro 2019

"Monsenhor Romero não apenas amava os pobres e os oprimidos do país, mas também os defendeu. Semana após semana, defendeu os pobres e as vítimas com a verdade que proclamava publicamente em suas homilias. Estimulou a organização popular e a assistência legal para defender os camponeses e as vítimas. Quando a repressão se acirrou, abriu as portas do seminário central de San José de la Montana para acolher os camponeses que fugiam de Chalatenango, algo que certamente incomodou vários outros bispos".

O relato é Jon Sobrino, nascido em 1938 em Barcelona, de uma família basca e completou seus estudos na Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Jesuíta da província da América Central desde 1957, vive em El Salvador desde 1974 e dirige o Centro Monseñor Romero na Universidade Católica da América Central, com sede em San Salvador. Foi membro do comitê de gestão internacional da “Concilium”. Suas publicações incluem "Monsenhor Romero" (San Salvador, 1989) e "O Martírio dos Jesuítas Salvadorenhos" (La Piccola, Celleno, 1990).

O artigo "Óscar Romero: ser humano, cristão e arcebispo exemplar " foi publicado na edição 03/2019 da revista internacional de teologia Concilium e reproduzido L'Osservatore Romano, 10 e 11-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Escrevo de San Salvador, onde eu já vivia há três anos, desde 1977, quando Romero foi nomeado arcebispo, até seu assassinato em 1980. O que estou prestes a dizer é algo conhecido entre nós. Em outros lugares, apesar de Monsenhor Romero ser aceito e até admirado, a abordagem pode ser diferente, e geralmente é.

Acredito que pessoas como Ellacuría - mártir, por sua vez - ou aquele servo que sou eu, podem acrescentar algo, a saber, a experiência pessoal, direta e imediata de Monsenhor Romero. Durante a missa fúnebre, Ellacuría disse: "Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador". Ele não disse isso por causa de sua inteligência aguda, mas por seu contato real com o arcebispo. Da minha parte, também em virtude de um contato pessoal com ele, a primeira coisa que escrevi e disse após o assassinato é que "Monsenhor Romero acreditou em Deus".

O que aconteceu no Vaticano em 14 de outubro de 2018 - sua canonização - foi importante, mas na linguagem dos antigos foi um "acidente". A "substância" foi o Oscar Romero real, sua ação e sua palavra, sua total confiança em Deus, sua total obediência a Deus e sua total dedicação aos pobres e às vítimas deste mundo.

Em El Salvador, em 24 de março de 1980, o dia de seu assassinato, ninguém pensou em termos de canonização, mas muitas pessoas falaram da excelência humana, cristã e como arcebispo de Dom Romero. Chorando, uma mulher camponesa disse: "Mataram o santo". Poucos dias depois, Dom Pedro Casaldáliga escreveu: "São Romero da América, nosso pastor e mártir". Ninguém pensou que teria sido necessário trabalhar em alguma cúria para declará-lo santo.

Não aconteceu como em outras ocasiões. Quando José Maria Escrivá de Balaguer morreu, muitos se precipitaram para conseguir sua canonização. Quando Madre Teresa de Calcutá morreu, a estima por suas virtudes já era grande, sobretudo por sua amorosa parcialidade em relação aos sofredores e aos abandonados, e sua canonização era esperada. Quando o papa João Paulo II morreu, logo ecoou o grito "santo imediatamente".

Nada disso aconteceu quando Oscar Romero morreu. E vale lembrar que, no mesmo dia em que Romero foi enterrado, foram vistos os horrores que o Romero vivo tinha enfrentado: na praça da catedral lotada de gente explodiram bombas, muitos fugiram em busca de abrigo e deixaram para trás pilhas com centenas de sapatos. O próprio delegado oficial do Papa, monsenhor Corripio, entre outros, pediu que o levassem imediatamente ao aeroporto. Por outro lado, há uma foto mostrando seis padres carregando o caixão do monsenhor Romero nos ombros, e entre eles estava o padre Ignacio Ellacuría.

Vamos para a substância. Monsenhor Urioste costumava repetir que Romero foi o salvadorenho mais amado pelas maiorias oprimidas e mais odiado pela minoria dos opressores.

Qual foi então a substância de 14 de outubro? Perguntaram a um camponês quem fosse monsenhor Romero e, sem hesitar, ele respondeu: "Monsenõr Romero disse a verdade. Ele defendeu a nós, pobres. E foi por isso que o mataram." Ou seja, ele viveu e morreu como Jesus de Nazaré.

Ele proclamou a verdade, foi possuído por ela e proclamou-a com paixão. Quando a realidade era positiva para os pobres, Monsenhor Romero proclamava a verdade como evangelho - boas novas - com alegria e exultação. Quando a realidade era negativa, era miséria, opressão e repressão, crueldade, morte - sobretudo para os pobres - monsenhor Romero falava a verdade como uma notícia ruim, denunciando e desmascarando, e dizia isso com dor. Rico em verdade, Romero foi um evangelizador sincero e um profeta incorruptível.

Como "anunciador da verdade", o arcebispo Romero expressou juízos sobre a realidade, sobre toda a realidade. Ele deixou "que a realidade tomasse a palavra" (Karl Rahner) e teve a honestidade de tornar pública a palavra pronunciada pela própria realidade.

Com base nesses princípios, Monsenhor Romero disse a verdade de um modo sem igual no país, nem antes nem depois dele.

Disse a verdade vigorosamente, porque se baseava no princípio essencial e fundamental: "Não há nada tão importante quanto a vida humana, como a pessoa humana. Especialmente a pessoa dos pobres e oprimidos "(16 de março de 1980). Em Puebla, ele perguntou a Leonardo Boff: "Vocês teólogos nos ajudam a defender o mínimo, que é o dom máximo de Deus: a vida". Ele a proclamou em todo momento, para poder dizer "toda" a verdade. É por isso que suas eucaristias nas missas de domingo na catedral podiam durar uma hora e meia ou mais. Ele a disse isso publicamente, "dos telhados", como Jesus pedia, na catedral e através da estação de rádio diocesana Ysax, que mais de uma vez foi objeto de atentados a bomba e sofreu interferência. A sua última homilia teve que pronuncia-la diante de um telefone conectado a um rádio da Costa Rica. A Ysax ainda transmite, mas, sem o monsenhor Romero, perdeu o extraordinário valor que tinha. Romero disse a verdade de um modo popular, aprendendo muitas coisas do povo, de modo que, sem saber, os pobres e os camponeses eram em parte coautores de suas homilias e de suas cartas pastorais: "Vocês e eu escrevemos a quarta carta pastoral" (6 de agosto de 1979); "Vocês e eu fazemos esta homilia" (16 de setembro de 1979). E formulou sentenças notáveis em sua relação com o povo para dizer a verdade: "Sinto que o povo é meu profeta" (8 de julho de 1979); "Fizemos uma reflexão tão profunda que acredito que o bispo tenha sempre muito a aprender com seu povo" (9 de setembro de 1979).

Também foi popular porque monsenhor Romero respeitava e apreciava a "razão", o pensamento do povo, das pessoas simples. E ele evitava ceder à infantilização religiosa, um risco sempre presente na pastoral.

Na América Latina, e certamente em El Salvador, acredito que um bom número de pessoas aceite a "opção pelos pobres". Podemos dizer que já pertença à ortodoxia eclesial, com o risco de que toda a ortodoxia suavize as durezas e dilua o que é fundamental. Sem subestimar as coisas ditas em Puebla sobre os pobres e a pobreza, sobretudo a impressionante litania sobre os rostos dos pobres (n. 32-39), sua multidão (n. 29), as causas estruturais da pobreza e as exigências dos pobres (n. 30), insisto em uma compreensão mais precisa da opção, que aparece na formulação teológica de Puebla. É dito no n.1142 do documento: “Os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus para serem seus filhos, esta imagem foi obscurecida e também escarnecida. Por isso Deus toma sua defesa e os ama”.

Aquele camponês havia entendido bem a opção pelos pobres de Dom Romero: "Ele defendeu a nós, pobres". Não tenho mais nada a acrescentar a esta sentença solene de camponês. Nem à linguagem que ele usou: ele defendeu "nós pobres", ou seja, nós “que somos pobres". A conclusão é que monsenhor Romero não apenas amava os pobres e os oprimidos do país, mas também os defendeu. Semana após semana, defendeu os pobres e as vítimas com a verdade que proclamava publicamente em suas homilias. Estimulou a organização popular e a assistência legal para defender os camponeses e as vítimas. Quando a repressão se acirrou, abriu as portas do seminário central de San José de la Montana para acolher os camponeses que fugiam de Chalatenango, algo que certamente incomodou vários outros bispos.

É claro que Monsenhor Romero defendia os oprimidos. Mas também deve ficar claro o que implica o ato de defender. Defender implica enfrentar e, quando necessário, lutar da maneira mais humana possível contra aqueles que agridem, empobrecem, perseguem, oprimem e reprimem. Para defender os pobres, Dom Romero enfrentou aqueles que mentem e que matam, sejam pessoas, instituições ou estruturas. E a defesa dele foi primordial, foi muito além do que geralmente se entende por "defender uma causa", com o objetivo, acima de tudo, de "vencer uma causa". Ele trabalhava e lutava para que vencesse a realidade agredida, a justiça e a verdade. Mais ainda, ele trabalhava e lutava para impedir que perdessem sempre os mesmos. Vamos tomas um de seus embates notáveis. O Supremo Tribunal de Justiça o havia convocado publicamente para que relatasse os nomes dos "juízes vendidos" que o próprio Monsenhor Romero havia denunciado durante a sua homilia de domingo. Os conselheiros do arcebispo ficaram assustados e não sabiam como ele poderia se sair nessa convocação. Ele nem se deixou perturbar. Na homilia sucessiva, ele esclareceu primeiro que não havia falado de "juízes que se vendem", mas de "juízes venais".

Mas ele não insistiu no fato de ter dito ou não isso ou aquilo, pois pouco importava, e aliás sem muitos rodeios em 30 de abril de 1978, foi ao fundo do problema: “O que o Supremo Tribunal de Justiça faz? Onde está o papel transcendental desse poder que, em uma democracia, deveria estar acima de todos os poderes e exigir justiça contra qualquer um que a pisoteie? Acredito que grande parte do mal-estar de nossa pátria encontre aqui a chave principal, no presidente e em todos os colaboradores do Supremo Tribunal de Justiça, que com maior integridade deveriam exigir das Câmaras, da magistratura, dos juízes, de todos os administradores desta palavra sacrossanta - justiça - que sejam realmente operadores da justiça".

Monsenhor Romero defendeu os pobres com todo seu empenho e com tudo o que tinha. Cinco dias antes de ser assassinado, um jornalista estrangeiro, perguntando-lhe como era possível, em uma situação tão difícil, mostrar solidariedade ao povo salvadorenho, respondeu: "Quem não pode fazer mais nada, reze". Mas "faça, faça, faça tudo o que puder", continuou ele. E lembrou o motivo pelo qual essa ação era necessária: "Não esqueçam que somos homens (...) e que aqui se sofre, se morre, se foge nos refugiando nas montanhas".

Na Universidade de Louvain, ele dissera: "A glória de Deus é o pobre vivente".

Defender os pobres é defender Deus

O camponês acertou o alvo. Na tradição bíblica, "dizer a verdade" é um imperativo que vem de longe. E de longe vem também a periculosidade do âmbito em que se move a verdade. "O maligno é um homicida e um mentiroso", diz o quarto evangelho (João 8:44). Primeiro ele dá a morte, depois a esconde. Monsenhor Romero foi cercado pela morte e pelos mortos e, algo bastante novo, de padres assassinados, nos quais agora nos concentramos. Durante sua vida, seis padres foram assassinados. E desde o primeiro assassinato até aquele dos jesuítas da Universidade católica argentina em 1989, chegou-se a dezoito. Algo semelhante aconteceu na Guatemala.

Romero falou muito sobre o assassinato de sacerdotes não porque os considerasse mais importantes do que as outras pessoas mortas e, de fato, sempre lembrava escrupulosamente de todos os que haviam sido assassinados, leigos e leigas, mas porque, pelo simbolismo eclesial e, muitas vezes cristão, daqueles mortes violentas, falava e refletia com mais força quando o assassinado era um sacerdote. "Cabe a min continuamente recolher cadáveres ": foi assim que começou a homilia em Aguilares, em 19 de junho de 1977, referindo-se ao assassinato do padre Rutilio Grande e de seus dois paroquianos. Monsenhor Romero logo percebeu que "recolher cadáveres" se tornaria um elemento essencial de seu ministério como arcebispo.

Em 1979, outros três sacerdotes foram mortos (Octavio Ortiz, Rafael Palacios e Alirio Macías). Monsenhor Romero foi ao fundo da realidade desses assassinatos e concluiu em termos peremptórios: "Matam-se aqueles que incomodam" (23 de setembro). Ele sempre os teve explicitamente presentes: "Desejo lembrar com carinho e ser solidário com os sacerdotes assassinados" (16 de setembro). Com palavras que ficaram famosas, proclamou a importância eclesial do fato de os assassinados tivessem sido sacerdotes: "Seria triste que em uma pátria onde se mata tão horrivelmente, não contássemos entre as vítimas também os sacerdotes. São testemunhas de uma Igreja encarnada nos interesses do povo" (24 de junho). E um mês depois, ele disse: "Irmãos, fico feliz que nossa Igreja seja perseguida justamente por sua opção preferencial pelos pobres e por tentar encarnar-se no interesse dos pobres" (15 de julho).

Ele estava ciente da dificuldade de realizar o que dizia: "Como é difícil se deixar matar pelo bem do povo!" (12 de agosto). Mas ele permaneceu firme: "O pastor não quer segurança enquanto não dão segurança ao seu rebanho" (22 de julho). Ele foi coerente e cada vez mais radical até o fim de sua vida: "Como pastor, sou obrigado pelo mandato divino a dar minha vida por aqueles que amo, que são todos salvadorenhos, até mesmo aqueles que viessem a me matar (...). Pode-se dizer, se chegassem me matar, que eu perdoo e abençoo quem o fizer" (março de 1980). Não quero concluir sem esclarecer que não mataram Óscar Romero apenas porque ele amava a verdade - o que corresponde à verdade - mas porque ele disse isso. Essa atitude de martírio foi fundamental desde o início. Em 21 de agosto de 1977, comemorando seu aniversário, ele disse durante a homilia: "Percebi mais uma vez que minha vida não pertence a mim, mas a vocês".

Vamos voltar para 14 de outubro. O papa Paulo VI também foi canonizado naquele dia, junto com o monsenhor Romero. Eu acho que os dois se estimavam mutuamente. Romero apreciou a Evangelii nuntiandi de Paulo VI e a colocou em ato em sua missão pastoral. E o que mais o impressionou sobre o Papa aconteceu em sua viagem a Roma. Falou com ele logo após o assassinato do padre Rutilio Grande. Paulo VI, com grande ternura, pegou sua mão e disse: "Vamos em frente, coragem!" Termino com as palavras já citadas por Ignacio Ellacuría: "Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador". Palavras de mártir para mártir.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Lembrança de são Oscar Arnulfo Romero. Um homem rico de verdade. Artigo de Jon Sobrino - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV