Colonialismo climático. Estados Unidos e o destino fatal de Dorian Gray

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10 Setembro 2019

"Dorian é um bom nome para este furacão. O nome em si foi cunhado pelo escritor irlandês Oscar Wilde, em seu controverso romance de 1891: 'O retrato de Dorian Gray'. Na história, Dorian Gray, um jovem bonito, esconde em uma habitação fechada um retrato de si mesmo. Dorian quer seguir um estilo de vida esbanjador e hedonista, sem perder a boa aparência por causa da deterioração causada por esses excessos", escrevem Amy Goodman e Denis Moynihan, jornalistas, em artigo publicado por Democracy Now, 06-09-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Nesta semana, o furacão Dorian devastou algumas áreas das Bahamas, arrasando grande parte das ilhas de Grand Bahama e Abacos. Na segunda-feira, o primeiro-ministro das Bahamas, Hubert Minnis, declarou: “Estamos em meio a uma tragédia histórica". Foram registradas 20 mortes, mas esse número deve aumentar à medida em que se tornem conhecidos os relatórios de equipes de resgate e os sobreviventes. Segundo um relatório não confirmado, uma família inteira foi encontrada morta, encerrada, com todos os seus integrantes abraçados, antes da morte. O furacão Dorian, como os furacões Maria, Irma, Florence e Harvey, significa um ponto de referência letal da irrefutável verdade de que a mudança climática induzida pela humanidade é real e está causando estragos em nosso planeta.

Dorian é um bom nome para este furacão. O nome em si foi cunhado pelo escritor irlandês Oscar Wilde, em seu controverso romance de 1891: O retrato de Dorian Gray. Na história, Dorian Gray, um jovem bonito, esconde em uma habitação fechada um retrato de si mesmo. Dorian quer seguir um estilo de vida esbanjador e hedonista, sem perder a boa aparência por causa da deterioração causada por esses excessos.

Em seu romance, Oscar Wilde escreveu: “Havia expressado um desejo sem sentido: que o retrato envelhecesse e que se conservasse jovem, que a perfeição de seus traços permanecesse intacta e que o rosto no quadro suportasse o peso de suas paixões e pecados”. Dorian Gray levava uma vida imprudente e excessiva, mas permanecia jovem e vigoroso, ao passo que o retrato oculto envelhecia horrivelmente.

A história poderia servir muito bem como uma alegoria do papel esbanjador dos Estados Unidos e da caminhada do planeta a uma catástrofe climática que piora dia após dia. Em termos históricos, os Estados Unidos continuam sendo o maior emissor de gases do efeito estufa do mundo. Também é o país mais rico da história, mas ao custo de mais de 150 anos de poluição industrial sem trégua, durante o qual usou a atmosfera do mundo como esgoto a céu aberto para lançar a fumaça de suas chaminés e canos de escape.

Agora, o presidente Donald Trump nega que exista um problema e aponta para a China e a Índia, as economias em desenvolvimento mais poluidoras da atualidade. Enquanto a China, com seu 1,4 bilhão de habitantes, é atualmente o maior emissor de gases do efeito estufa, os Estados Unidos seguem de perto, em segundo lugar, com todos os outros países muito atrás. Além disso, as emissões per capita estadunidenses estão entre as mais altas, isso significa, em média, um estilo de vida insustentável com alto consumo de carbono.

Enquanto isso, na linha de frente do desastre climático, comunidades inteiras são devastadas e diretamente destruídas. Bangladesh está vivendo as piores inundações em um século. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e da Meia-Lua Vermelha informa que 7,6 milhões de pessoas correm o risco de sofrer fome e doenças. Uma onda de calor mortal se espalhou pela Europa neste verão, ultrapassou recordes de temperatura e provocou incêndios florestais. As camadas de gelo na Antártida estão derretendo a um ritmo muito maior do que se conhecia anteriormente, levando a uma estimativa de que, como consequência, o aumento do nível do mar poderá deslocar 2 bilhões de pessoas até o ano 2100.

Em meio ao furacão Dorian, Denis McClean, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para Redução de Riscos de Desastres, falou à imprensa: “Este é o quarto ano consecutivo em que testemunhamos uma temporada de furacões no Atlântico extremamente devastadora, com furacões de categoria 5, como Dorian. A sequência não pode ser separada do fato de que esses últimos cinco anos foram os mais quentes que constam nos registros, devido ao aumento contínuo de gases do efeito estufa na atmosfera. O furacão Dorian cristaliza a ameaça existencial que assola pequenos estados insulares em desenvolvimento por causa da emergência climática em curso”.

A população atual das Bahamas é de aproximadamente 90% de afro-bahamenses. A história do país está entrelaçada com o colonialismo e a libertação. O primeiro desembarque de Cristóvão Colombo, em 1492, foi nas Bahamas, onde iniciou um genocídio contra os habitantes indígenas. Depois que a Grã-Bretanha eliminou o comércio de escravos em 1807, muitos dos que escaparam da escravidão nos Estados Unidos, bem como os indígenas Seminoles que fugiram do Exército estadunidense na Flórida, encontraram refúgio nas Bahamas.

O doutor Christian Campbell, poeta, acadêmico e ensaísta bahamense nascido em Grand Bahama, disse na terça-feira a Democracy Now!: “As Bahamas, como o resto do Caribe, é um país extremamente vulnerável por causa do legado do colonialismo, o legado da escravidão e da servidão contratual, que se manifesta também na exploração global sistêmica e na corrupção local.”

Os esforços de resgate nas Bahamas são severamente obstaculizados pelo nível de destruição. As enseadas estão intransitáveis, as docas danificadas e os aeroportos debaixo de água ou simplesmente destruídos. A Guarda Costeira estadunidense está fornecendo ajuda, mas os Estados Unidos, sendo o maior emissor de gases do efeito estufa da história, têm um papel muito mais importante a desempenhar.

No romance de Oscar Wilde, Dorian Gray é finalmente consumido por seus excessos e morre no chão em frente ao seu retrato. Os sobreviventes bahamenses do furacão Dorian conseguirão superar a situação e forjarão um caminho para seguir adiante. Contudo, não resta muito tempo para os Estados Unidos mudar seus hábitos e assumir o lugar que lhe corresponde no esforço global para evitar uma catástrofe climática irreversível.

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