“Com purpurados assim, para onde vamos?”, questiona teólogo referindo-se aos cardeais Burke e Brandmüller

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09 Setembro 2019

Os cardeais Walter Brandmüller e Raymond Burke escreveram, há poucos dias, uma carta a todos os cardeais do clero católico, expressando sua profunda preocupação pela ameaça que representa para toda a Igreja o próximo Sínodo sobre a Amazônia, que será celebrado no próximo mês de outubro. O que mais preocupa a esses dois eminentes purpurados é que, frente à crescente escassez de padres que sofre a Igreja, o Sínodo possa permitir a ordenação sacerdotal das mulheres ou possa suprimir, em alguns casos, a lei do celibato.

O artigo é de José María Castillo, teólogo, publicado por Religión Digital, 06-09-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A juízo dos cardeais mencionados, segundo informam as agências de notícias, os dois problemas mencionados (a ordenação sacerdotal de mulheres e a supressão da lei do celibato) são assuntos de uma gravidade equiparável a, nada menos, que os dogmas fundamentais da cristologia, que a Igreja teve que resolver em concílios ecumênicos dos séculos IV e V.

Confesso que essa notícia me impressionou. Mais que pelo conteúdo da notícia em si (o das mulheres e o do celibato), mas sobretudo pelo que a notícia reflete ou dá a entender.

De verdade que os dois problemas mais preocupantes, que agora mesmo tem a Igreja, são a possível ordenação sacerdotal de mulheres ou a hipotética supressão do celibato dos padres?

E não é mais preocupante o fato de que existem milhares de cristãos que não podem participar da eucaristia, pela simples razão de que não há padres que os atendam em sua fé e em sua vida sacramental?

Mais ainda, os dois indignos purpurados (já mencionados) não se inteiraram ainda de que os dois problemas, que tanto os preocupam, não são, nem podem ser, dogmas da fé? Leram já, alguma vez, o fundamental terceiro capítulo da Constituição sobre a Fé, do Concílio Vaticano I (Denz-Hün, 3011), no qual se define o que se deve crer com a Fé divina e católica?

Falando com propriedade, a primeira decisão solene do Magistério da Igreja sobre o celibato foi o “anátema” do cânone 9 de Trento, na sessão 11, no ano de 1563 (Denz-Hün, 1809). Porém, tem-se conta que um “anátema” de Trento não defina uma questão de Fé. Na sessão 13 do concílio se diz que seja “anátema” o que afirma que o sacerdote não pode dar comunhão a si mesmo (Denz-Hün, 1660). Isso não pode ser um assunto de fé. É uma mera norma disciplinar. Pois o mesmo valor tem o celibato dos sacerdotes do Ocidente.

Na Igreja Católica oriental não existiu, nem existe, lei alguma sobre o celibato de padres.

Pois bem, se a doutrina da Igreja é a que temos, a que vem a preocupação desses dois cardeais sobre a ordenação sacerdotal das mulheres e o celibato dos padres? O que querem esses dois purpurados? Defender a Fé da Igreja ou complicar o pontificado do papa Francisco? O que colocaram em evidência esses dois homens? O que parece mais claro é que há clérigos importantes que se empenham para que tudo siga como está, ainda que do Vaticano se possa dizer que aquilo é Gomorra; ou que mais de meio mundo morra de fome.

Com purpurados assim, para onde vamos?

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