A pobreza digital e a desigualdade social. Entrevista com Nicolás Welschinger

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08 Setembro 2019

O sociólogo argentino Nicolás Welschinger foi um dos convidados para comentar a última publicação do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Trabalhista e Agrário (CEDLA, na sigla em espanhol), que no último dia 31 de julho apresentou o documento Medição da pobreza multidimensional – Bolívia 2017, um estudo que identifica nove subníveis e quatro grandes níveis de carências (recursos, oportunidades, poder e voz, segurança humana) que afetam a população boliviana. No primeiro grupo, está o uso dos recursos digitais.

A entrevista é de Marco A. Ibañez, publicada por La Razón, 04-09-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Quando se começa a falar de pobreza digital?

Este tema foi discutido entre os organismos internacionais, a partir dos anos 1990. Desse modo, surge a necessidade de abandonar o conceito de pobreza como a medida da renda nos lares e repensar o problema social sob a ideia de desigualdade. Isto implicou olhar as razões pelas quais os países que estavam crescendo em seu Produto Interno Bruto (PIB) e em seu desenvolvimento econômico não cresciam em desenvolvimento social ou integral.

Então, começou-se a analisar a pobreza em todas as suas dimensões e surgiu a pobreza multidimensional, na qual aparecem não apenas temas de gênero, racismo, cultura e classes sociais, como também a difusão do conhecimento, em particular de tudo o que está relacionado com a tecnologia e a comunicação, com a internet e a informação. Então, surge a ideia de medir a exclusão digital em um país.

Pode citar um modelo de riqueza digital?

Na Finlândia, um dos pioneiros a incluir a educação digital e a alfabetização digital (...), os níveis educacionais incorporaram perspectivas críticas da pedagogia e a alfabetização que lhe permitem fazer um uso da tecnologia muito mais produtivo e inteligente. Não se olhou apenas para a tecnologia, mas para as habilidades, a capacidade de fazer uma leitura crítica da informação, das redes sociais e de como podemos utilizar o potencial destas para nos comunicar na participação política, nos diferentes âmbitos da vida. Acredito que é o foco que mais resultados deu até agora.

Como entendemos a pobreza digital e a desigualdade?

Quando se analisa o conceito de igualdade, observa-se que a exclusão digital foi se resumindo ao nível do acesso, pois o mercado incentivou que todos tenhamos medianamente acesso à internet. Além disso, via políticas estatais, o tema foi fomentado em países da região e, inclusive, existiram programas de alfabetização digital que envolveram internet nas escolas e a entrega de computadores. Então, quando a exclusão digital ao acesso diminuiu, começou a problematização em torno dos usos. Todos podemos ter acesso a tecnologias, mas quais usos fazemos delas [?]. A exclusão no uso e nas habilidades tornou complexa esta noção de exclusão digital e pobreza digital.

E como está a Bolívia nesta matéria?

Sei da necessidade de se gerar mais dados, porque não se tem informação estatística sobre o tema. É necessário, além disso, uma linha de pesquisa da desigualdade digital, que implica ver como está articulada com outras dimensões como a educação, a economia, a saúde, o lar, a amizade e o cotidiano.

Que dados destaca do estudo do CEDLA?

Ao olhar a desigualdade em todas as suas dimensões, percebemos que em nossos países ainda é necessário trabalhar para poder atacar este problema. Um país pode ter um importante índice de desenvolvimento econômico ou de crescimento, que pode não estar acompanhado pelo desenvolvimento social, porque o problema não é a pobreza, mas, sim, a desigualdade.

Então, acredito que o relatório marca como seria possível reduzir (na Bolívia) a desigualdade em suas múltiplas dimensões. Uma delas é a questão de gênero, que se dá pela falta de políticas de intervenção sobre este tema. Outra é a persistência da desigualdade através do trabalho informal e a informalidade no trabalho, um problema complexo que implica outras dimensões como o racismo e a falta de participação política. Por isso, atacar a desigualdade não é simples, implica o desenvolvimento integral de nossos países.

Que projetos da América Latina pode destacar?

O Plano Ceibal, por exemplo, é um projeto socioeducativo do Uruguai que tem fortes vantagens, justamente porque atacou a exclusão digital com a alfabetização a partir de uma perspectiva que olha as relações sociais. Não colocou ênfase na tecnologia em si, mas na tecnologia dentro das relações sociais, educacionais e trabalhistas. Enquanto avançavam neste plano, pesquisaram e continuaram gerando diagnósticos e avaliações, e isso o tornou, hoje, uma referência na região.

Nesse contexto, quais são suas recomendações?

Fazer um bom diagnóstico da situação atual da Bolívia, porque isso lhes permitirá fazer uma boa intervenção estatal. Na Argentina, por exemplo, estudei o desenvolvimento do Conectar Igualdade, um programa que (desde 2010) repartiu mais de seis milhões de netbooks a professores e estudantes da educação pública e institutos de formação docente, e que simultaneamente desenvolveu uma linha de formação de professores.

Isso foi muito criticado. Muitos pesquisadores diziam que primeiro era necessário formar professores - eu não sei se é assim -, mas ter iniciado em paralelo a formação docente com a entrega de netbooks, para começar a explorar (on-line), incentivou a necessidade do tema. E se começou a construir pontes para combinar esta preocupação com a inclusão digital, com a inclusão educacional e a qualidade da educação. E houve muitíssimos conflitos que, ao final, foram positivos, porque sem eles não se teria chegado à transformação. Sem esses conflitos, não teria sido possível implementar o digital entre outros temas como a alfabetização.

Ou seja, superar a pobreza digital é um processo que implica conflitos positivos?

Sim. Por exemplo, na Argentina, no momento em que apareceu o digital, pensou-se uma política de caráter universalista, que implicou que os setores que não estavam acessando às novas tecnologias começassem a fazer isso (...). Isso gerou muitos conflitos, porque diferentes setores da sociedade reagiram à entrega de milhões de computadores, considerando algo errado (por ser um gasto desnecessário). Então, os conflitos não ocorreram somente dentro da escola, como também dispararam na dimensão política. Ou seja, todo plano e política que ataque a desigualdade irá gerar conflitos e resistência a essa naturalização da ordem da desigualdade. Portanto, esses conflitos vieram para reduzir a desigualdade de maneira positiva.

Pesquisador etnográfico

Nicolás Welschinger obteve sua licenciatura em Sociologia e seu doutorado em Ciências Sociais na Universidade Nacional de La Plata (Argentina). É pesquisador assistente do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET), que é uma instituição dependente da Secretaria de Governo de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva da Argentina. Trabalha também como docente do Departamento de Sociologia no Mestrado e Doutorado em Ciências Sociais. Publicou capítulos de livros e artigos em revistas científicas sobre desigualdades, tecnologias digitais e políticas públicas a partir de um enfoque etnográfico. Também se dedica às técnicas de pesquisa social, por meio das quais indaga os vínculos entre políticas públicas, indústrias culturais e culturas populares, em particular as que habilitam os usos sociais das novas tecnologias de informação e comunicação na região.

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