Petrini: “Que a sustentabilidade não seja uma palavra vazia”

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03 Agosto 2019

Fundador e presidente do Slow Food, entre os promotores da primeira universidade de ciências gastronômicas do mundo, Carlo Petrini manifestou grande apreço, desde o início, pela encíclica do Papa Francisco, Laudato si', sobre a qual escreveu uma introdução apaixonada, para a editora San Paolo. No encontro de Rimini ele intervirá (no dia 20 de agosto às 17 horas) sobre o tema "Sustentável é ... humano".

A entrevista é de Gerolamo Fazzini, publicada por Avvenire, 01-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Petrini, "sustentabilidade" é um termo de sucesso, mas talvez desgastado. Como você interpreta isso?

Eu prefiro falar sobre "durabilidade". O paradigma vencedor hoje teoriza a produção de bens que perecem no menor tempo possível. Isso pertence a uma economia que mata, como fala o Papa Francisco, porque deixa espaço ao desperdício e ao descarte. Ora: os recursos do planeta não são infinitos e estamos à beira do sofrimento. É por isso que a sociedade civil está começando a pedir respostas à política e à economia. Mas vejo um risco no horizonte ...

Qual?

Que a resposta seja ditada pelo desejo de acompanhar uma moda ou uma tendência (que também gera lucro) ao invés de repensar o modelo em auge desde o início. Um exemplo? A recusa de usar plástico descartável: um passo importante, mas obviamente não suficiente. A situação geral é muito, muito séria.

Então, onde se começa para mudar de rumo?

Depois da publicação de Laudato si', o próximo passo importante é o encontro sobre a Economia de Francisco, programado para Assis em março de 2020. Esse será o lugar onde - espero - o novo paradigma econômico tomará forma. Se não for assim, tenho a impressão de que "sustentabilidade" se tornará uma palavra vazia.

Falando da Laudato Si' você disse que "erram aqueles que a reduzem a uma lógica ecológica, porque é um exercício de novo humanismo".

Após a publicação de Laudato si', um importante encontro será, em outubro, o Sínodo sobre a Amazônia. Naquela região, a economia extrativista, levada a níveis extremos, está destruindo um ecossistema vital para todo o planeta. Mais uma vez, o modelo econômico vencedor é caracterizado pela falta de respeito pelo meio ambiente e pelas populações indígenas.

Você cita dois eventos eclesiais, mesmo não sendo católico ...

Faço isso porque não vejo mais nada! Tenho a impressão, no entanto, de que uma parte da Igreja, a diferença do Papa, não acredita que os temas inerentes à criação sejam tão importantes neste momento histórico.

Poderia ser o "cuidado da casa comum" um ponto de encontro entre crentes e não-crentes?

Eu sou agnóstico, não de ontem atento ao mundo católico. O diálogo, como método, é o único instrumento que temos para superar visões estreitas demais em relação às grandes temáticas, a partir justamente do meio ambiente.

A proteção do meio ambiente e dos direitos sociais, ressalta o Papa Francisco, andam de mãos dadas porque "tudo está conectado". Mas ainda há muito a fazer. Um exemplo: a definição de finança sustentável que recentemente o Parlamento Europeu aprovou esquece a dimensão social.

Na busca de um novo paradigma econômico, um dos pontos de vanguarda é a escola italiana da economia civil, que é uma expressão, em quase sua totalidade, do mundo católico. Stefano Zamagni, Luigino Bruni, Alessandra Smerilli e Leonardo Becchetti são, em nível internacional, portadores de uma diversidade que deveria ser mais conhecida e difundida. Não vejo outros caminhos: se, de fato, da esquerda, a proposta é uma versão um pouco mais democrática do neoliberalismo, nada vai mudar! Precisamos de uma economia de comunidade, que tenha como principal interesse o reconhecimento da proximidade e a valorização dos territórios.

O que você pensa do movimento lançado por Greta Thumberg: um fogo de palha ou o começo de uma revolução cultural?

Tendo para a segunda hipótese: essas temáticas estão na ordem do dia também do ponto de vista existencial. Nós, adultos, em vez de observar passivamente se os jovens vão ou não conseguir, devemos nos colocar ao seu lado para dar nossa contribuição. Com uma metáfora gastronômica: deveríamos ser os que levam o molho para a massa que os jovens estão cozinhando. Também porque grande parte da responsabilidade pelo desastre atual é das gerações adultas.

Os adultos também têm a tarefa de educar sobre ao consumo. Uma parte do mundo financeiro está propondo produtos (como os "títulos verdes") visando recompensar empresas que reduzem seu impacto ambiental, mas é necessário torná-las conhecidas, para oferecer aos consumidores as alternativas possíveis.

Este trabalho é fundamental. Se queremos que a tendência “verde” das empresas continue e não seja simplesmente “greenwashing” (ou seja, uma operação de imagem), precisamos ir além. Ao invés do consumidor, é necessário colocar no centro o cidadão responsável, que, justamente por ter uma consciência ambiental, pode se tornar um "coprodutor", ajudando a orientar as técnicas de produção das empresas.

A afirmação dos Verdes nas recentes eleições europeias é o sinal de uma nova consciência da emergência ambiental em ao?

O tema ambiental será o elemento central nos próximos anos, não há dúvida. Aqueles que demorarem para recebê-lo estão destinados a desaparecer do cenário político. Na Alemanha, nas últimas eleições, 49% da população com menos de 24 anos manifestou-se a favor dos Verdes. Atenção: ainda não votou a "geração Greta"! Da próxima vez será uma avalanche anunciada. Quanto mais a política tradicional levar tempo para entender isso, mais ela está destinada a desaparecer.

Petrini, você é um gastrônomo-sociólogo: como se assume a sustentabilidade à mesa?

O sistema alimentar é fundamental para este momento histórico mais do que nunca, uma vez que pesa em 34% na produção de gases estufa, em comparação com 17% da mobilidade. O elemento do prazer gastronômico deve, portanto, ser conciliado com a saúde dos ecossistemas e com a justiça social: sem esses três elementos, não há qualidade alimentar. O alimento deve ser bom, limpo e justo.

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