Uma história social da mudança climática

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01 Agosto 2019

“O planeta, Gaia, não sofreu com as várias mudanças climáticas que o atravessaram em sua longa vida. Apenas lhe ocorreram. Se tivesse consciência, em nossos termos, observaria estes novos habitantes de última hora, o sapiens industrial, e aceitaria condescendente sua suicida soberba. Para o planeta não importa, ele segue. Ele/Ela seguirá”, escreve Gerardo Honty, analista do Centro Latino-Americano de Ecologia Social, em artigo publicado por Rebelión, 27-07-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“Os homens saltaram silenciosamente dos botes para a margem. Foram em nossa direção carregando quase nada. Atrás de mim, outras pessoas que tinham vindo para recebê-los, foram ao encontro em sinal de boas-vindas. O ar estava ao mesmo tempo triste e alegre, o que se acomodava bem à situação. Esse simples bote carregando esses cinco homens é a primeira onda que traz a primeira evacuação oficial de um povoado inteiro por causa da mudança climática. Alguns dizem que, no próximo mês, estarão prontos para trazer suas famílias, quando suas casas estiverem terminadas. Outros, que farão isso em junho, quando a primeira colheita de batatas-doces estiver pronta para alimentá-los”. (Dan Box, The Ecologist, 22-04-2009).

Aquele foi um ano de árduas e permanentes negociações no mundo político internacional sobre a mudança climática. Em Bali, dois anos antes, a Convenção da Organização das Nações Unidas sobre Mudança Climática havia aprovado um itinerário que terminaria em Copenhague, em fins de 2009, com um grande acordo que colocaria fim à ameaça climática. Durante aquelas árduas reuniões, a imprensa internacional anunciava o surgimento dos “primeiros refugiados climáticos”. Não se tratava de circunstanciais deslocados pelo clima, que voltariam para sua casa assim que passasse a tormenta. Não, era uma mudança definitiva de toda uma população que já não poderia viver em suas para sempre inundadas Ilhas Carteret. Os tuluun, como se autodenominavam seus habitantes, precisaram ir para a mata de Tinputz, na costa leste de Papua-Nova Guiné.

Não houve acordo em Copenhague, não ao menos um que fosse legítimo. Desse modo, foi preciso esperar até 2015 para alcançar um novo. Este, sim, legítimo, mas tão inoperante como o anterior. No entanto, o valor do acordo não é o tema deste artigo, mas, sim, a definição de “primeiros refugiados climáticos”, uma afirmação que fazia referência a um tipo específico de mudança climática: antropogênica.

O aumento do efeito estufa provoca um aquecimento da Terra, que provoca a mudança climática atual. É importante ter esta sequência clara. Não é a mesma coisa efeito estufa, aquecimento global e mudança climática. São coisas diferentes unidas por uma cadeia causal. Isto é relevante porque a mudança climática pode ter diferentes origens e nem sempre provocadas pelo aquecimento ou o efeito estufa. As mudanças na radiação solar, a atividade vulcânica, os movimentos das placas tectônicas, as mudanças orbitais e a inclinação do eixo terrestre também geraram mudanças climáticas.

A particularidade da mudança atual é sua origem antropogênica, ou seja, provocada pelo homem, característica nova em relação às mudanças climáticas anteriores. No entanto, todas as mudanças climáticas, desde que o homem existe na Terra, compartilham uma característica: desastres humanos.

1. Do Holoceno ao Antropoceno

Nos últimos 400.000 anos, houve quatro períodos glaciais, separados por períodos de 10.000 anos chamados interglaciais, tal como o que agora desfrutamos. Após o último aquecimento e o fim da última glaciação, as temperaturas se mantiveram relativamente estáveis. Aí começa o Holoceno, um período que está acabando em nossos dias para dar início a um período marcado pela incidência do ser humano na vida planetária: o Antropoceno.

O homo sapiens pôde se desenvolver na Terra após a última glaciação, durante a qual a temperatura média do planeta era 5 graus mais baixa que na atualidade. Não parece muito, mas essa diferença foi a que permitiu o início de nossa linhagem humana. As variações da órbita terrestre, com ciclos de 100.000 anos, aproximaram o planeta do sol e, após vários milênios, a Terra se tornou algo parecido ao que conhecemos agora.

As matas cresceram, a vida prosperou e os homens e mulheres tiveram alimento e um clima acolhedor para se expandir. Durante alguns milhares de anos, o clima se manteve estável e isso permitiu o desenvolvimento das sociedades agrícolas. Na Mesopotâmia, entre o Tigre e o Eufrates, a humanidade foi abandonando seu nomadismo, começou a se concentrar em aldeias e pôde se alimentar cultivando e criando animais. Os teares, a alfaiataria, o pão e a cerveja nasceram neste bom clima. As cidades de Jericó, Uruk e Ur são produto desta época. Na América, onde os seres humanos já estavam presentes desde os tempos da glaciação, também começaram a florescer a agricultura e os assentamentos. A civilização Caral teve sua cidade no que hoje é o Peru, ao mesmo tempo em que apareciam as mesopotâmicas. Ao sair da glaciação, éramos um milhão de seres humanos.

O ano em que o mar subiu um metro

Enquanto a vida prosperava em várias regiões do mundo, as geleiras norte-americanas iam se descongelando por causa do aumento da temperatura. As águas do degelo foram criando um enorme lago entre as geleiras que chegou a ocupar mais de 400.000 km2. Há uns 8.000 anos, o derretimento das geleiras que estavam no lago – ao que postumamente batizamos de Lago Agassiz – provocou seu derramamento completo nos oceanos, provocando o Dilúvio Universal. O relato de Noé, na Bíblia, de Nuh, no Alcorão, a Epopeia do rei Gilgamesh, de Uruk, a barca de Svayambhuva Manu, na Índia, o mito de Gun Yu, na China, o Mba’e-Megua Guasu guarani e muitas outras tradições no mundo narram a história do ano em que o mar subiu um metro.

Os oceanos ocuparam boa parte das terras férteis, a enorme quantidade de água fria do degelo derramada no oceano deixou um clima mais frio e seco, em algumas partes do mundo, e os primeiros refugiados climáticos correram para a Europa e o sul do Oriente Médio fugindo da inundação, do frio e da seca. Povos inteiros ficaram sob o mar. Surgiram novos lagos e novas ilhas. O mapa do mundo mudou completamente. Quando houve o Dilúvio, éramos 8 milhões de seres humanos.

A rotação terrestre

O Saara nem sempre foi um deserto. E nem sempre será. O clima nessa parte do mundo depende dos movimentos do eixo terrestre em ciclos que duram uns 25.000 anos. Como um pião que gira eternamente. Antes que o Saara fosse como agora, os ventos de monções levaram água e chuvas ao que então eram algumas extensas e ricas savanas. Quando o eixo da Terra encerrou seu último ciclo, há 5.000 anos, as monções se fragilizaram e surgiu o deserto.

Os refugiados climáticos do Saara correram, então, para o delta do Nilo, onde ainda havia terras férteis e água em abundância. Junto ao Nilo, aprenderam a lidar com as ressacas e desenvolveram uma nova cultura hidráulica. Tornaram-se inteligentes engenheiros e levantaram o império egípcio. Uma das maiores civilizações da história cresceu baseada na bonança do clima e conseguiu um longo período de prosperidade.

Contudo, no ano 1200 a.C., um novo período quente assolou as terras do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Médio provocando fome e o fim da longa e próspera Idade do Bronze. A prolongada seca, o aumento do nível do mar pelo derretimento das geleiras e uma série de tsunamis obrigaram os novos refugiados climáticos a migrar. A busca de novas terras para habitar e obter os alimentos necessários conduziu a uma onda de guerras que durou três séculos. Parte destes migrantes formaram os chamados Povos do Mar, que chegaram a saquear o rico Egito, o único que ainda tinha terras cultiváveis na região. Finalmente, o Egito conseguiu vencer os Povos do Mar, mas o desgaste de tantos anos de batalhas marcou o início de seu fim. Éramos 50 milhões de seres humanos.

Bom clima para os impérios

Foi preciso aguardar até o ano 300 a.C. para que o clima voltasse a se estabilizar. A temperatura média aumentou 2 graus e as terras voltaram a ser férteis na Europa e no norte da África. Esta bonança nos cultivos é a base do nascimento de um novo império, com sede em Roma. Os romanos avançaram por toda a Europa e o clima os favoreceu, não só em sua capacidade produtiva, como também em sua expansão. O degelo dos Alpes em razão da temperatura mais elevada tornou possível que os romanos cruzassem uma fronteira até então insuperável e conquistaram as tribos germânicas. A necessidade de alimentar o crescente exército romano e sustentar a boa vida de sua classe dominante impulsionou o império até as portas do celeiro da África. Foi o momento das guerras púnicas e da destruição de Cartago.

A milhares de quilômetros dali, na mesma época, aproveitando-se da mesma bonança climática e da abundância de alimentos, o imperador Qin Shi Huang conseguiu unificar a China acabando com as divisões da época dos Reinos Combatentes. As energias ainda foram ainda suficientes para construir a Grande Muralha da China, desviar o rio Amarelo, construir uma tumba cercada de lagos e rios de mercúrio e constituir um exército com 8.000 soldados de terracota que o acompanharam ao além.

Alguns séculos depois, já na época em que Cristo nascia, os bons tempos acabam. A radiação solar diminui, a corrente do golfo esfria e a temperatura cai. A outrora fértil terra do norte da África sofre prolongadas secas e já não pode abastecer os 50 milhões que habitam sob a égide romana. Sendo assim, inicia-se um tempo de revoltas populares que se veria em aumento pelos refugiados climáticos de outras regiões. Os hunos já não encontraram alimentos suficientes em suas terras agora mais frias e começaram a descer para o sul. As populações da Europa, Ásia Central e Oriente Médio, assediadas pelos bárbaros, foram deslocadas e avançaram para o Mediterrâneo provocando uma onda de imigrantes para Roma. Os rios congelados, sobretudo o Reno, favoreceram a invasão do território romano e o cruzamento por suas fronteiras. Foi o começo do fim do império. Éramos 200 milhões de seres humanos.

Vulcão

O vulcão Ilopango, em El Salvador, tem 72 km2 de superfície e é um dos “supervulcões” do mundo. Na primavera do ano 536, entrou em erupção lançando ao céu 84 quilômetros cúbicos de rochas e cinzas, que alcançaram vários quilômetros de distância. Acabou com boa parte das cidades maias e com a vida de 40.000 pessoas. Com suas pedras, foram formadas as atuais montanhas com matas de Honduras, Nicarágua e Guatemala, e restante de suas cinzas está, séculos depois, nos fundos do oceano Pacífico.

Contudo, seu efeito teve consequências para o clima global. Durante meses, as cinzas flutuaram a 25.000 metros de altura e o planeta ficou envolvido em sua nuvem. O sol obscureceu, sua radiação já não chegava com a potência de outrora e a temperatura caiu mais uma vez. Um inverno vulcânico de 18 meses transformou a Terra em um lugar inóspito e foi devastador para os seres humanos. Houve secas e fome, durante muitos anos. A peste bubônica se estendeu pela Europa.

Assim que encerra o primeiro milênio depois de Cristo, um clima favorável para a expansão humana volta a ser recuperado, ao menos no hemisfério norte. Os degelos dos mares do norte tornaram possível aos vikings sair para explorar novas terras. Ocupam Groelândia, Islândia, Grã-Bretanha e chegam até as costas da América. Entre os anos 1.000 e 1.300, a população da Europa se quadruplica, coincidindo com o chamado Clima Medieval Ideal, que favoreceu a atividade agrícola. No hemisfério sul, a história foi diferente. Os Incas e os Maias tinham vivido uma época boa, com chuvas regulares e boas colheitas, mas no final do primeiro milênio a maior atividade solar causou secas que obrigaram as populações a migrar para regiões mais altas.

O retorno das geleiras

Contudo, nada dura para sempre em matéria climática. O século XIV voltou a trazer um frio parecido ao de 10.000 anos atrás, no que se conhece como a Pequena Era Glacial. A atividade vulcânica do Círculo de Fogo do Pacífico e a diminuição da radiação solar se fizeram sentir. As geleiras avançaram na América do Norte. Na Europa, as inundações, tempestades e ondas de frio provocaram milhares de mortes. A população que havia crescido mais uma vez, durante um tempo de colheitas abundantes, de repente, se viu sem alimentos.

Com os campos congelados e os moinhos destruídos, a fome e a peste voltaram a açoitar a população. E mais mortes ainda provocou a Santa Inquisição. As pessoas acreditavam que tudo aquilo era um castigo de Deus, desse modo, os Torquemadas da Igreja Católica, em suas masmorras, perguntavam aos acusados e acusadas de bruxaria como faziam para provocar aquelas tempestades, antes de lançá-los nas fogueiras. A Guerra dos 30 anos ocorreu durante este período.

Na América do Sul, a mudança climática daquele período fez com que os povos do sul buscassem temperaturas melhores ao norte. Aimarás procedentes de Tucumán e Coquimbo deslocaram os habitantes de Tiahuanaco, que fugiram para o Lago Titicaca, primeiro, e para Cusco depois. Após dois séculos de travessias, a última caravana de refugiados liderada por Manco Capac chegou ao Cusco, no século XV, para fundar o Império Inca.

Passados cinco séculos de frio, em uma Europa assolada pela fome, crescia a agitação social. As colheitas eram péssimas, faltava trigo e o preço do pão foi às nuvens. No dia 14 de julho de 1798, o pão atingiu o seu preço mais alto. Nesse dia, tomaram a Bastilha. Ao final Pequena Era Glacial éramos um bilhão de seres humanos.

2. A última mudança climática

Alguns anos antes que começassem a abandonar as Ilhas Carteret, um grupo de pesquisadores da Stanford demonstravam que, ao longo da história, as flutuações a longo prazo da frequência das guerras e as mudanças de população seguiram os ciclos de mudança da temperatura. Que o esfriamento periódico impediu a produção agrícola, causando uma série de graves problemas sociais, como a inflação de preços, a guerra, a fome e o declínio da população sucessivamente. As guerras, nos últimos séculos, foram impulsionadas principalmente pela mudança climática a longo prazo, diziam, enquanto a Convenção assinava o documento-referência de Bali, uma via sem destino.

Um lago seco

Em inícios do século XIX, quando os europeus descobriram o lago Chade, era um dos maiores lagos do mundo. Localizado nas fronteiras do que hoje são Chade, Camarões, Níger e Nigéria, as populações circundantes viviam da pesca e da agricultura dependente de suas águas. A mudança climática foi uma das responsáveis pela redução do volume de água do lago e a diminuição nos fluxos de seus rios tributários. Ao se iniciar o século XXI, o lago havia sido reduzido a 26.000 km2, 10% do que tinha sido no passado. Os moradores foram ficando sem sustento e se viram obrigados a migrar ou encontrar formas alternativas para ganhar a vida.

Na mesma época, um grupo terrorista chamado Boko Haram se formava e começava suas ações. Em 2011, o governo da Nigéria decretou estado de emergência no norte do país, nas províncias às margens do lago Chade, para enfrentar aquela situação de guerra. O grupo havia crescido e havia se radicalizado, a partir de uma crescente população faminta que não encontrava outra forma de ganhar a vida. Nesse momento, então, o lago havia se reduzido a 1.500 km2. As guerras travadas pelo Boko Haram estão diretamente relacionadas à mudança climática.

Uma balsa à deriva

Desde fins dos anos 1960, o Sudão vem sofrendo uma série de secas pronunciadas e em aumento. Os pastores nômades e os agricultores se viram diante de inumeráveis conflitos, desde então, para acessar as poucas terras férteis que o avanço do deserto foi deixando. Em Darfur, ao oeste do Sudão, estima-se que o número de mortos das guerras esteja entre 200.000 e 500.000 e que exista 2 milhões de pessoas em campos de refugiados.

Aqueles que não encontram a morte nas guerras ou na fome, a encontram no fundo do oceano, buscando chegar na Europa em algumas balsas de borracha superlotadas. O Sudão é um dos casos em que internacionalmente se reconheceu que a mudança climática está na origem da violência e a guerra civil. Os prognósticos apontam que a temperatura continuará aumentando no futuro, no Sudão, e que as precipitações continuarão diminuindo a um ritmo de 5% anualmente.

Uma primavera curta

O efeito do clima sobre os conflitos foi notório nos países do Oriente Médio e influenciaram no que ficou conhecido como a Primavera Árabe, entre 2010 e 2012. Segundo vários analistas, a mudança climática está entre as principais causas da origem do conflito na Síria, que começou em março de 2011. A crescente escassez de água e as frequentes secas provocaram a perda de cultivos, durante vários anos, e uma migração massiva das famílias rurais para as cidades. O rápido crescimento da população urbana, a aglomeração e o desemprego provocaram a origem dos distúrbios políticos. A mudança climática foi um dos fatores determinantes no início das revoltas contra o regime de Bashar al-Assad.

Um muro na fronteira

Nos Estados Unidos, há muita preocupação com a imigração ilegal, desde o México e a América Central, cuja causa principal é a mudança climática. Os níveis de chuva no sul estão diretamente relacionados com a migração para o norte: 20% a mais de chuva sobre terras mexicanas, reduz em 10% a quantidade de migrantes para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, uma redução de 10% nos rendimentos dos cultivos, aumentaria em 2% a migração da população.

De acordo com os cenários de aquecimento utilizados e os níveis de adaptação assumidos, para o ano 2080, estima-se que a mudança climática induzirá a migração de 1,4 a 6,7 milhões de mexicanos, como resultado da diminuição da produtividade agrícola. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional prevê que nos países do Triângulo Norte da América Central haverá diminuição de chuvas e secas prolongadas. Em Honduras, as chuvas serão escassas nas áreas onde são necessárias, mas em outras as inundações aumentarão em 60%. Na Guatemala, as regiões áridas avançarão para as áreas agrícolas atuais, arruinando os agricultores. El Salvador perderá de 10% a 28% de sua cota, antes do final do século. Quantos deles tentarão cruzar a fronteira? Quais tipos de guerras estes refugiados climáticos provocarão?

Do Antropoceno ao fim

Junto ao fim da Pequena Era Glacial, veio a Revolução Industrial. E com ela um novo tipo de mudança climática, uma que nunca antes havia existido: a antropogênica. Nem o primeiro sapiens sapiens e nem qualquer um de seus sucessores até agora haviam tido consciência da existência da mudança climática. Este novo sapiens, o sapiens industrial, conseguiu algo notável: ser o primeiro a gerar uma mudança climática e ser o primeiro a ser consciente de sua existência.

Nem os primigênios habitantes que sobreviveram à última glaciação, nem os antigos romanos ou maias e nem os enfermos sobreviventes da peste negra tiveram consciência da mudança climática. Apenas a padeceram. Do mesmo modo que as espécies extintas, as matas arrasadas pelas lavas vulcânicas ou as terras inundadas pelo mar não tiveram consciência de sua transformação. Não ao menos do modo como nós entendemos a “consciência”. E por isso que esta nova era é chamada de Antropoceno: porque o ser humano chegou a ser capaz de modificar os ecossistemas terrestres a ponto de mudar as condições da era geológica. E foi capaz também de ser consciente da alteração.

A Terra transita impassível em seu constante girar e perpétuo movimento. E observa o devir das mudanças em sua epiderme. Observa suas criaturas crescer, morrer, transformar-se, desaparecer. O planeta, Gaia, não sofreu com as várias mudanças climáticas que o atravessaram em sua longa vida. Apenas lhe ocorreram. Se tivesse consciência, em nossos termos, observaria estes novos habitantes de última hora, o sapiens industrial, e aceitaria condescendente sua suicida soberba. Para o planeta não importa, ele segue. Ele/Ela seguirá.

O que aprendemos da história das mudanças climáticas é que são um desastre para a humanidade. Que com nossa consciência atual podemos ver, avaliar e entender os sofrimentos humanos que produzem. Que sempre acarretam guerras, fomes, morte e dor onde quer que ocorram. O novo desta mudança climática atual é ser a mudança climática do Antropoceno, a mudança climática suicida, a autoconsciente. Os especialistas analisam cenários para 2030 ou para 2050, mas não é necessário ir muito longe. A mudança climática do Antropoceno já está aqui e seus efeitos são visíveis. E somos 7 bilhões de seres humanos.

Fontes consultadas

“Climate change, natural disasters and human displacement: a UNHCR perspective”. ACNUR, Agência das Nações Unidas para os Refugiados (2008). Disponível em https://www.unhcr.org/

“Climate, conflict and forced migration”. Guy J. Abel, Michael Brottrager, Jesus Crespo Cuaresma, Raya Muttarak. Global Environmental Change. Volume 54, Janeiro de 2019, Págs. 239-249.

“El Mito Del Diluvio en la Tradición Oral Indoamericana”. Enrique Margery Peña. Editora Universidad de Costa Rica, 1998.

“Global climate change, war, and population decline in recent human history” David D. Zhang, Peter Brecke, Harry F. Lee, Yuan-Qing He, and Jane Zhang PNAS. Dezembro 4, 2007 104 (49) 19214-19219.

“Guerras climáticas: por qué mataremos (y nos matarán) en el siglo XXI”. Harald Welzer. Katz Editores, Madri, 2010.

“How climate change is pushing Central American migrants to the US”. Lauren Markham. The Guardian 6/4/2019.

“Linkages among climate change, crop yields and Mexico–US cross-border migration” Shuaizhang Feng, Alan B. Krueger, Michael Oppenheimer. PNAS Agosto 10, 2010 107 (32) 14257-14262.

“Los Incas. Economía, sociedad y estado en la era del Tahuantinsuyo”. W. Espinoza Soriano. Amaru Editores. Lima, 2011.

“The Effect of Rainfall on Migration from Mexico to the United States”. Gerónimo Barrios Puente, Francisco Perez, Robert J. Gitter. International Migration Review, Volume 50, Issue 4 . 2016 Pag. 890-909.

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