Crianças famintas. “Está se consumando uma verdadeira catástrofe no lago Chade.” Entrevista com Coumba Sow

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07 Junho 2017

“A crise na bacia do lago Chade provocou cerca de 2,5 milhões de deslocados. Depois da Síria, é a mais importante crise de refugiados em nível mundial e a que cresce mais rapidamente. Está se consumando uma catástrofe.”

A reportagem é de Matteo Fraschini Koffi, publicada por Avvenire, 03-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O alerta é de Coumba Sow, coordenadora na África ocidental e no Sahel para a Organização para a Alimentação e a Agricultura da ONU (FAO). Nessa área, um dos principais obstáculos é o acesso aos meios de comunicação e às organizações humanitárias que devem enfrentar um altíssimo nível de insegurança causada pela ameaça jihadista.

Eis a entrevista.

Qual é a situação das crianças ligada à insegurança alimentar nessas regiões?

O estado nutricional das populações afetadas é particularmente preocupante. Estima-se que, a partir de 2017, são cerca de 515 mil crianças afetadas pela desnutrição aguda grave (MAS, na sigla em inglês). No mesmo período do ano passado, eram 175 mil. De acordo com as últimas pesquisas, as taxas de desnutrição aguda global (MAG, na sigla em inglês) são superiores a 10% em torno das regiões do lago Chade. Na Nigéria, por exemplo, a taxa de MAG é de 9,5% enquanto a de MAS é de 2,6%. Nos Estados federais de Borno e Yobe, há bolsões de desnutrição aguda muito elevados, notícias que só pudemos confirmar nos últimos dias, porque aquela área esteve em grande parte inacessível por muito tempo.

Como os governos da região estão tentando enfrentar essa crise?

Os governos dos quatro países atingidos, Camarões, Chade, Níger e Nigéria, se mobilizaram para responder às necessidades das populações afetadas e para lançar várias iniciativas humanitárias apoiadas pela FAO e pelo Programa Alimentar Mundial (PAM). Por exemplo, na Nigéria, a Agência Nacional para a Gestão de Emergências (Nema) e a Agência dos Estados Federais para as Emergências (Sema) estão na vanguarda para levar alimentos e bens de diversos tipos para os deslocados. Mas é preciso salientar que esses territórios devastados pelos conflitos têm em sua raiz os efeitos das mudanças climáticas e também uma total ausência de investimentos nos setores agrícolas e rurais. Portanto, é fundamental que os governos locais atuem com o objetivo de intervir financiando projetos sustentáveis ligados à agricultura e ao desenvolvimento.

Em que termos a FAO consegue colaborar com as autoridades locais da região?

Existem vínculos muito estreitos e um diálogo contínuo entre a FAO e as autoridades do governo. Isso foi reafirmado pelo diretor da FAO, Graziano da Silva, junto com o primeiro-ministro chadiano, durante a sua visita ao Chade ocorrida em abril passado. As suas discussões visavam aos poucos meios detidos pelos habitantes mais dependentes da agricultura, da irrigação e da pesca. A situação é grave porque, nos últimos 50 anos, o lago Chade perdeu 90% da sua massa de água. Enquanto isso, na Nigéria, Silva se encontrou com alguns altos funcionários do governo, com os quais discutiu o desemprego juvenil no setor rural, o fortalecimento da resiliência das pessoas mais vulneráveis e a nutrição das crianças. Para a FAO, os primeiros parceiros nos países em questão são os ministérios da agricultura, logo depois vêm os órgãos descentralizados do Estado.

Quais serão as suas operações futuras?

A FAO desenvolveu uma estratégia trienal para melhorar a segurança alimentar e a nutrição na bacia do lago Chade e para reforçar a resiliência das comunidades mais atingidas. Os fundos necessários são de cerca de 232 milhões de dólares para os quatro países, com o objetivo de assistir a três milhões de pessoas, especialmente mulheres e jovens.

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