Homossexualidade e religião

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03 Agosto 2019

Muitas coisas melhoraram nos últimos cinquenta anos para homossexuais e lésbicas. Mas, ao mesmo tempo, essas pessoas são novamente objeto de forte hostilidade - muitas vezes com motivações religiosas. O judaísmo, o cristianismo e o islamismo devem enfrentar seu problema contra a homossexualidade. Há cinquenta anos, pela primeira vez, nos EUA os homossexuais se opuseram, na revolta de Stonewall, à violência policial. Vinte e cinco anos atrás, era definitivamente anulado o "parágrafo sobre os gays" 175, que punia "comportamentos homossexuais". Desde a década de 1980, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, intersexuais e outras pessoas queer, que não correspondem às representações comuns de sexualidade e gênero, celebram na Christopher Street, em Nova York, a revolta de Stonewall como ponto de virada em sua luta por seu reconhecimento e pelo reconhecimento dos seus direitos. Há alguns anos também um número crescente de grupos religiosos expressam sua solidariedade a tais manifestações.

A reportagem é de Anne Strotmann, publicada por PublikForum, 26-07-2019 A tradução é de Luisa Rabolini.

Por um lado, a atitude de aceitação dos homossexuais é cada vez mais difundida. Na Alemanha, levou em 2017 ao casamento para todos. 95% dos alemães, de acordo com uma pesquisa do comitê antidiscriminação do país, consideram positivo que os homossexuais sejam defendidos pela lei sobre as discriminações. Por outro lado, os ataques homofóbicos aumentaram em 30%. As circunstâncias alteradas fazem emergir aqueles que querem bloquear esses desenvolvimentos.

Enquanto homossexuais e lésbicas não eram visíveis publicamente, podiam facilmente ser ignorados. Agora, alguns acreditam que direitos iguais para todos sejam excessivos e se ativam de maneira particularmente agressiva para enviar de volta gays e lésbicas à invisibilidade. Grupos cristãos aderem a tristes alianças com as direitas, como na iniciativa "Demo für alle" contra a ideologia LGBT. É muito fácil apontar o dedo para certas comunidades religiosas, de acordo com o lema: apenas os outros são homofóbicos. Não se deveria ignorar o fato de que, mesmo dentro das confissões, os fiéis têm visões diferenciadas.

No Kirchentag em Dortmund, a professora Birgit Klein, rabina liberal, disse que, sobre esses temas, ela não tem nada a ver com os judeus ortodoxos. "Vocês acham que um protestante seja responsável pelo que acredita seu colega católico?" É realmente tão simples assim? Não deveria dizer respeito a todo crente o fato de que algumas pessoas são marginalizadas em nome de Deus? Não se pode negar que todas as três religiões abraâmicas tenham contribuído para aumentar e depois fixar por razões religiosas os sentimentos negativos em relação a gays e lésbicas. A escolha que alguns pensam ter que fazer: "ou Deus ou gay", foi se fixando na mente de muitos crentes, mesmo naqueles que são homossexuais.

Nenhum crente pode evitar o problema, deve tomar uma posição sobre homossexualidade e religião. O desprezo baseado em motivos religiosos contra minorias sexuais frequentemente tem consequências fatais e depreciativas. Não é indiferente a maneira como se fala deles. Como eles são tratados nas paróquias? Eles são excluídos, julgados, silenciados - ou são abordados de maneira explicitamente acolhedora?" Se alguém é gay e busca o Senhor e tem boa vontade - quem sou eu para julgar?", havia dito em 2013 o Papa Francisco, em uma entrevista. Parece algo simples, mas infelizmente não é. A Igreja Católica argumenta, é verdade, que em seu catecismo as pessoas homossexuais não devem ser difamadas, porque "eles não escolheram essa orientação". Mas também afirma que essa orientação é "objetivamente desordenada" e representa uma prova.

Em 2016, Francisco confirmou um juízo de 2005 da Congregação Romana para a Doutrina da Fé, que estabelecia "com toda clareza" que a Igreja não pode admitir padres que tenham arraigadas tendências homossexuais ou que apoiem a chamada cultura homossexual. Mas se os padres vivem no celibato, não deveria ter nenhum peso com que gênero eles não fazem sexo! Mas a Igreja Católica entende o ser homossexual uma mancha fundamental. "Padres homossexuais são para a mãe igreja ‘filhos apagados’", comenta o jesuíta de Frankfurt Ansgar Wucherpfennig. Apagados são, portanto, também cuidadores de almas autênticos e sensíveis, teólogos criativos, pregadores que entusiasmam. Aqueles que criticam essa atitude da Igreja, como faz Wucherpfennig, só podem esperar ser sancionados. A Igreja não tem mais nada em que pensar? O professor de teologia fundamental de Münster, Michael Seewald, se expressou recentemente sobre isso numa rádio alemã: "Acho que os papéis sexuais e a moral sexual nas últimas décadas se tornaram um marcador identitário do católico em muitos ambientes. A tal âmbito está ligada uma certa ordem social que quer manter o magistério e, portanto, reage a posições divergentes de maneira extremamente sensível".

Uma coisa semelhante também se aplica às religiões irmãs. Também no judaísmo e no islamismo, para a política "don’t ask-don’t tell” (“não perguntar, não contar"), gays e lésbicas continuam invisíveis ao mais alto grau. Porém, onde um número cada vez maior de pessoas queer não quer mais se esconder, aumenta a pressão externa para justificar a atitude de rejeição em relação a elas. E para fazer isso, tanto no judaísmo, como no Cristianismo e no Islamismo aparecem sempre os mesmos argumentos: a Escritura e a "natureza" consideradas uma ordem das coisas que se está convencido tenha sido dada por Deus.

À cômica judia lésbica Lynn Lavner é atribuída uma citação que alveja a homofobia biblicamente fundamentada: "A Bíblia contém seis advertências aos homossexuais e 362 advertências aos heterossexuais. Isso não significa que Deus não ame os heterossexuais. Eles só precisam ser observados com mais atenção". Lavner faz uma caricatura do abuso das Escrituras por opiniões que já existiam anteriormente: quem procura, acha. Exegetas cristãos, judeus e muçulmanos se opuseram centena de vezes para que determinados versículos sejam retirados de seu contexto. Trata-se em todas as três religiões dos mesmos versículos. Versículos dos quais se deduziu que especialmente as relações anais entre homens sejam "contra a natureza". Uma formulação que foi aceita pelo parágrafo 175 do código penal alemão e que também é encontrada nos juízos da sharia. Porém, independentemente do fato que se trate do Levítico, de Paulo ou dos Hadiths do profeta Maomé: interpretar uma Sagrada Escritura ou indicações religiosas de modo a justificar o ódio e a violência, é heresia.

Um Deus que exigisse isso, não é Deus. Já há tempo não se discute mais na teologia com a "doutrina da lei natural". Mas ainda é arbitrariamente utilizada uma ordem, que se diz quista por Deus, para justificar hierarquias, como no passado era justificada a escravidão. Que sempre a mesma argumentação seja utilizada para indicar aos homens, mas especialmente às mulheres, seu lugar "certo" é significativo. É evidente que também a desvalorização das relações homossexuais tem sua raiz nessa ordem de tipo patriarcal. Mas justamente a Igreja católica tão masculina parece querer manter essa ordem. O professor de teologia fundamental Stephan Goertz apontou detalhadamente com grande clareza essa atitude defensiva em sua coletânea “Wer bin ich, ihn zu verurteilen? - Homosexualität und katholische Kirche"(Quem sou eu para julgar? Homossexualidade e Igreja católica, em tradução livre").

Antes do século XIX, os comportamentos homossexuais eram considerados decisões pecaminosas contra a vontade de Deus. Nos séculos XIX e XX, os cientistas declararam que a homossexualidade era um conceito identitário inato. Na Igreja, abriu caminho com algumas décadas de atraso o novo consenso: se a homossexualidade é inata, não é uma escolha e, portanto, não pode ser um pecado. No entanto, apesar disso, não foi aceita: a homossexualidade continuou sendo considerada uma consequência da queda no pecado. De pecadores que agiram livremente, se tornaram seres deploráveis marcados por um defeito de origem. Até 1992, a homossexualidade ainda era listada como doença pela OMS.

A Igreja não discrimina mais do que o resto da sociedade. Entretanto ela, mesmo em temas que vão além de suas competências principais (astronomia, evolução, sociologia), recusa-se tanto a aceitar novas descobertas, que suas posições se tornam penosas de serem defender por seus fiéis. O estado da pesquisa sexual hoje mudou: a sexualidade é mais fluida do que se pensava no século passado. O argumento "born this way" (nascido assim) que absolvia gays e lésbicas de culpa moral por terem nascido assim, ignora o fato de que a sexualidade é certamente também definida geneticamente, mas não apenas por isso. Estudos de longo prazo (como os da Escola de Saúde Pública de Harvard) mostram que as orientações sexuais podem mudar ao longo dos anos.

A pergunta de por que alguém se apaixona por uma pessoa do mesmo sexo é uma pergunta que tem sentido apenas se considerarmos tal estado anormal ou necessitado de correção. Caso contrário, poder-se-ia simplesmente regozijar-se com quão maravilhoso é estar apaixonado. Erotismo homossexual no Islã? Naturalmente! A forma como uma sociedade ou uma comunidade religiosa pensa sobre gays e lésbicas tem consequências para a legislação. O estado judeu de Israel tem as leis mais favoráveis para a homossexualidade em todo o Oriente Médio. Casais homossexuais reconhecidos pelo Estado podem adotar crianças. Judeus progressistas ou conservadores admitem às cerimônias religiosas casais do mesmo sexo. Apenas a minoria dos judeus ortodoxos rejeita casais homossexuais. Isso foi experienciado pelo rabino ortodoxo declaradamente homossexual Steven Greenberg e seu companheiro quando sua filha Amália foi rejeitada por uma creche ortodoxa.

Em muitos países islâmicos, a situação é muito mais dramática. Em alguns, a homossexualidade é punida com pena de morte. O ódio contra os homossexuais que hoje se manifesta em muitos contextos muçulmanos é considerado por pesquisadores de temas religiosos como um desenvolvimento recente. Acreditam que a causa deva ser principalmente buscada na história colonial. Anteriormente, os comportamentos homoeróticos não eram incomuns - uma circunstância que irritava muito os patrões coloniais. A subdivisão europeia da sexualidade normal e anormal que se difundiu no século XIX, as sociedades muçulmanas de hoje a consideram parte de sua cultura. A lei islâmica clássica preocupava-se principalmente de relações anais entre homens que devido às representações patriarcais da dignidade e honra masculinas eram considerados particularmente obscenas. Na prática, porém, as sentenças quase nunca eram seguidas, e a sexualidade lésbica permaneceu (em todas as três religiões), no máximo, como uma nota marginal. Uma literatura romântica homoerótica masculina, inclusive com detalhes sexuais, era culturalmente aceita no mundo islâmico.

Havia também a crença generalizada de que a natureza masculina refletia a perfeição divina. No período florescente do Islã, estudiosos islâmicos explicavam a tendência para o próprio sexo como um desejo natural que se encontra dentro de cada pessoa. Ainda hoje há estudiosos em países islâmicos que seguem tal visão. Principalmente se limitados exclusivamente à condenação das relações anais, como também o fazem os judeus ortodoxos. Além disso, especialmente na África do Sul, EUA, Canadá e Grã-Bretanha, já há bastante anos, há muçulmanos que inclusive com base na teologia feminista questionam as leituras excludentes e aceitam totalmente crentes homossexuais. Desde a década de 1990, também existem imãs declaradamente gays. A atitude em relação à homossexualidade não constitui uma característica identitária de uma religião.

Caso se perguntasse a um cristão, a um judeu ou a um muçulmano sobre como é a situação na sua religião, a resposta definitivamente não seria: "Nosso Deus é contra os gays". É uma questão de repensar o que é essencial na vida com Deus e com o próximo. Em 2011, Jay Michaelson, um judeu ortodoxo homossexual publicou com "God vs. Gay?" uma empática "defesa religiosa para a equiparação dos direitos". Nele, o autor não coloca no centro as poucas citações que são manipuladas contra os homossexuais, mas aquilo que ele considera fundamental a partir das Sagradas Escrituras: um Deus que ama nunca pode querer que alguém tenha que se esconder. Sinceridade e integridade são sagradas, então "assumir" é um ato religioso.

A variedade sexual é parte natural da criação de Deus. Tratar injustamente as minorias sexuais é uma afronta aos valores religiosos. "Considero um tanto ofensivo quando alguém me diz que não é tão importante que eu, por acaso, seja gay", escreve Michaelson. "É importante. Influencia meu modo de viver, de amar, de me posicionar em relação à religião, estilo, política e cultura ". É uma parte do que eu sou e eu gostaria de estar presente na minha comunidade religiosa com todo o meu ser - e não ouvir de que uma parte de mim não é importante. É importante e enriquece toda a minha comunidade".

Mas muitas comunidades religiosas fecham suas portas para as preciosas experiências de pessoas queer. O que deveriam fazer? O primeiro passo seria pedir desculpas sinceras aos gays, lésbicas e todas as pessoas queer. O segundo, dirigir-se explicitamente a elas e aceitá-las assim como são. E não esperar que se adaptem ao ponto de ser invisíveis. As perspectivas de gays e lésbicas podem ser enriquecedoras, precisamente por serem queer, isto é, diferentes.

As religiões respondem ao modo de existir humano. Em suas narrativas fundacionais, há a visão de outra realidade, de um mundo mais justo. Moisés, Abraão, Jesus, Paulo, Maomé, enraizados em sua fé, são "queer" no sentido de que estavam abertos à chegada da novidade, à revelação de Deus. Eles se abrem e seguem seu chamado. Jesus talvez não fosse gay, mas tampouco correspondia ao ideal da masculinidade de seu tempo: evidentemente permaneceu não casado, falava com mulheres e atribuía-lhes competência teológica. Em vez de ter uma esposa e filhos, reuniu em torno de si outros "dissidentes" - e que comunidade! "Estilos de vida" insólitos são encontrados em conventos, comunidades religiosas e padres que vivem como celibatários. Eles se orientam com base em visões de comunidade, sexualidade e amor que são diferentes das normas da sociedade. Ser religioso e ser queer, é algo que traz em si um potencial revolucionário. Tornamo-nos mais livres, mais saudáveis, mais ternos, mais atentos, mais pacientes e mais amorosos, quando nossos sentimentos e desejos se integram com a fé em Deus de maneira responsável. Ou, de acordo com o lema da Igreja evangélica no Christopher Street Day em Berlim: "O amor faz bem à alma".

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