"Esse Papa tem muitos inimigos, sobretudo nos ambientes clericais e no próprio Vaticano". Artigo de José María Castillo

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05 Junho 2019

Aos homens tão duros em sua incredulidade, Jesus argumentou mais forte: “Se não crês em mim, crede em minhas obras”.

O artigo é de José María Castillo, teólogo, publicado por Religión Digital, 03-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Tenho a impressão de que, a cada dia que passa, fica mais difícil acreditar em Deus, em Jesus Cristo, na religião e na Igreja. Não sei explicar exatamente por que isso acontece. Mas essa dificuldade crescente é um fato, acho que é inquestionável.

Felizmente, no que diz respeito à fé dos católicos, temos agora um Papa, o papa Francisco, que impressiona muito as pessoas. E isso gera para as pessoas muito a se pensar. Embora também seja verdade que este papa têm muitos inimigos, sobretudo nos ambientes clericais e no próprio Vaticano. Porque há muitos que não concordam com a humanidade e com a espontaneidade deste papa, que diz o que sabe e o que pensa com a máxima naturalidade do mundo. E isso, há pessoas, muitas pessoas, que não aguentam.

Mas não vamos perder a esperança. Tudo tem solução. E isso também. Além disso, é uma solução que depende de nós, desde que levemos a sério e coloquemos mãos à obra.

Dificuldades para crer

Me explico. Por mais estranho que pareça, é fato que os discípulos de Jesus tiveram dificuldades muito sérias para crer. Os evangelhos sinóticos repetem até depois da ressurreição de Jesus (Mt 6, 26; 14, 31; 16, 8; 17, 20; Mc 4, 40: 16, 11. 13. 14: Lc 8, 25; 24, 11). Aqueles homens, que conviveram com Jesus, que o acompanharam e conheceram tão de perto quem era e como era Jesus, não acabaram confiando nele. Por isso, não devemos estranhar que a nós também venham dúvidas e sintamos obscuridades no complicado assunto da fé.

Então, onde está o problema e como encontrar a solução nesse tema, sempre tão complicado e escuro? O Evangelho dá uma solução, que seguramente não imaginamos. O problema da fé em Jesus e seu Evangelho não se resolve atirando dogmas e teologias, teorias e argumentos, revelações e rezas. A solução do problema da fé não está somente em Jesus, mas sim sobretudo “nas obras” que Jesus realizou.

Assim disse o mesmo Jesus, aos incrédulos mais duros que o próprio Jesus encontrou na sua vida, que não se podem identificar necessariamente com os dirigentes do judaísmo, mas sim com os que se opuseram a Deus (cf. H. Kuhli, en Dic. Ex. N.T., vol. I, 2013-2027). A esses homens tão duros em sua incredulidade, Jesus argumentou mais forte: “Se não crês em mim, crede em minhas obras”. A ‘obra’ (ergon) de Jesus é o argumento determinante de que Jesus é o Enviado de Deus, como solução e como salvação (Jo 5, 36; 10, 25; cf. 7, 7).

A coerência de Jesus

Tudo o que seja “Deus”, a “salvação”, o “outro mundo” a “religião”, a “outra vida”, toda essa linguagem e seus conteúdos se fazem, para muita gente, impossíveis de crer, insuportáveis ou insignificantes. Há somente uma coisa a que todo mundo se rende. Me refiro à coerência, à harmonia, à correlação daquilo que diz e daquilo que faz. Quando o que se faz é sempre o bem a quem mais o necessita, então as “obras” (“erga”) têm tal força que não há quem resista ao poder de semelhante argumento. Até Jesus age assim.

Portanto, até João Batista (já na prisão e sofrimento) quando ouviu sobre as "obras" que Jesus fez, ficou perplexo. Até mesmo duvidar se Jesus era o Messias (Mt 11, 2-3). E, de fato, as obras de Jesus não foram para castigar os pecadores, como João esperava (Mt 3, 7-12), mas para curar e dar vida àqueles que sofrem (Mt 11,5).

É o argumento definitivo, que não tem resposta. É por isso que, mesmo no Evangelho, o que Jesus diz é crível, porque coincide com o que Jesus faz. E quando o que é dito e o que é feito é bom para aqueles que sofrem, à custa do que quer que seja, então nem fala nem age "o humano". É Deus, no humano, que se faz presente na nossa vida. Quaisquer que sejam suas ideias, suas crenças ou suas preferências.

É por isso que eu nunca me canso de repetir o que Immanuel Kant escreveu: "A práxis deve ser tal que não se pode pensar que não há além" (Gesammelte Schriften VII, p.40). Falar do "além" e viver pelo "mais aqui", é o que os políticos fazem, que não se cansam de mentir e nos enganar, para ganhar poder e posições, mesmo que nos mergulhem no desespero.

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