Chile. Mulheres protestam contra nomeação de bispo. Carta aberta ao papa Francisco

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31 Maio 2019

"Nos preocupa sobretudo as declarações do novo bispo-auxiliar de Santiago, Carlos Irarrázaval Errázuriz, a respeito das mulheres e suas leituras e conhecimentos bíblicos e históricos. Como é possível seguir escutando de um pastor dizer que 'na Última Ceia não havia mulheres sentadas à mesa'? Sabemos que os Evangelhos sinópticos falam dos 'doze' e que João fala de 'discípulos'. Mas, há, ao menos, espaço para discussão e interpretação", manifestam as mulheres do grupo Mujeres Iglesia Chile, ao Papa Francisco.

A carta é de Mujeres Iglesia Chile. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a carta.

Carta aberta ao Papa Francisco

Querido irmão Francisco,

Te escrevemos na esperança do Ressuscitado e no convencimento pleno de que nossa Igreja deve ser como “sacramento, ou seja, símbolo e instrumento da íntima união com Deus e da unidade do gênero humano” (LG 1). Assim também, cremos, professamos e vivemos a igual dignidade que, como mulheres batizadas, temos como todos os homens batizados, nos distintos carismas e funções. Nós somos configuradas a Cristo pelo batismo (LG 7), ainda quando em inumeráveis oportunidades nos fez sentir e experimentar o contrário.

Nesses últimos dias, nos surpreendemos pelas declarações efetuadas pelo recém nomeado bispo-auxiliar de Santiago, Carlos Irarrázaval Errázuriz. Em meio a profunda crise que vive nossa Igreja chilena e, em particular, a de Santiago, não conseguimos entender essa nomeação.

Não duvidamos da qualidade humana do senhor Irarrázaval. No entanto, para a nossa Igreja do Chile, hoje, não bastam homens bons. Necessitamos com urgência não somente de homens de bem, mas sim líderes preparados, com uma teologia e visão de mundo atualizadas, que dialoguem com os tempos e com uma experiência pastoral lúcida e adulta. O que escutamos do designado bispo auxiliar não tem nada disso e é altamente preocupante.

Referir-se à profundidade da crise com metáforas gastronômicas como “o arroz requentado”, nos parece, ao menos, inadequado e desrespeitoso. Tais metáforas invisibilizam as vítimas e sobreviventes, e se banaliza a tragédia vivida.

A antropologia que emanam de suas palavras, nos parece, também, preocupante e, ademais, superada pela teologia atual que reconhecei desde muito tempo que a antropologia bíblica é unitária e que não deve admitir afirmações como “a de cuidar das almas”. O sacerdote, assim como todo batizado e batizada, está chamado a cuidar das pessoas (Mt 25), não apenas almas, com toda complexidade que demanda nossa humanidade.

Como Mujeres Iglesia Chile, nos preocupa sobretudo suas declarações a respeito das mulheres e suas leituras e conhecimentos bíblicos e históricos. Como é possível seguir escutando de um pastor dizer que “na Última Ceia não havia mulheres sentadas à mesa”? Sabemos que os Evangelhos sinóticos falam dos “doze” e que João fala de “discípulos”. Ao menos, há espaço para discussão e interpretação.

A evidência, hoje, é muito abundante como para afirmar que na celebração pascoal – uma festa judaica – Jesus celebrou como um judeu: com mulheres, crianças e familiares. Por acaso, imaginamos que, chegado o momento da benção do pão, Jesus disse às mulheres “saiam que agora é somente para homens”? A tradição – elaborada principalmente por homens – interpretou que as mulheres estavam ausentes. No entanto, a probabilidade histórica se inclina para a presença das mulheres na Última Ceia e há abundante literatura para se colocar em dia. E não estamos falando aqui de ordenação sacerdotal. Falamos de participação com cidadania plena porque os discípulos tampouco eram sacerdotes. Não queremos “fazer homens lutarem [com as mulheres], como um galo, de quem é maior”, segundo as palavras de Irarrázaval.

Essa lógica de interpretação literal da Escritura é muito perigosa: um punhado de discípulos homens covardes deixaram Jesus sozinho na sua hora mais amarga. Um punhado de discípulas mulheres valentes o acompanharam nesse transe, até à morte e, a elas, Jesus deu a missão de anunciá-lo ressuscitado. Seguindo a lógica do designado bispo auxiliar, somente as mulheres deveriam anunciar o Ressuscitado. A alguém pode parecer razoável essa afirmação? Por que, então, poderia parecer razoável, expressar isso pelo designado bispo sobre a mesa da Última Ceia?

Em 8 de março deste ano, a marcha feminista que reuniu o maior número de mulheres na história das manifestações em nosso Chile. Somente em Santiago, mais de 190 mil mulheres fizeram história pedindo para deixar de serem ignoradas, clamando contra a normalização da violência, pedindo que nossas vozes sejam ouvidas e como foram ouvidas em todo o Chile!

O Sr. Irarrázaval, não estava no país?  Não foi possível descobrir o clamor das mulheres? Como explicamos, então, suas palavras: "Talvez gostem de estar no quarto dos fundos", onde não se escuta a nossa voz?

Ou será que ele acha que as mulheres da Igreja deveriam estar em casa, silenciosas? Muitas das mulheres que assinaram esta carta - e também homens - querem um papel mais ativo em nossa Igreja, mais participação nas decisões, mais responsabilidades e mais protagonismo. Os espaços que conquistamos na sociedade civil, queremos também na Igreja. Caso contrário, o êxodo das mulheres do barco de Pedro será maior e mais inevitável.

Suas declarações sobre os judeus também parecem inaceitáveis e incorretas. Desde o Concílio Vaticano II, um grande impulso foi dado ao diálogo inter-religioso e à compreensão mútua dos credos. Hoje sabemos que não é historicamente correto ou eticamente aceitável simplesmente afirmar que "a cultura judaica é uma cultura machista até hoje" e que as mulheres continuam andando atrás de seus maridos. Essa estratégia de descrever o judaísmo como um todo - ou qualquer outra religião - como patriarcal e machista é questionável, considerando, além disso, que no judaísmo existem rabinos. O resultado dessa interpretação é muito perigoso para o cristianismo, porque o impede de assumir a responsabilidade por seu próprio machismo e seu sexismo.

Em resumo, querido Francisco, e falando com a parrésia dos filhos e filhas de Deus, que vocês nos encorajaram a ter, levantamos nossas vozes para exigir pastores no auge da complexidade da crise pela qual estamos passando. Pastores que claramente distinguem o que significa e como se faz para falar do púlpito ou na esfera pública - onde os destinatários vêm de diversas origens, sensibilidades e credos. A nomeação deste bispo auxiliar leva-nos a perguntar, uma vez mais, com que critérios se procuram os bispos? O que está acontecendo com o sistema de busca? Que participação as comunidades podem ter para que esses erros não continuem sendo cometidos? Como cristãs e cristãos adultos, não estamos mais dispostos a permanecer em silêncio. Esse silêncio contribuiu para a crise que estamos vivendo, por isso não nos calaremos novamente.

Precisamos de pastores bem treinados, com uma teologia atualizada que permita o diálogo e tome conta das questões levantadas pela nossa sociedade. Pastores que veem que a exclusão das mulheres está matando a Boa Nova. Bispos que entendem que o Espírito também é derramado entre os leigos e que temos o direito e a obrigação de expressar nossa opinião (LG37).

No espírito da correção fraterna, enviamos essas observações ao bispo Irarrázaval.

Caro Irmão Francisco, esperamos que você nos designe para nos ajudar a enfrentar a crise e não para continuar aprofundando.

Na véspera da festa de Pentecostes, nós os saudamos com todo nosso carinho e oramos por você.

Santiago de Chile, Pentecostes 2019

 

Coordinadoras de Mujeres lglesia Chile

Alexandra Cabrera, professora, Vicaría de la Educación, Santiago;

Bernardita Zambrano, rscj, engenheira comercial, teóloga pastoral;

Antofagasta Carolina del Río, teóloga e jornalista, Santiago;

Carolina Acufia, Profesora, CVX La Serena;

Judith Shõnsteiner, doutora en Direito, pesquisadora, CVX Santiago;

Luísa Escobar, religiosa CM, Santiago;

Magdalena Mufioz, cientista social, estudante de Teologia PUC, Santiago;

Soledad Tejeda, professora, Osorno.

 

Abajo, la carta original, en español

Carta abierta al Papa Francisco

Querido hermano Francisco,

Te escribimos en la esperanza del Resucitado y en el convencimiento pleno de que nuestra lglesia debe ser como ''sacramento o sea, signo e instrumento de la íntima unión con Dios y de la unidad del género humano'' (LG 1). Así también, creemos, profesamos y vivimos la igual dignidad que, como mujeres bautizadas, tenemos con todos los bautizados varones, en los distintos carismas y funciones. Nos sabemos configuradas con Cristo por el bautismo (LG 7), aun cuando en innumerables oportunidades se nos ha hecho sentir y experimentar lo contrario.

En estos últimos días nos hemos sorprendido por las declaraciones efectuadas por el designado obispo auxiliar de Santiago, Carlos Irarrázaval Errázuriz. En medio de la profunda crisis que vive nuestra lglesia de Chile y, en particular, la de Santiago, no logramos entender este nombramiento.

No dudamos de la calidad humana del Sr. Irarrázaval. Sin embargo, a nuestra Iglesia de Chile, hoy no le bastan hombres buenos. Necesitamos con urgencia no sólo hombres de bien, sino líderes preparados, con una teología y visión del mundo actualizadas, que dialoguen con los tiempos y con una experiencia pastoral lúcida y adulta. Lo que hemos escuchado del designado obispo auxiliar no tiene nada de esto y es altamente preocupante.

Referirse a la profundidad de la crisis con metáforas gastronómicas como el "arroz recalentado '', nos parece, a lo menos, inadecuado e irrespetuoso. Tales metáforas invisibilizan a las víctimas y sobrevivientes y se banaliza la tragedia vivida.

La antropología que traslucen sus palabras, nos parece, también, preocupante y, además, superada por la teología actual que ha reconocido desde hace demasiados afíos que la antropología bíblica es unitaria y que no debe admitir afirmaciones como ''la de cuidar almas''. El sacerdote, así como todo bautizado y bautizada, está llamado a cuidar personas (Mt 25) no almas, con toda la complej idad que demanda nuestra humanidad.

Como Mujeres lglesia Chile, nos preocupan sobremanera sus declaraciones respecto a las mujeres y su lectura y conocimiento bíblico e histórico. Cómo es posible seguir escuchando de un pastor decir que ''en la Ultima Cena no había mujeres sentadas a la mesa"? Sabemos que los Evangelios sinópticos hablan de ''los doce'' y que Juan habla de ''discípulos''. Al menos, hay espacio para la discusión y la interpretación.

La evidencia, hoy, es muy abundante como para afirmar que en la celebración pascual - una fiesta judía - Jesús celebró como un judío más: con mujeres, niíios y familiares. Por acaso, imaginamos que, !legado el momento de la bendición del pan Jesús les dijo a las mujeres ''salgan que lo que sigue es solo para varones''? La tradición - elaborada principalmente por hombres - ha interpretado que las mujeres estaban ausentes. Sin embargo, la probabilidad histórica se inclina hacia la presencia de las mujeres en la Ultima Cena y hay abundante literatura para ponerse al día. Y no estamos hablando aquí de ordenación sacerdotal. Hablamos de participación con ciudadanía plena porque los discípulos tampoco eran ''sacerdotes''. No queremos ''hacer luc/1ar al hombre [con la mujer], hacer un gallito, quién es más'', según palabras de Irarrázaval.

Esta lógica de interpretación literal de la Escritura es muy peligrosa: un puíiado de discípulos varones cobardes dejaron a Jesús solo en su hora más amarga. Un puíiado de discípulas mujeres valientes lo acompaíiaron en ese trance, hasta la muerte y, a ellas, Jesús les dio la misión de anunciarlo. Siguiendo la lógica del designado obispo auxiliar, sólo las mujeres deberíamos anunciar al Resucitado. A alguien puede parecerle razonable esta afirmación? Por quê, entonces, podría parecer razonable lo, expresado por el designado obispo sobre la mesa de la Ultima Cena?

El 8 de marzo de este afio, se vivió en Chile la marcha feminista que congregó la mayor cantidad de mujeres en la historia de las manifestaciones en nuestro país. Solo en Santiago, más de 190 mil mujeres hicimos historia pidiendo dejar de ser ignoradas, clamando contra la normalización de la violencia, pidiendo que se escucharan nuestras voces y cÓmo se escucharon en todo Chile!

El Sr. Irarrázaval (,no estaba en el país? (no pudo informarse del clamor de las mujeres?) Cómo explicamos, entonces, sus palabras: "quizás a ellas mismas les gusta estar en la trastienda ", donde no se escucha nuestra voz?

O es que acaso él piensa que las mujeres de Iglesia debemos estar en la casa, silenciosas? Muchas de las mujeres firmantes de esta carta - y también varones - queremos un rol más activo en nuestra Iglesia, más participación en las decisiones, más responsabilidades y más protagonismo. Los espacios que hemos ganado en la sociedad civil, los queremos, también, en la Iglesia. De lo contrario el êxodo de las mujeres de la ''barca de Pedro'' será cada vez más grande e inevitable.

Sus declaraciones sobre los judíos nos parecen, también, inaceptables e incorrectas. Desde el Concilio Vaticano II se ha dado un gran impulso al diálogo interreligioso y a la mutua comprensión de los credos. Hoy sabemos que no es históricamente correcto ni éticamente aceptable afirmar sin más que ''la cultura judía es una cultura machista hasta hoy día'' y que las mujeres siguen caminando detrás de los maridos. Es cuestionable esta estrategia de describir al judaísmo en su conjunto - o a cualquier otra religión - como patriarcal y machista, considerando, además, que en el judaísmo hay rabinas. El resultado de esa interpretación es muy peligroso para el cristianismo porque le impide asumir responsabilidades por su propio machismo y su sexismo.

En síntesis, querido Francisco, y hablando con la parresía de los hijos e hijas de Dios, que tú mismo nos animaste a tener, levantamos la voz para exigir pastores a la altura de la complejidad de la crisis que estamos atravesando. Pastores que distingan con claridad quê significa y cómo se hace para hablar desde el púlpito o en la esfera pública - en donde los(as) receptores(as) vienen de diversas procedencias, sensibilidades y credos. La designación de este obispo auxiliar nos lleva a preguntarnos, una vez más, con quê criterios se está buscando a los obispos? Quê está pasando con el sistema de búsqueda? Quê participación podemos tener las comunidades para que estos errores no se sigan cometiendo? Como cristianos y cristianas adultos ya no estamos dispuestos a guardar silencio. Ese silencio contribuyó a la crisis que vivimos, por eso, no volveremos a callar.

Necesitamos pastores bien formados, con una teología actualizada que permita dialogar y hacerse cargo de las preguntas que levanta nuestra sociedad. Pastores que vean que la exclusión de las mujeres está matando la Buena Noticia. Obispos que entiendan que el Espíritu está también derramado entre laicos y laicas y que tenemos el derecho y la obligación de manifestar nuestro parecer (LG37).

En el espíritu de la corrección fraterna, hemos hecho llegar estas observaciones al designado obispo Irarrázaval.

Querido hermano Francisco esperamos de ti designaciones que nos ayuden a enfrentar la crisis, no que la sigan profundizando.

En la víspera de la fiesta de Pentecostés, te saludamos con todo nuestro carifio y oramos por ti.

Santiago de Chile, Pentecostes 2019

 

Coordinadoras de Mujeres lglesia Chile

Alexandra Cabrera, Profesora, Vicaría de la Educación, Santiago;

Bernardita Zambrano rscj, Ing. Comercial, Teóloga Pastoral;

Antofagasta Carolina del Río, Teóloga y Periodista, Santiago;

Carolina Acufia, Profesora, CVX La Serena;

Judith Shõnsteiner, Doctora en Derecho, Investigadora, CVX Santiago;

Luísa Escobar, Religiosa CM, Santiago;

Magdalena Mufioz, Lic. Cs. Sociales, Estudiante de Teología PUC, Santiago;

Soledad Tejeda, Profesora, Osomo.

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