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23 Abril 2019

"A crise climática revelou os frágeis pés de barro em que se sustenta a economia capitalista, orientada estruturalmente para apropriar-se dos recursos naturais sem se preocupar em regenerá-los, aliás, envenenando terras, águas e pessoas. Mas as formas de governo que ainda são dominantes não escutam nem as vozes vindas do Sul do mundo nem aquelas que vêm das jovens gerações", escreve Letizia Tomassone, pastora valdense em Florença e professora de estudos feministas e de gênero na Faculdade Valdense de Teologia, em Roma, em artigo publicado por Confronti, abril de 2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A cultura ambiental tem frequentemente enfatizado a necessidade de pensar no futuro levando em conta sete gerações vindouras e o impacto que nossas ações atuais terão sobre elas. Agora uma dessas gerações começou a tomar a palavra. Um fato simples e ao mesmo tempo extraordinário, em um Ocidente que não está acostumado a deixar que os sujeitos falem em primeira pessoa, tendo mantido o hábito colonialista de falar em nome dos outros para controlar melhor seus discursos, os pensamentos e até mesmo as aspirações.

Essa jovem geração é representada por uma garota irritada e determinada. O fato que Greta Thunberg venha de uma das nações mais ricas do mundo corre o risco de esconder outras vozes do sul do mundo que há anos estão gritando a sua urgência: governar com os pés na água como nas Maldivas, populações reduzidas a zero em termos de infraestruturas como em Moçambique. Precisamos que as vozes se entrelacem e se reforcem mutuamente para aprender o caminho estreito da justiça climática, da conversão da economia do carvão para uma economia circular.

A crise climática revelou os frágeis pés de barro em que se sustenta a economia capitalista, orientada estruturalmente para apropriar-se dos recursos naturais sem se preocupar em regenerá-los, aliás, envenenando terras, águas e pessoas. Mas as formas de governo que ainda são dominantes não escutam nem as vozes vindas do Sul do mundo nem aquelas que vêm das jovens gerações. Eles continuam suas políticas "use e descarte", que garantem sua permanência no poder no curto prazo. O movimento das Fridays for Future tem a seu lado a força da idade e pegou todos de surpresa, restituindo confiança no futuro, mas essa força deve ser sustentada com análises, estudos e boas práticas contínuas e teimosas, como foi e é teimosa Greta.

Ela e muitas outras jovens mulheres estão mostrando a profundidade de uma orientação espiritual feminina que luta para proteger a mãe Terra e as mães e filhas de todo país, a partir da consciência de corpos que trazem a vida, mas que também estão mais expostos às ameaças climáticas e às violências cometidas contra o meio ambiente.

O empenho pela justiça ambiental e climática afunda suas raízes no corpo das mulheres, nas práticas pacifistas e não violentas que indicam alternativas ao consumo ganancioso dos recursos do planeta, e até mesmo ao consumo de pessoas, vistas como mercadorias, corpos mudos a serem explorados.

Proteger as terras das extrações insidiosas, proteger as sementes para dar um futuro à biodiversidade do planeta e proteger os corpos numa perspectiva de justiça de gênero significa dar materialidade ao compromisso pela paz.

Agora, as populações costeiras do mundo estão ameaçadas pelo derretimento das geleiras e fenômenos climáticos extremos ocorrem em muitas partes do mundo, enquanto as finanças ganham graças a sistemas de compensação "verde" ou prorrogações de controle sobre as emissões de CO2.

A vida, por outro lado, não pode ser negociada, nem a da Terra, nem a das jovens manifestantes que não querem deixar a decisão sobre o futuro apenas para os governos. Um futuro que deve ser construído já hoje, não com mediações e compromissos internos às relações de força entre os vários governos e as forças financeiras em jogo, mas através de passos de justiça.

A transição de uma economia baseada no carvão e nos recursos fósseis para uma economia circular que leva em conta a natureza orgânica do planeta, implica uma mudança de perspectiva e uma dimensão espiritual. Se a Terra é um conjunto inter-relacionado e vivo do qual fazemos parte, algumas palavras vêm em primeiro lugar: a reciprocidade enriquece o conceito de responsabilidade pelo planeta e o horizonte futuro dá um sopro mais amplo às escolhas feitas hoje; os direitos humanos e os direitos das mulheres são importantes, assim como os direitos das gerações futuras. A mudança que o planeta precisa requer nossa participação e nossa ação. Talvez o tínhamos esquecido, mas Greta e muitas, muitas jovens como ela, nos lembraram disso com urgência.

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