Abraão e o chamado "coletivo" de Deus para a família humana. O povo segundo Francisco

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09 Abril 2019

Publicamos um trecho do Il popolo secondo Francesco. Una rilettura ecclesiologica. (O povo segundo Francisco. Uma releitura eclesiológica, em tradução livre) de Walter Insero (Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2018, p.184, 11 euros), que foi apresentado na tarde de 8 de abril na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Estavam presentes o padre Dariusz Kowalczyk, decano da Faculdade de Teologia, o cardeal Angelo De Donatis, vigário geral do Santo Padre para a diocese de Roma, o padre Juan Carlos Scannone, professor de filosofia e teologia na Universidade Usal de São Miguel, na Argentina e dom Dario Vitali, professor de eclesiologia na Faculdade de Teologia. O encerramento será do frei Giulio Cesareo, editor da Lev. A moderadora será Stefania Falasca, jornalista do jornal Avvenire.

O texto foi publicado por L'Osservatore Romano, 06-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto. 

Para ilustrar a realidade mistérica da Igreja, o Papa Francisco, a partir do capítulo II da Lumen gentium, concebe a comunidade eclesial como o povo que Deus constitui. Ao apresentar aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro um ciclo de catequeses dedicadas à Igreja durante as audiências gerais das quarta-feiras, o Papa Francisco começou: "É um pouco como um filho que fala da própria mãe, da própria família. Falar da Igreja é falar da nossa mãe, da nossa família".

Como já havia lembrado aos cardeais no dia seguinte à sua eleição na Missa celebrada na Capela Sistina, Francisco reiterou: "A Igreja não é uma instituição voltada para si mesma ou uma associação privada, uma ONG, nem deve restringir seu olhar para o clero ou para o Vaticano”. De fato, ela "é uma realidade muito mais ampla, que se abre para toda a humanidade e que não nasce em laboratório", porque foi "fundada por Jesus, mas é um povo com uma longa história às suas costas e uma preparação que se inicia muito antes do próprio Jesus".

Francisco parte da "pré-história" da Igreja que ele reporta às páginas do livro do Gênesis dedicadas ao chamado de Abraão: "Deus não chama Abraão sozinho como indivíduo, mas desde o princípio envolve a sua família, seus parentes e todos aqueles que estão ao serviço da sua casa”. Deus pede ao patriarca que parta, deixe sua terra natal e se coloque em caminho para outra terra que ele iria indicar mais tarde: "Uma vez no caminho - sim, assim começa a caminhar a Igreja - então Deus ampliará novamente o horizonte e recompensará Abraão com sua bênção, prometendo-lhe uma numerosa descendência como as estrelas do céu e como a areia que está na praia”.

A partir da vocação de Abraão, Deus manifestou seu projeto: "Formar um povo abençoado por seu amor e que leve sua bênção a todos os povos da terra", um projeto que "não muda" e "está sempre ativo" que, em "Cristo teve o seu cumprimento e ainda hoje Deus continua a realizá-lo na Igreja". Na primeira homilia proferida durante a Missa concelebrada pelos cardeais eleitores, no dia seguinte à eleição, o Papa Francisco destacou o dinamismo que deve caracterizar a experiência da Igreja no tempo, expressando-a com três verbos retomados da liturgia da Palavra do dia: “Na primeira leitura o movimento no caminho; na segunda leitura, o movimento na edificação da Igreja; na terceira, no Evangelho, o movimento na confissão. Caminhar, edificar, confessar”.

Presidindo a essa primeira Eucaristia como bispo de Roma, Bergoglio reiterou a importância de caminhar para a experiência eclesial de fé: "Esta é a primeira coisa que Deus disse a Abraão: ‘Caminha na minha presença e seja irrepreensível’. Caminhar: a nossa vida é uma jornada e quando paramos, as coisas não funcionam. Caminhar sempre, na presença do Senhor, na luz do Senhor, tentando viver com aquela irrepreensibilidade que Deus pediu a Abraão, em sua promessa”.

O Papa, ciente das dificuldades e fraquezas do caminho da Igreja na história, reconhece que "não é assim tão fácil, porque ao caminhar, ao edificar e ao confessar, às vezes há turbulências, há movimentos que não são realmente movimentos do caminho: são movimentos que nos puxam para trás". Ele adverte: "Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor". O primeiro elemento que pretende destacar é que "Deus forma um povo para que traga a sua bênção a todas as famílias da terra" e dentro desse povo nasce Jesus.

O segundo elemento que Bergoglio nos convida a considerar é o seguinte: "Não é Abraão que constitui um povo ao redor de si, mas Deus que dá vida a esse povo". É Deus quem toma a iniciativa desde o momento em que "bate à porta de Abraão e diz a ele: vá em frente, comece a caminhar e eu farei de você um grande povo. E esse é o início da Igreja e nesse povo nasce Jesus”.

Como para Abraão, Deus forma um povo com "todos aqueles que ouvem a sua Palavra e que se colocam em caminho confiando nele. Essa é a única condição: confiar em Deus", porque se "você confia em Deus, você o escuta e você se coloca em caminho, isso é fazer a Igreja". O que acompanha o caminho desse povo é o amor de Deus que o precede em tudo: "Esta é a beleza da Igreja que nos leva a este Deus que nos espera! Precede Abraão, precede também Adão".

Como fez com o seu povo, ao longo de toda a história da salvação que pode ser resumida como "a história da fidelidade de Deus e da infidelidade do povo", Deus "continua a educar e formar o seu povo" acima de tudo "caminhando conosco”, Deus nos ensina a caminhar como faz um pai com o próprio filho pequeno, como descreve o profeta Oséias, “e é a mesma atitude que mantém a respeito da Igreja”. Por conseguinte, para o Papa Francisco "ser Igreja é sentir-se nas mãos de Deus, que é pai e nos ama, nos acaricia, nos espera, nos faz sentir sua ternura".

No intento de formar um povo que traga a sua bênção a todos os povos da terra, Deus "prepara este povo na Antiga Aliança até que, em Jesus Cristo, o constitua como sinal e instrumento da união dos homens com Deus e entre si." O Papa Francisco ressalta a imprescindibilidade do pertencimento do cristão a esse povo: "Não estamos isolados e não somos cristãos numa base individual, cada um por sua conta, não, a nossa identidade cristã é pertencimento! Somos cristãos porque pertencemos à Igreja”.

Esse pertencimento não representa um elemento secundário, de fato é "expresso também no nome que Deus atribui a si mesmo", quando lemos que Deus responde a Moisés definindo-se "Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó", não um deus dos lugares, mas um Deus em relação com as pessoas. Ele se revela como um Deus que firmou ma aliança com nossos pais e permanece fiel ao seu pacto para sempre. O Senhor "nos chama a entrar nessa relação que ele tem com o seu povo que precede a todos nós, vem daquele tempo".

O Papa Francisco, partindo dessa remota origem de pertencimento do cristão ao povo da aliança, esclarece que "ninguém se torna cristão por si mesmo" e "não se fazem cristãos em laboratório", mas "o cristão é parte de um povo que vem de longe. O cristão pertence a um povo que se chama Igreja e esta Igreja faz dele um cristão, no dia do Batismo, e depois no percurso da catequese e assim por diante". A Igreja para Francisco é "uma grande família em que somos acolhidos e aprendemos a viver como crentes e como discípulos do Senhor Jesus". Esse caminho pode ser vivido "só graças a outras pessoas" e "junto com outras pessoas", porque na Igreja "não existe o ‘faça você mesmo’", não há "freelancers", de fato "não podemos ser bons cristãos se não juntos com todos os que procuram seguir o Senhor Jesus, como um só povo, um só corpo, e isso é a Igreja”.

O Papa Francisco, numa das catequeses com as quais descreve aos fiéis a realidade da Igreja, analisando o termo com o qual o Concílio Vaticano II descreve a comunidade eclesial, desenvolve a sua reflexão, colocando-se questionamentos que não assumem apenas um valor retórico. De fato, de forma clara e sintética, a partir da pergunta: o que significa ser um povo de Deus?, ele responde: "Deus não pertence a nenhum povo de maneira isolada, porque é ele quem nos chama, nos convoca, nos convida a fazer parte de seu povo, e esse convite é dirigido a todos, sem distinção, porque a misericórdia de Deus ‘quer a salvação para todos’ (1 Timóteo 2, 4)". Consequentemente, para Bergoglio ser Igreja "significa ser o Povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai", sendo "fermento de Deus no meio da humanidade".

No que diz respeito à perspectiva soteriológica, na Evangelii gaudium, referindo-se ao número 36 da Gaudium et spes, Francisco acrescenta: "Essa salvação, que Deus realiza e que a Igreja anuncia alegremente, é para todos". Em virtude dessa visão universal, reunindo um povo "Deus deu origem a um caminho para nos unirmos a cada um dos seres humanos de todos os tempos" e "atrai-nos levando em conta a complexa teia de relações interpessoais que a vida em uma comunidade humana comporta”. Sendo "esse povo que Deus escolheu e convocou" a Igreja é chamada a ser luz, sal e fermento no mundo; o Papa Francisco estende o convite a todos para que sejam parte disso.

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