Fundamentação dos fundamentos. Artigo de Gianfranco Ravasi

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06 Abril 2019

"Sem um ato interpretativo que extraia o fundamento autêntico da mensagem bíblica de seu revestimento verbal, corre-se o risco de cair em uma série de paradoxos que Pinto ilustra brilhantemente", escreve Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 24-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Sebastiano Pinto
In nome di Dio Dai fondamenti al fondamentalismo
Messaggero, Pádua, p. 146, € 11,50

Fundamentalismo. O termo, que hoje associamos ao extremismo islâmico, originou-se em 1895 no âmbito cristão-protestante. Um livro analisa sua história, razões e desenvolvimentos. Ninguém teria imaginado há vinte anos que, em nível médio e até mesmo popular, entrasse a fazer parte do uso geral um específico léxico árabe de natureza homogênea, posto à insígnia do terror. Iniciou com jihad, literalmente "esforço, empenho", que se tornou, no entanto, sinônimo de "guerra santa", com seus relativos combatentes mujahidin. Depois se passou a conhecer a sharija, a legislação sagrada e até mesmo a pregação salafita, ou seja, a dos mestres ortodoxos "ancestrais". Depois dominaram os Taleban, isto é, os "estudantes" de teologia, e o termo al-Qaeda, "a base", com seu porta-bandeira Osama bin Laden, substituído pelo ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Síria) simplificado para EI e, mais corretamente, no árabe Daesh (Dawla al-Islamiyya fi al-iraqi wa sh-Sham), na prática o califado ("vicariato, sucessão" do Profeta) proclamado por Abu Bakr al-Baghdadi em Mosul em 2014.

E muitos sabem que na Somália proliferam os al-Shabaab, "os jovens", e na Nigéria o Boko Haram ("a educação ocidental é um pecado"), figuras lúgubres que matam sem misericórdia gritando Allah hu akbar! No entendimento comum, o fio condutor desse léxico é o termo "fundamentalismo", que geralmente é explicado como uma "literalidade" em relação aos ditames do Alcorão ou da tradição islâmica. De fato, esse vocábulo nasceu no âmbito cristã e precisamente em 1895, em uma encantadora cidade no estado de Nova York, Fort Niagara. Naquela ocasião um Congresso Bíblico Protestante de matriz conservadora havia definido - contra a nova teologia liberal, a exegese histórico-crítica e as tendências seculares da sociedade norte-americana - os "fundamentos" intangíveis da fé cristã. Era uma espécie de pentagrama teológico a ser assumido literalmente, sem recorrer a nenhuma hermenêutica suspeita de diluir sua substância.

Aqueles "fundamentos" eram a inerrância verbal da Bíblia, a divindade de Jesus Cristo, seu nascimento virginal, a doutrina da redenção vicária por ele operada a nosso favor com a expiação em sua morte e, finalmente, a sua e a nossa ressurreição corporal. Assim se delinearam uma literatura teológica e pastoral orientada de acordo com essas bases, uma Bíblia comentada (a Bíblia de Referência Scofield) e uma associação internacional. Mas o evento mais retumbante que divulgou o movimento na opinião pública foi o chamado "julgamento do macaco", celebrado no tribunal em 1925 em Dayton contra um professor defensor do evolucionismo, John Thomas Scopes, denunciado pelo líder dos fundamentalista William Jennings Brian, que anteriormente havia exercido o cargo de Secretário de Estado durante a presidência de Wilson.

A abordagem fundamentalista, que implicitamente já havia sido adotada por outras religiões, posteriormente iria adquirir importância sociopolítica até atingir um ápice inflamado nestas últimas décadas e não apenas na área islâmica, mas também em outras culturas religiosas (como, por exemplo, o hinduísmo ou às Testemunhas de Jeová e outros grupos radicais ultraconservadores). Um pequeno livro se propõe a delinear suas características de uma forma muito animada, mas também bastante documentada, que pode ser lido quase como uma narrativa, apesar da articulação rigorosa do tema. Sob o título In nome di Dio (Em nome de Deus, em tradução livre), em que, no entanto, Deus está riscado com uma marca vermelha, um famoso exegeta bíblico, Sebastiano Pinto, professor da Universidade Gregoriana de Roma, traça um enredo que tece análises de viés teológico, sociocultural e até mesmo psicológico com uma série de exemplos muito incisivos.

É evidente que a questão de base que se prende ao redor do fundamentalismo é a hermenêutica. A "inspiração" divina das Sagradas Escrituras é concebida substancialmente como um ditado material por parte de Deus. Ignora-se que a Palavra transcendente se comunica através de um mediador humano e, portanto, com uma linguagem contingente, com um conteúdo preciso e real, sim, mas condicionado por coordenadas histórico-culturais. É o que, por analogia, acontece com a Encarnação do Verbo Divino na "carne" da humanidade, celebrada no famoso prólogo do Evangelho de João (1,14) e centro da fé cristã. Sem um ato interpretativo que extraia o fundamento autêntico da mensagem bíblica de seu revestimento verbal, corre-se o risco de cair em uma série de paradoxos que Pinto ilustra brilhantemente.

Basta pensar no concordismo, segundo o qual se deveria apoiar, com base na Bíblia, que o universo foi criado em seis dias, que o dilúvio envolveu todo o planeta e não uma região circunscrita evocada inclusive por textos mesopotâmicos paralelos, que o movimento da Terra (na realidade, do sol, de acordo com as Escrituras) foi bloqueado pelo "Sol, detém-te!" gritado por Josué durante uma batalha e assim por diante. Ainda mais arriscado seria o recurso às páginas violentas da Bíblia que algumas vezes propõem a guerra santa. Calcula-se que em pelo menos 1000 passagens do antigo testamento a ira de Deus castiga, vinga, aniquila; em 600 descrevem-se massacres e guerras; em 100 é o próprio Deus quem ordena a execução de pessoas. O que dizer, então, das verdadeiras e próprias charlatanices que são deduzidos dos textos bíblicos sobre extraterrestres ufológicos, semelhantes a anjos alienígenas? As mulheres, aliás, deveriam ser mudas e submissas, se determinadas advertências paulinas fossem tomadas literalmente, independentemente do contexto histórico e social em que são colocadas, assim como acontece com determinada concepção misógina ou patriarcal do Antigo Testamento. E, novamente, o que deveria fazer o fiel que quer ser literal em sua obediência ao texto, quando Jesus o convida a extirpar o olho que escandaliza? Repetimos que a interpretação do texto é necessária para adquirir sua "verdade" real e não aquela aparente. O fetichismo da escrita não garante a adesão à substância autêntica que oculta dentro de si. Nos próprios Evangelhos, por exemplo, ao narrar os eventos e os ditados de Jesus, procede-se a uma interpretação da mensagem subjacente e à sua atualização, sobretudo à luz da ressurreição-glorificação de Cristo. Nessa perspectiva, explica-se a existência de quatro Evangelhos, cada um com sua própria perspectiva hermenêutica que também tem implicações histórico-literárias: um exemplo disso pode ser a leitura da dupla e diferente redação das bem-aventuranças em Mateus (5,1-12) e em Lucas (6,17-26). E finalmente, voltando ao ponto de partida, o problema central da exegese corânica reside precisamente na rejeição geral de toda abordagem hermenêutica ao texto, e é também por essa razão que Pinto reserva seu último capítulo precisamente ao fundamentalismo islâmico e às suas obsessões, com resultados muitas vezes dramáticos.

#Alguém e algo

Não é possível perdoar o assassinato ou o roubo, só se pode perdoar o assassino ou o ladrão. Dirigindo-se para alguém e não a algo, o perdão é revelado como um ato de amor. Há anos conheço Julia Kristeva, a famosa semióloga e psicanalista; juntos colaboramos no diálogo entre crentes e não crentes; eu li muitos de seus textos intensos e muitas vezes emocionantes; também segui seu itinerário sofrido apesar de feliz como mãe. São dela as palavras propostas, capazes de fazer refletir de modo verdadeiramente cristão (Julia não é crente) sobre o tema sempre delicado do perdão: o entrelaçamento é mais uma vez aquele entre a justiça e o amor. A primeira aponta para "algo", isto é, para a recomposição de uma realidade violada e infringida. O segundo, por sua vez, é um "dom" destinado a "alguém", a uma pessoa. Kristeva conclui: "Pedir perdão pelo mal cometido, conceder perdão pelo mal sofrido são duas condições necessárias para que o futuro deixe de repetir o passado e possa renascer a esperança".

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