''O fundamentalismo é financiado com armas e dinheiro do Ocidente''

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25 Novembro 2014

"Eu esperava outro papel da Europa, que foi arrastado cegamente antes da guerra no Iraque e, agora, na Síria. É triste constatar que o fundamentalismo é financiado com as armas e o dinheiro ocidental, e que os inimigos de hoje eram os aliados de ontem." O cardeal Béchara Boutros Raї, patriarca de Antioquia e de todo o Oriente dos maronitas, está em Milão para inaugurar a missão para os fiéis de rito maronita: o arcebispo Angelo Scola confiou a paróquia de Santa Maria della Sanità para esse objetivo. A entrevista com o Vatican Insider é uma oportunidade para uma análise aprofundada sobre a situação do Oriente Médio por parte de um dos mais lúcidos protagonistas da vida das Igrejas daquela região martirizada.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 22-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O Isis, com o seu autoproclamado califado, quer a guerra religiosa: estamos no confronto final entre Islã e cristianismo?

Não devemos cair nas simplificações. Os fundamentalistas do Isis combatem contra todos aqueles que não são como eles: em Mosul e em Nínive, perseguiram até mesmo os muçulmanos sunitas e xiitas, e a minoria dos yazidi. Trata-se de uma ideologia, ou sabe-se lá o quê. São um movimento ultrafundamentalista, que se chamam "takfiri", ou seja, aqueles muçulmanos que acusam outros muçulmanos de infidelidade. Mas o Grão-Mufti do Líbano me disse: "Não podemos chamá-los de takfiri, porque não têm fé e lutam contra todos!". É verdade que os cristãos também foram vítimas, mas o maior número de mortos esteve entre os muçulmanos sunitas e xiitas, e entre os yazidi.

O Papa Francisco está para chegar à Turquia, muito perto da área mais candente do conflito. O que o senhor espera da visita?

Espero que seja uma oportunidade para pedir à Turquia que colabore para pôr fim à guerra na Síria. Infelizmente, os mercenários fundamentalistas da Al Nusra, da Al Qaeda e do Isis entram na Síria através da fronteira turca. O Papa Francisco sabe falar com clareza, e acho que fará um apelo pela paz no Oriente Médio.

Como o senhor avalia a atitude do Ocidente diante da crise no Oriente Médio?

Eu esperava outro papel da Europa, que foi arrastada cegamente antes da guerra no Iraque e, agora, na Síria. Nós pedimos à comunidade internacional: chega de guerra na Síria e no Iraque, chega da tragédia dos palestinos. Estou convencido de que o conflito israelense-palestiniano é o maior foco a ser resolvido, se quisermos a paz na região. E a solução só pode ser a dos dois Estados: por que não se faz? Sem Estado palestino, a guerra não terá fim. Depois, há o conflito árabe-israelense, com as zonas ocupadas na Síria e no Líbano. Enquanto não forem aplicadas as resoluções da ONU, não haverá paz. É preciso pôr fim na guerra na Síria: o papa falou claramente sobre o comércio de armas. A Europa deve ajudar a reconciliação, deve favorecer a recomposição do conflito entre muçulmanos sunitas e xiitas, e ajudar o Islã a separar a religião do Estado.

O que pedem os cristãos?

Acima de tudo, o que não pedem: não pedem nenhum protetorado! Não pedem para ser protegidos pelo Ocidente. Os fundamentalistas nos acusam de sermos descendentes dos cruzados, mas nós vivemos lá por séculos antes da chegada do Islã. Os cristãos do Oriente Médio, em 1400, em vida comum com os muçulmanos, transmitiram valores e cultura. O Ocidente, inundando de armas e de dinheiro, destrói aquilo que criamos e, na verdade, aumenta o fundamentalismo. É triste constatar, olhando para o que aconteceu nas últimas décadas, que os inimigos de hoje eram os aliados de ontem. Aos cristãos não servem apelos para que deixem o Oriente Médio, servem políticas de investimento para o desenvolvimento, para poder dar empregos.

Há vozes muçulmanas que se levantam contra o Isis?

Muitos muçulmanos são contra, mas não ousam se declarar. Mas também há vozes de condenação. Nos dias 2 a 4 de dezembro, na Universidade de Al Azhar, no Cairo, ocorrerá uma reunião de cúpula entre muçulmanos, à qual também foram convidados os cristãos, para denunciar o fundamentalismo do califado.

Que consequências esses conflitos têm na situação do seu país?

Um terço da população libanesa, segundo a ONU, está abaixo da linha da pobreza. No Líbano, vivem meio milhão de refugiados palestinos e um milhão e meio de refugiados sírios. A metade dos habitantes já são refugiados. Muitos deles, para sobreviver, aceitam receber menos para trabalhar. Um país de apenas 10 mil quilômetros quadrados tem possibilidades limitadas. Mas o Líbano, apesar das dificuldades – somos um Estado neste momento sem presidente, por causa dos conflitos entre sunitas e xiitas, que reflete o que está acontecendo na região –, continua sendo um modelo de convivência para o Oriente Médio, mas também para o Ocidente. Um modelo em que os muçulmanos renunciaram à sobreposição entre religião e política, e os cristãos renunciaram àquela laicidade que acaba colocando Deus e a religião de lado.

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