As novas dores da alma. Entrevista com Julia Kristeva

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Por: André | 27 Março 2014

Ao cruzar o portão da casa parisiense de Julia Kristeva (foto), penso na feminista ultralutadora, na jovem redatora da revista de vanguarda Tel Quel, na inquieta psicanalista e estudiosa de semiótica amiga de Foucault, de Barthes, de Derrida... E logo me encontro com uma bela senhora setentona, que sem renegar efetivamente esse passado, está percorrendo itinerários que se enriqueceram com novos matizes.

 
Fonte: http://clar.in/1p7DmBr  

“Nossa herança cultural é dupla. Por um lado, o cristianismo, por outro, o Iluminismo, ruptura irreversível da civilização europeia. Sobretudo aqui na França: pátria da revolução francesa e dos direitos humanos. No momento em que a noção de pecado perde sentido para a parte secularizada da população persiste a grande preocupação sobre o significado da ética laica. Demonstra-o muito bem o dilema do atual governo francês, que se pergunta se é justo ensinar uma moral laica ou defender um ensinamento laico da moral. Dado que um sistema de regras pré-fabricado que funciona bem para todos é agora impensável. Trata-se, pois, de reconhecer a especificidade da vida interior de cada um e, consequentemente, encontrar a versão singular, pessoal, dessas regras.”

A entrevista é de Franco Marcoaldi e publicada no jornal argentino Clarín, 20-03-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

De modo que, para você, a ideia de limite pode ser salvaguardada apenas mediante um cruzamento entre a tradição religiosa e a modernidade laica.

Absolutamente. O novo humanismo passa por uma reavaliação permanente de todos os códigos morais da humanidade, inclusive o da religião que nos precede. Essa herança não pode ser deixada nas mãos da Frente Nacional ou das diferentes formas de integrismo. É necessário que nas escolas se ensine história da religião, para encaminhar-se, não para um sistema de regras absolutas, mas para uma interrogação ininterrupta da tradição. Interrogação que também deve valer para os legados da revolução das Luzes. Esse período produziu uma nova liberdade, até então impensável: tanto do pensamento como do corpo, contra os diferentes dogmatismos religiosos e de classe. Mas pudemos experimentar também os riscos inscritos nessa liberdade. Penso nas consequências de uma libertação burguesa que desembocou primeiro no terror e depois no colonialismo; de um terceiromundismo que muitas vezes abriu as portas para o fundamentalismo religioso. E penso também em um feminismo em grande escala, que apesar de ser generoso, é incapaz de enfrentar muitas exigências singulares, a começar pela experiência da maternidade. Nietzsche dizia que é preciso colocar um grande ponto de interrogação sobre todas as questões mais sérias que se apresentam. Voltando ao nosso caso: o que é o pecado? O que é a transgressão? O que é a negação da norma?  O que é a rebelião? Assim como é necessário voltar a interrogar-se sobre a ideia de autoridade.

Justamente sobre esse ponto. Quem tem hoje autoridade para estabelecer o limite que não pode ser ultrapassado?

Não posso afirmar que o conceito de limite esteja desaparecimento. Dou-lhe um exemplo concreto que tem a ver justamente com a figura da autoridade. Vivemos em uma espécie de entusiasmo romântico ligado ao enorme desenvolvimento das ciências médicas, com base no qual, por exemplo, a velha figura do pai já não parece ser indispensável. Bem. Isso não exclui que uma criança, para crescer, necessite de todos os modos separar-se passional e sensorialmente da mãe. E para que isso ocorra, deve intervir a autoridade que lhe imponha limites. Esse papel poderá ser interpretado, não sei, pelo pai genético, pelo avô materno, por um professor..., ou por um psicanalista, se essa criança não aprende a ideia de limite. Mas certamente essa passagem não poderá ser evitada. Porque precisamente nós, herdeiros do Iluminismo e das ciências humanas, sabemos bem que uma pessoa, para chegar a se adulta, necessita “estruturar-se”, por conseguinte, apoiar-se em uma norma. Não para cumprir as vontades de uma igreja ou de qualquer forma de confessionalidade, mas por uma necessidade psíquica. A autoridade em que estou pensando estará fundada em um saber plural e em diversas formas de experiência, de modo que será capaz de se adaptar a cada indivíduo.

Talvez para nós, leigos europeus, as coisas se complicam pelo fundamento religioso da moral. É diferente o caso das sociedades orientais que têm fundamentos laicos autônomos: penso no confucionismo.

Não estou tão segura de que a mescla da herança greco-judeu-cristã combinada com o Iluminismo nos torne mais impotentes em relação a outras situações. Pelo contrário, creio que nessa encruzilhada estão inscritas potencialidades das quais não estamos suficientemente orgulhosos. Se a Europa está assim em crise e no fundo deprimida é porque não utilizou a melhor carta que tem na manga: a cultura. Já Duns Scoto, no século XIII, falava da verdade como de algo que não pertence nem a categorias abstratas nem à opacidade da biologia, mas da hecceidade (Deleuze coloca a hecceidade como um princípio de individuação em um plano unívoco de imanência. Para Deleuze, as expressões singulares do plano são hecceidades e estão longe de representar uma coisa ou um sujeito), o “isto”. Em cada um há uma faísca de exceção: e ali se busca a verdade. Essa é a verdadeira mensagem europeia, alheia tanto à cultura chinesa como à árabe. Desde o Maio de 68, desde os anos do maoísmo, mantive-me em contato permanente com a cultura chinesa. Uma cultura que graças à mistura de taoísmo e confucionismo produziu uma adaptabilidade extraordinária com o cosmos, a natureza, o fluxo da vida; uma sociedade em que os melhores legados confucianos garantem o respeito pela tradição. Não obstante, frente à explosão da demanda de direitos individuais, são eles que se encontram em dificuldades. E identificam na cultura europeia o modelo a seguir.

Se se fere a ideia de limite, também acaba a ideia de transgressão. Nesse ponto, não perde sentido também o clássico mito do Don Juan?

Todos sabemos que determinado feminismo, sobretudo, estadunidense, mobilizou-se contra o homem sedutor, ao qual tudo é permitido, e que evoca justamente o mito do Don Juan. Em muitos sentidos foi e é uma batalha absolutamente justa, como demonstram ainda muitos casos em que homens de poder impõem seus desejos às mulheres com uma agressividade notável. Mas, as consequências foram duas: por um lado, uma crise cada vez mais evidente da virilidade, com o homem ocidental oscilando entre a impotência e a violência; pelo outro, a negação da sedução, elemento imprescindível do erotismo.

Nesse cenário, quais são as novas “doenças da alma”, para usar uma expressão sua de alguns anos atrás?

As ligadas ao enfraquecimento da família, da escola, em geral dos lugares de integração. Sem contar com o crescente papel da imagem, que substitui a linguagem e faz com que o homem falante se torne cada vez menos falante. Enquanto isso, o sistema de comunicação já cobre todo o campo visual sob uma imensa tela superficial, em detrimento da profundidade, do foro íntimo. E nesse vazio crescente, nessa condição de desadaptação definida em termos psicanalíticos como “de-liaison”, que penetra com sucesso em cada forma de integrismo, através de uma espécie de capitalização das pulsões de morte enviadas aos meninos “doentes de idealismo”. Aqueles que deixam de reconhecer não só a diferença entre bem e mal, mas também entre dentro e fora, entre o si mesmo e o outro. Nesse ponto, também o limite da morte perde sentido.

Por um lado, o tradicionalismo religioso, por outro lado o niilismo que avança. Não parece haver muito espaço para um novo humanismo.

Eu, pelo contrário, penso que há espaço. Na época da globalização, não se enfrentam somente diferentes línguas e religiões, mas também diferentes morais. Para nós a tarefa é entretecer uma espécie de Manto de Arlequim, uma espécie de ponte ideal entre os códigos morais de cada um. A humanidade já não aparece a nós como um universo, mas como um multiverso, e nisto me apoio na astrofísica e na teoria da proliferação dos universos possíveis. Por isso, falo de Manto de Arlequim como de uma função social e normativa, a que deve corresponder a mesma releitura da tradição e de sua concepção de limite. Ao final da sua Crítica da Razão Pura, Kant entrevê a possibilidade de um corpus mysticum de seres racionais, no qual o Eu e seu livre arbítrio se reúnem com algo totalmente diferente de si. É muito mais que a reivindicação do desgastado conceito de solidariedade. É uma incitação a entrar em contato com o outro, para compreendê-lo, salvaguardando sua singularidade, sua exceção. Para consegui-lo, é indispensável criar um novo tipo de pioneiro do humanismo, disposto a travar a batalha de uma negociação inesgotável entre as diferenças.

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