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18 Março 2019

Na esteira de Greta Thunberg, jovem sueca de 16 anos, os estudantes do ensino médio e universitários convocam uma “greve mundial pelo clima”, que acontece no dia 15 de março.

A reportagem é de Olivier Nouillas, publicada por La Vie, 13-03-2019. A tradução é de André Langer.

“Não, diretora, eu não estou faltando às aulas: eu estou em greve pelo clima”. Escrito em um cartaz, a frase é brandida com os braços abertos pela Callisto, uma estudante de 17 anos de Antony (Hauts-de-Seine). Com uma mistura de segurança e timidez, esta colegial misturou-se aos 400 a 500 manifestantes – estudantes do ensino médio e universitários – que organizam pela primeira vez um sit-in nesta sexta-feira, 15 de fevereiro, em frente ao Ministério da Transição Ecológica e Solidária: “Greta teve uma ótima ideia, incentivando-nos a nos mobilizar todas as sextas-feiras, diz ela. Como os adultos têm sido incapazes de agir eficazmente contra as mudanças climáticas, cabe a nós, jovens, nos encarregar de nosso futuro”. Ao seu redor, em um clima pacífico e festivo, os manifestantes gritam, com dois slogans: “E 1, e 2, e 3 graus: é um crime contra a humanidade” e “Somos mais quentes, mais quentes que o clima!”

Greta é Greta Thunberg. A jovem sueca de 16 anos, com seus cabelos trançados que mostram um rosto de bebê, tornou-se a musa dessa nova geração que está se mobilizando pelo clima. Tudo começou com o cartaz “Skolstrejk för klimatet” – “greve escolar pelo clima” –, com o qual a jovem Greta se instalou, no início de agosto, na calçada em frente à entrada do Riksdag, o Parlamento sueco. Sua luta solitária, ainda mais comovente por ser ela autista Asperger, é veiculada pelos jornais e mídias sociais suecos.

Na sequência, manifestações semelhantes de jovens estão ocorrendo em Helsinque, Londres e Bruxelas, reunindo cada vez mais pessoas, de 10 mil a 15 mil na Grã-Bretanha e na Bélgica. O que atraiu a atenção da ONU, que convidou, no final de novembro, Greta Thunberg para falar na tribuna da COP24, em Katowice, na Polônia. Seu discurso de três minutos impressionou os delegados pela sua maturidade, de modo que a sua famosa frase “I want you to panic” – “Eu quero que você entre em pânico” – foi manchete do Guardian Weekly, semanário do jornal britânico muito influente, que fez da luta contra as mudanças climáticas um dos seus eixos editoriais.

Depois, em janeiro de 2019, ela foi – de trem – ao Fórum Econômico de Davos, na Suíça, onde ela repreende os principais líderes econômicos nesses termos: “Eu acho que é insano que as pessoas que discutem aqui especialmente a desregulamentação do clima, cheguem em um jato particular”. A jovem, cuja mãe é cantora de ópera e o pai, ex-ator, também converteu a sua família para o vegetarianismo e para o carro elétrico... Acusada de ser manipulada por seus pais ou até mesmo de promover o “capitalismo verde”, ela responde em sua página no Facebook: “Eu não participo de nenhuma organização. Às vezes, apoio e coopero com várias ONGs que trabalham nos campos do clima e do meio ambiente. Mas eu sou absolutamente independente e represento apenas a mim mesma”.

Na sexta-feira 22 de fevereiro, Greta Thunberg estava em Paris, convidada pelo ramo francês da Youth For Climate – Jovens para o clima. Da Ópera à Praça da República, são pelo menos dois mil manifestantes, quatro vezes mais do que na semana anterior. Suzanne, 17 anos, no ensino médio do 4º Distrito de Paris, veio com um cartaz particularmente imaginativo: “Menos ricos, mais colmeias!” “Se a biodiversidade entrar em colapso, que futuro teremos? – pergunta. Para os jovens da minha geração, não se trata tanto de ser verde, mas de permanecer vivo. E a ação de Greta nos incita a tomar a palavra e falar alto e claro”. Ela lamenta a falta de espaço que os cursos de ciências da vida e da terra dedicam à mudança climática.

Naquele dia, o “efeito Greta” também foi sentido pela presença de 200 jornalistas e fotógrafos que se acotovelavam para imortalizar a presença da jovem à frente dos manifestantes. Estressada por essa efervescência da mídia, ela proferiu poucas palavras, inclusive quando foi recebida no final do dia – a pedido da jovem – pelo presidente Emmanuel Macron no Élysée. O encontro provocou, por outro lado, algumas tensões dentro da delegação dos liceus, dividida entre um polo reformista e um mais radical.

“Sejamos claros: não podemos ser pelo clima e pelo capitalismo” – foi assim que protestou um estudante da Faculdade de Tolbiac, que veio para participar de uma assembleia geral ecologista inter-campus franciscana organizada no final de fevereiro no hall da prestigiosa École des Hautes Études en Sciences Sociales, em pleno coração de Paris. À sua frente, um estudante da Sorbonne defende uma aproximação mais consensual: “Para ser influente junto ao governo, precisamos de todos e de todos os modos de ação”. Em debate, o apelo à “desobediência civil” defendida em um Manifesto da Juventude pelo Clima, adotado por um grupo de estudantes que se reuniu no dia 12 de fevereiro em Jussieu.

Um outro estudante tenta fazer a síntese: “Certamente, a desobediência civil é uma forma de ilegalidade, mas não é uma violência praticada contra as pessoas, portanto, os seres vivos. O que seria incompatível com os valores ecológicos”. A escuta permanece benigna, porque os presentes adotaram os métodos de comunicação defendidos pelos grupos ambientalistas mais ativistas – Alternatiba, Action non Violente, ANV Cop 21, Amigos da Terra, Greenpeace, etc.: não se assobia, não se aplaude, mas se levanta ou abaixa as mãos. E, para falar, a pessoa levanta a mão enquanto espera sabiamente que lhe seja dada a palavra. Além disso, por enquanto, todas as marchas pelo clima – de adultos e as dos mais jovens – foram declaradas não violentas. Um clima que contrasta com os excessos relacionados ao movimento dos “coletes amarelos”, e que faz com que se participe muitas vezes em família.

“Há também uma grande diferença sociológica com os ‘coletes amarelos’ – enfatiza Maxime Gaborit, chefe de curso na Sciences Po, que faz parte do coletivo de sociólogos Quantité Critique, que estuda os dois movimentos. As marchas pelo clima reúnem principalmente jovens de categorias socialmente mais abastadas, dos CSP+”. Mas ele nota, no entanto, três possíveis linhas de convergência: “Aparece uma solidariedade intergeracional muito forte – luta-se certamente por si mesmo, mas especialmente pelas gerações futuras –, dá-se destaque ao sistema econômico capitalista e desigual e, finalmente, é o Estado que é diretamente visado, seja por sua injustiça ou por sua falta de ação”.

Em todo caso, a convocatória para a sexta-feira, 15 de março, multiplica-se e se estende. O movimento transforma-se até mesmo em um “week-end climático” com o anúncio de todos os movimentos ecologistas “adultos” – especialmente aqueles que estão por trás da petição “O negócio do século”, assinada por mais de 2.150.000 pessoas, contra a “inércia climática” do governo – de uma nova marcha no dia seguinte, sábado, 16 de março. Pela primeira vez em sua história, escoteiros e guias da França se juntam a essa mobilização.

“Diante da urgência ecológica, não podemos mais, de fato, ser tímidos – disse François Mandil, delegado nacional do movimento. Um dos nossos quatro pilares é ‘viver de forma diferente no planeta’, e a encíclica Laudato Si' do Papa Francisco apenas reforçou nossa sensibilidade à ecologia”. A única diferença é que os escoteiros não pedem formalmente uma greve nas escolas no dia 15 de março, mas apenas para se mobilizar. Este é também o título de um comunicado que assinaram, juntamente com o MRJC, com as agremiações dos alunos do ensino médio e universitários como a Fidl, Fage, Solidaires ou ainda Unef. “Para que o mundo se torne desejável novamente, devemos nos libertar da sociedade de consumo e do desperdício”, preconiza François Mandil.

No dia 1º de março, na Praça Saint-Michel de Paris, durante a terceira sexta-feira de mobilização dos jovens, quatro escoteiros de Seine-et-MarneAntonina, Keri, Augustin e Lucille – participaram da sua primeira manifestação: “Nós nos sentimos bem, porque o clima é ao mesmo tempo determinada, simpático e não violento”. Em seu cartaz improvisado estava escrita essa metáfora, símbolo de uma juventude que se sente em estado de emergência diante da ameaça climática: “Os dinossauros achavam que tinham tempo...”.

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