''Plenária da Igreja da Austrália pode esperar: assim se evita o escândalo''

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06 Março 2019

“A crise dos abusos sexuais colocou a Igreja Católica em crise globalmente, e em todos os lugares a resposta foi uma guerra legal de grande escala. O Vaticano, as hierarquias nacionais e os bispos locais se desviavam e esquivavam. Quando havia condenações, havia recursos. Quando todo o resto fracassava, eles declaravam falência para não terem que pagar.”

A opinião é da advogada e terapeuta familiar estadunidense Gail Grossman Freyne, mediadora e membro fundadora do WWITCH (Women’s Wisdom in the Church), de Melbourne, Austrália. O artigo foi publicado em National Catholic Reporter, 04-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Movendo-me frequentemente contra a maré da sabedoria convencional, eu emigrei da Austrália para a Irlanda no início dos anos 1970. Em 1989, representando um projeto educacional local, visitei um arcebispo anterior de Dublin e lhe pedi uma contribuição financeira. Ele sorriu e arranjou um encontro com o contador diocesano. Esse padre também sorriu, mas me disse que eu não receberia nenhum dinheiro para a minha causa, porque cada possível centavo estava sendo guardado para financiar indenizações no litígio antecipado dos abusos sexuais. Três anos antes, os bispos irlandeses começaram a se assegurar contra esses riscos.

A crise dos abusos sexuais colocou a Igreja Católica em crise globalmente, e em todos os lugares a resposta foi uma guerra legal de grande escala. O Vaticano, as hierarquias nacionais e os bispos locais se desviavam e esquivavam. Solicitavam injunções para impedir que os documentos fossem liberados para as comissões estatais de investigação. Quando as autoridades estatais tinham os documentos, a Igreja fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar os processos, contando com o estatuto de limitações e com a limitação de qualquer extensão desses estatutos para impedir novos processos.

Quando havia condenações, havia recursos. Quando todo o resto fracassava, eles declaravam falência para não terem que pagar.

Eles lutaram contra os sobreviventes nos tribunais durante anos cheios de dor. O Vaticano até recorreu à soberania de Estado para se recusar a entregar documentos a uma investigação irlandesa e às Nações Unidas.

Lei, lei e mais lei. Qualquer coisa e tudo para proteger a instituição. De novo e de novo. Houve alguns processos devidos, mas nenhuma equidade. Houve uma indecente corrida à justiça, onde deveria ter havido um cuidado abnegado.

Esse recurso à lei foi um grande erro. Foi um plano de ação que mostrou que a Igreja estava em queda livre moral, comprometida apenas com um autointeresse institucional desenfreado. Foi uma estratégia que gerou um escândalo muito pior do que aquele que eles ainda estão tentando encobrir até hoje.

Ainda pior, foi um beco sem saída, espiralando cada vez mais para baixo em um pântano de prevaricações. Toda vez que uma mentira era exposta, a falta de confiança aumentava, e os fiéis se afastavam com desgosto.

No mesmo ano em que voltei a morar na Austrália, o governo estabeleceu uma Comissão Real para Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil (2013-2017). Para ajudá-los em sua resposta a essa investigação governamental, os bispos australianos instituíram o seu próprio Conselho de Verdade, Justiça e Cura. A infeliz moral da história para a Austrália é que nenhum dos bispos envolvidos em encobrir o abuso se apresentou para confessar. Sem a verdade, não pode haver responsabilização; sem responsabilização, não pode haver justiça; e, sem justiça, não pode haver cura.

Os próximos passos eclesiais foram dados em 2018 com a criação da Catholic Professional Standards Ltd. e do Grupo Consultivo de Implementação. Ambos são compostos por leigos bem qualificados, mas cada iniciativa é fundamentalmente falha. A constituição da empresa Catholic Professional Standards estipula quatro membros – dois bispos (o arcebispo Mark Coleridge, de Brisbane, e o bispo William Wright, de Maitland-Newcastle) e dois superiores religiosos. Seja o que for que o conselho “independente” recomende, isso pode ser vetado por esses membros. Da mesma forma, o Grupo Consultivo de Implementação leigo é, como descrito, meramente consultivo.

Apesar de protestos contrários, todas essas três iniciativas são manobras costumeiras. Nem o conselho, nem a empresa, nem o grupo consultivo têm, em seu interior, a possibilidade de uma Igreja renovada, porque os bispos, os mesmos responsáveis pela crise, insistem em permanecer no controle.

Por fim, a Austrália está oferecendo a si mesma agora um Concílio Plenário, que será realizado em duas sessões em 2020 e 2021. Coleridge, o chefe da Conferência dos Bispos da Austrália, disse que a ideia de uma plenária surgiu a partir do pedido do Papa Francisco em relação à sinodalidade. Promete-se participação. As palavras usuais – “escuta” e “consulta”, “diálogo” e “discernimento” – estão sendo todas usadas.

Mas é difícil conservar a fé ao ouvir o que os bispos têm a dizer sobre o propósito do concílio. O arcebispo de Sydney, Anthony Fisher, nos conta na primeira frase da sua declaração introdutória: “O propósito de um Concílio Plenário não é mudar o magistério ou a disciplina da Igreja”.

Ele não poderia ter deixado mais claro que esse concílio, por sua própria natureza, é um instrumento da hierarquia da Igreja. Ele sugere que devemos discutir sobre como combater o secularismo virulento e/ou a ascensão do ateísmo. Duas excelentes perguntas para deixar de molho as conversas sobre a responsabilização dos bispos e a governança da Igreja.

Talvez ele tenha esquecido que a marcante obra de um homem prestes a se tornar santo, John Henry Newman, intitulava-se “Sobre a necessidade de consultar os fiéis em questões de doutrina”.

No entanto, apegamo-nos à esperança e tentamos alimentar nossa fé oferecendo as nossas sugestões. Se os bispos têm muito a aprender, nós também temos.

Em um artigo publicado em novembro passado, Wright, com extraordinária ingenuidade, descreve o conteúdo dessas sugestões como “pet peeves” [coisas incomodativas]. Ele continua: “Eu não fiquei muito impressionado com os pensamentos de muitos. (...) É a mesma pauta que eles defendem há anos (...) celibato opcional para os padres, mulheres-padre, diminuição adicional dos papéis de ensino e de liderança do clero, revisão do ensino moral da Igreja (...) maior inclusão (...) mais consultas sobre tudo em todos os níveis, e assim por diante”.

“E assim por diante”? Ele se pergunta por que apenas 10% dos católicos vão à missa. Será que, talvez, é porque eles estejam caindo ao entrar na Igreja em cima das suas “coisas incomodativas”?

Esse Concílio Plenário está em perigo de dissipar qualquer confiança restante entre os fiéis australianos. Se você montar um processo sinodal, peça que os fiéis participem, prometa que irá ouvir, mas, se disser a eles que suas contribuições tratam apenas de tópicos “voltados para dentro” sobre “como a Igreja deveria ser e agir”, então o processo gerará muitas coisas, e nenhuma delas é boa.

É uma estratégia de contradição, um truque deprimente que parece oferecer mudança e renovação, mas, na realidade, é uma manobra para adiar ou evitar a reforma da Igreja. É um exercício manifesto de má-fé. É um abuso de poder que é, ao mesmo tempo, uma negação total da sinodalidade e, o mais chocante de tudo, outro encobrimento. Assim, é justo gerar um escândalo de desespero ainda maior.

Para evitar esse desastre, a Igreja australiana precisa de uma moratória no atual processo do Concílio Plenário. Não estamos com pressa; a última plenária foi há 82 anos.

Durante essa moratória, uma mulher deveria ser nomeada como copresidente. Um órgão, inteiramente independente dos bispos, deveria ser estabelecido por sínodos leigos para trabalhar, a serviço da transparência, sobre todas as submissões, para que os leigos definam a pauta.

Um dos itens dessa pauta deve abordar quem votará nas mudanças finais a serem enviadas a Roma. Nada ajudará a Igreja a se recuperar e a se renovar enquanto a hierarquia não estiver disposta a abrir mão do poder e do controle totais, porque a partilha do poder é uma das características da sinodalidade.

Os bispos devem parar de falar como hierarcas e começar a se comportar como servos, compartilhando o governo com todos os batizados. Essa é a Igreja de Jesus, que diz: “Se eu não lavar os seus pés, você não terá parte comigo”.

Se os bispos do mundo quiserem lidar com questões legais, então deixe que o meu argumento final para eles seja o seguinte: há mais de meio século, em 9 de dezembro de 1965, ao retornar a Dublin depois do Vaticano II, o arcebispo John Charles McQuaid pregou: “Vocês podem ter se preocupado muito com as mudanças que estão por vir. Permitam-me tranquilizá-los. Nenhuma mudança irá preocupar a tranquilidade das suas vidas cristãs”.

Ao aprofundar o medo de que essa continua sendo a mentalidade de vocês, em nome da Igreja Católica Romana leiga, eu peço um adiamento do escândalo para evitar o desespero dos fiéis.

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