Por que o Papa Francisco está viajando ao ''coração do mundo muçulmano''?

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05 Fevereiro 2019

A visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos é significativa porque “é a primeira visita de um papa à Península Arábica, que é o coração do mundo muçulmano”, disse o arcebispo Michael L. Fitzgerald, um dos principais estudiosos do Islã na Igreja, em entrevista exclusiva à America na véspera da visita. Mas, ao mesmo tempo, “pode-se dizer também que ele está visitando a periferia desse mundo, já que os Estados do Golfo são uma periferia; eles não são a Arábia Saudita”.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 03-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, será uma visita “muito breve”, que também poderá ser considerada “mais simbólica do que qualquer outra coisa”, disse o arcebispo.

O arcebispo inglês, que estudou na Tunísia e é fluente em árabe, foi presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e, posteriormente, núncio papal no Egito. Ele conhece bem o Oriente Médio e o mundo islâmico. America falou com ele em Roma, na véspera da visita do papa aos Emirados Árabes Unidos.

Ele considera que o tema do encontro inter-religioso, “Fraternidade Humana”, é “particularmente interessante” e disse que lhe trouxe à mente o fato de que, décadas atrás, o Papa João Paulo II “teve que explicar o fato de ter usado o termo ‘irmãos’ ao falar dos muçulmanos e disse: ‘Eu me dirijo a vocês deliberadamente como irmãos, porque somos todos criados pelo mesmo Deus’”.

Ele observou que, desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco sempre se referiu aos muçulmanos como “irmãos” e, na videomensagem enviada ao povo dos Emirados Árabes Unidos na véspera desta visita, ele chamou o grande imã da histórica Mesquita de Al Azhar, xeique Ahmed al-Tayeb, de “meu amigo e meu irmão”.

O arcebispo Fitzgerald, que conhece o xeique Tayeb desde quando era núncio no Egito, ressaltou que esta será a quinta vez que o Papa Francisco e o grande imã se encontraram. Ele explicou que o xeique Tayeb é uma autoridade significativa no mundo muçulmano por causa do prestígio da Al Azhar, que existe desde o século X.

A Al Azhar era originalmente uma instituição xiita antes de se tornar uma importante organização sunita que atrai, hoje, estudantes de todo o mundo islâmico. Ele observou que a Al Azhar “é muito tradicional em muitos aspectos” e, para alguns jovens muçulmanos, particularmente na Turquia, Malásia e Indonésia, ela é considerado “não suficientemente progressista”.

Ele vê uma “continuidade” entre a participação do papa na reunião de Al Azhar em 2017, o encontro dessa segunda-feira, 4, com anciãos muçulmanos e o encontro inter-religioso sobre “Fraternidade Humana”. Ele observa que o xeique Tayeb tem o papel principal em ambos os eventos, e que a visita de Francisco aos Emirados Árabes Unidos ocorre no 800º aniversário do encontro de São Francisco e Sultão Kamil.

Dom Fitzgerald acredita que o Papa Francisco “quer que todas as pessoas, de todas as diversas religiões, cooperem no nível humano em relação aos problemas humanos”.

“Ele reconhece que não vamos entrar em acordo em questões de crença”, acrescentou. “Então, a sua participação é um incentivo para os muçulmanos e para outros no mundo de que a paz e a fraternidade são importantes.”

Solicitado a resumir em poucas palavras o significado da visita de Francisco aos Emirados Árabes Unidos, o arcebispo Fitzgerald ilustrou: “Meu irmão me convidou, e vou me unir a ele. Estou respondendo ao meu irmão”.

Na entrevista, ele comparou a viagem desse fim de semana à visita de dois dias do Papa Francisco ao Cairo em abril de 2017 e observou que a diferença é “a composição da comunidade cristã”.

Ele explicou: “No Cairo, você tem cristãos locais. Nos Emirados, você não tem cristãos locais. Você tem cristãos que vivem e trabalham lá, em grande número, mas você não tem cristãos locais. Eles podem estar lá há muitos anos – algumas famílias podem estar lá há 20 anos –, mas eles nunca se tornam emiradenses. Eles não têm o direito de se tornar emiradenses. Eles sempre permanecem estrangeiros”.

O arcebispo conhece razoavelmente bem Abu Dhabi e a comunidade eclesial de lá porque ministrou um retiro aos 65 sacerdotes do vicariato do sul (que inclui os Emirados Árabes Unidos, Omã e Iêmen) em outubro de 2016. Todos os padres não são naturais dos Emirados Árabes Unidos, embora, entre eles, haja falantes de árabe nativos de lugares como o Líbano e o Egito.

Há quase um milhão de católicos (principalmente das Filipinas e da Índia) nos Emirados Árabes Unidos. Todos os padres e freiras são estrangeiros, embora alguns possam ser árabes. O arcebispo Fitzgerald disse que ficou “maravilhado com a vitalidade e a alegria dessa Igreja migrante”. Ele observou que, toda semana, de sexta a domingo, há 15 missas em inglês e outras várias em outros idiomas, incluindo árabe, tagalo e francês.

“E as Igrejas estão cheias”, afirmou.

O arcebispo destacou o fato de que “os emires forneceram terras para a construção de igrejas nos emirados, não apenas para os católicos, mas também para os outros cristãos”. Ele disse que os católicos e os outros cristãos “são livres para fazer o que quiserem”, como praticar a sua religião, dentro do complexo da igreja, o que inclui o templo, os escritórios eclesiais, o presbitério e um oratório.

Existem limites para a liberdade religiosa. “Você não pode ir e rezar missa para as pessoas em suas casas”, explicou. No entanto, um cristão pode usar a cruz nos Emirados Árabes Unidos, e há escolas administradas por ordens religiosas.

Questionado sobre “a grande vivacidade dessa comunidade cristã”, o arcebispo respondeu: “Eu diria que eles podem ir à igreja e ser eles mesmos. Eu diria que, para eles, é uma fuga do ambiente islâmico. Não há muito diálogo”.

Ele observou que, embora “não haja cristãos nativos na Península Arábica hoje”, isso nem sempre foi assim. Escavações revelaram a existência de igrejas no leste da Arábia Saudita e no Bahrein, desde os séculos VI ou V, antes do advento do Islã. “O Iêmen era cristão em tempos pré-islâmicos”, observou Dom Fitzgerald, “tanto que no Alcorão se recorda que uma delegação de cristãos veio de lá para ver Maomé em Medina”.

Hoje, no entanto, os únicos cristãos na península são migrantes, e a visita do papa é um motivo de grande alegria para eles.

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